Foto: Mucio Ricardo

Nos idos de 1993, os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como OSGEMEOS, tiveram uma epifania e revelaram ao mundo seus bonecos de cor amarela. Resultado de estudos e imersão, esses personagens representam a originalidade de um trabalho que começou em 1987, enraizado na cultura hip-hop. “Difícil falar em número, quantas coisas a gente já fez”, explica Gustavo em entrevista à Bazaar. “Até começar a viajar, foi muito estudo e trabalho”, completa Otávio.

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Depois de expor em diferentes países (foram mais de 60), finalmente, chegou a vez do Brasil. A primeira retrospectiva da carreira da dupla pode ser vista na Pinacoteca de São Paulo.

A simbologia do universo criado por eles é o que pretende explorar a mostra “OsGemeos: Segredo”, que reúne mais de 60 peças do acervo dos artistas, muitas inéditas no Brasil, e que fica em cartaz até 22 de fevereiro de 2021. “A gente fala que criou, mas esse mundo sempre existiu (na nossa visão)”, explica Otávio.

Obra “The Carnival is Over”, de 2016 – Foto: Divulgação

Seus personagens têm endereço, roupa, identidade, cheiro e cor próprias (alguns, até nome). Se você olhar na rua qualquer um de seus murais, vai reconhecer. “Um segredo que a gente sempre quis guardar”, brinca ele sobre o período entre 1993 e 1998. “A gente dava essa resposta por meio da pintura. Estava ali o segredo”, pontua Gustavo.

Prestes a desvendar esse mistério, a exposição faz um mergulho no processo criativo de simbiose, que tem um pé na música (em especial no rap), na dança, na arte e até nos quadrinhos – herança da geração 1980, que brincou na rua, era incentivado à leitura, mas não largava a TV. Nas salas da Pinacoteca, anotações, obras inéditas, pinturas e esculturas até vídeos, instalações (imersivas e sonoras) e, claro, intervenções.

Parte desse conteúdo foi recuperada com ajuda de amigos e familiares. “Você vê que há muita conexão de lá atrás com o que fazemos hoje. Coisas que a gente nunca deixou de fazer”, diz Otávio. Ainda crianças, encontraram no desenho um jeito de conversar e, de certa forma, de paz: um começava, o outro terminava. O traço é o mesmo e a linguagem, complementar. “Somos viciados em detalhes”, acrescenta. “A gente não sabe explicar (como isso acontece). É uma forma de materializar”, completa Gustavo sobre as criaturas.

Gustavo (de camisa jeans) e Otávio na Pinacoteca de São Paulo – Fotos: Mucio Ricardo

A escolha da Pinacoteca não é por acaso. Foi lá que tiveram o primeiro contato com o grafite, aos 7 anos de idade, onde tinham material de reciclagem à mão para transformar em arte. Em casa, recriavam cenários de TV com caixas de sapato e de papelão. Na Pina, também tiveram acesso ao spray, que deu forma aos primeiros grafites – o bairro paulistano Cambuci foi o berço.

“É muito especial para a gente, e as pessoas vão sentir isso. Queremos provar às novas gerações que é possível acreditar em um sonho”, diz Otávio. Depois de viajar o mundo e, agora, com esse reconhecimento em casa, os irmãos querem retribuir. “Temos ideia de fazer workshops, estamos elaborando esse programa para dividir aquilo em que a gente sempre acreditou”, conta o outro irmão.

Sempre em mutação, a mente deles não para. A dupla vem experimentando novas plataformas e mídias sem esquecer de onde se fortaleceram: a rua. “Arte é mais forte que qualquer outra coisa em termos de censura: do sarau à lateral de um prédio. Acreditamos nessa força, que muda as coisas para o bem”, concordam.