Fotos: reprodução
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Por Carol Almeida

Os pessimistas nem cogitariam, os sensatos suspirariam em descrença e até mesmo os mais otimistas poderiam franzir a testa para a ideia de abrir uma nova editora num mercado literário demarcado por latifúndios de grandes empresas e ajustes fiscais nada amigáveis. O espaço para iniciativas independentes é quase uma trilha de Indiana Jones: estreito, arriscado e selvagem. Mas, quando o italiano Gianluca Giurlando se mudou para o Brasil, em 2010, sua determinação em transformar seus anos de leitor em um negócio possível resultou no lançamento, neste ano, da Rádio Londres, uma editora que já surge com um catálogo bastante vistoso (e com um projeto gráfico sedutor, que beira o pop) para quem está apenas começando a abrir as janelas da casa.

“Não acho que minha escolha seja exatamente corajosa. Estou convencido de que, se a qualidade dos livros é alta, vamos, sim, fazer sucesso”, afirma Gianluca em português fluente. Hoje ele coordena uma equipe de cinco pessoas fixas no Rio de Janeiro, mais um time de colaboradores, entre revisores e tradutores. Sua proposta é tanto publicar títulos estrangeiros, que, apesar da boa reputação lá fora, terminaram sendo negligenciados no Brasil, quanto comprar direitos de promissores escritores que ainda não foram abraçados pelas grandes editoras. Por enquanto, todos terão uma modesta tiragem: 3 mil exemplares. Ainda se familiarizando com o mercado – é sua primeira incursão como editor, após 14 anos morando em Londres, onde estudou filosofia e ciência política –, ele afirma que, até agora, não teve problemas de distribuição (o grande pesadelo das editoras pequenas) e que o retorno dos leitores está sendo excelente.

Entre os autores já lançados estão o americano John Williams (1922-1994), redescoberto em 2013 com o romance Stoner, curioso caso de best-seller póstumo com reverências entusiasmadas da crítica; o colombiano Andrés Caicedo (1951-1977), que morreu muito jovem deixando algumas das obras mais pujantes da literatura latino-americana,entre elas Viva a Música!, romance guiado em primeira pessoa por uma garota “loira, loiríssima” disposta a viver plenamente sua beleza; o senegalês Abasse Ndioe, que, com A Vida em Espiral, ganhou o mercado literário francês e se tornou referência de estudos sobre o senegal contemporâneo; e o americano Ben Lerner, poeta queridinho hoje entre a crítica nos EUA, e que chega ao Brasil a partir de seu primeiro e premiado romance, Estação Atocha. No horizonte dos próximos lançamentos, o cenário é ainda mais animador: quatro romances da Holanda que se tornaram sensações no mercado europeu, entre eles Tirza, de Arnon Grunberg, já chamado de o romance holandês mais importante de todos os tempos, além do segundo e mais premiado livro de John Williams, Butcher’s Crossing. A editora também acaba de adquirir os direitos para publicar o romance de estreia de Atticus Lish, Preparation for the Next Life, uma história de amor nova-iorquina entre uma imigrante ilegal chinesa e um veterano de guerra recém-chegado do Iraque que levou alguns dos mais importantes prêmios literários americanos este ano, além do drama Réparer les Vivants, da escritora francesa Maylis de Kerangal, raro caso de best-seller endossado pela crítica e pelo circuito de prêmios literários.

Carregando o nome de uma estação de rádio clandestina que operava na França ocupada pelos nazistas, a editora pretende funcionar também como uma espécie de resistência: tanto às premissas do mercado editorial quanto à ideia de que o livro não é um bom negócio.