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Por Adriana Lerner

A desconexão com a natureza é o principal combustível do artista plástico Pedro Varela ao dar vida às suas telas. Na recente série “Queimadas”, o niteroiense transforma florestas perfeitas em chamas, causando uma sensação de calor apenas ao olhar para a tela.

A motivação por trás das obras veio do incêndio criminoso de 2018, que destruiu o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. “Aquelas imagens me provocaram de uma maneira que não podia ser represada. Sentia que deveria falar sobre aquilo, pois desde o início aquele fogo era muito simbólico. Era a representação do descaso, da falta de inteligência e sensibilidade da nossa sociedade como um todo”, explica o artista à Bazaar.

O mestre já trabalhava com o imaginário tropical desde 2010, e para ele foi lógico pensar na floresta como essa representação dos trópicos, de uma força que se expande, criando emaranhados e histórias. “Ver aquele museu ardendo em chamas era como ver a nossa casa, nossa sociedade e nós mesmos consumidos pelo fogo. Além disso, não seria novidade nenhuma falar sobre nossas florestas em chamas, já que tanto o Pantanal quanto a Amazônia já haviam sofrido diversas vezes com as queimadas”, reforça.

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Era fim daquele mesmo ano quando o artista começou a série de pinturas, mas o futuro próximo mostrou que essa imagem ficaria cada vez mais recorrente, uma vez que alguns setores radicais da sociedade se sentem bem à vontade em proporcionar o desequilíbrio hídrico e climático, ocupando espaços de preservação com plantações e pátios para gado.

Floresta como protagonista

Colocar a floresta como protagonista dos seus trabalhos faz todo o sentido em uma época em que as queimadas na região amazônica registraram o maior número da história em 2020. “Penso que não estamos separados do meio ambiente, somos parte desse ecossistema, e por isso consigo tratar a floresta quase como um personagem, uma entidade, que nos representa com sua força vital”, garante.

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O mais importante para ele é justamente mostrar o quão profunda é a conexão que temos e, também, que destruir a floresta significa destruir nosso futuro.

Varela mora e trabalha cercado de verde, na densa floresta de Petrópolis, região serrana do Rio. A vista de seu ateliê é tropicalizada e transposta para as suas telas por meio de milhares de plantas, flores e frutas exóticas. Algumas “roubadas” da natureza, outras com inspiração em pinturas barrocas ou de artistas da pintura botânica.

Mas ele também adora inventar plantas “alienígenas”. Outro local de imersão para ele é a natureza da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, na capital fluminense, local que exala a natureza da Mata Atlântica e belos jardins, e onde Varela é professor de Artes Plásticas.

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Para além das telas, o interesse do artista pelo meio ambiente também é cultural. Sente que a identidade do Brasil está ligada à exuberância da floresta. Em suas referências, o verde passa por diferentes épocas, das naturezas mortas barrocas, passando pelas representações feitas por artistas das missões científicas durante o período colonial, até as fotografias contemporâneas do amigo Cássio Vasconcellos. Sem esquecer das ilustrações naturalistas de Ernst Haeckel e, mais recentemente, das esculturas de Frans Krajcberg.

Trabalhar com arte é uma busca constante. Por isso, gosta de experimentar diferentes possibilidades no universo tropical. Admirar uma pintura do jovem artista é caminhar por uma grande floresta encantada. É ter vontade de se perder nos traços minuciosos, em suas pinturas e colagens de cores vibrantes. A sintonia com a natureza não poderia ser mais perfeita na obra de Varela.

Tudo azul

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Para a série “Noite”, pintada com grande contraste entre o fundo preto e diferentes nuances de azul, as obras parecem paisagens banhadas pela luz da lua cheia. Varela gosta de pensar que toda noite é um reset para um novo dia. “Os pigmentos azuis costumam ser bem transparentes e a sobreposição de camadas sempre deixa os tons que estão por baixo transparecerem e essa característica me interessa muito”, explica.

Ao contrário, outras cores possuem uma simbologia facilmente identificável, como o vermelho, amarelo ou branco. Antes da era industrial, o pigmento era raro de ser encontrado na natureza – tanto que artistas antigos pintavam de azul os mantos reais para mostrar sua nobreza. Em inglês, por exemplo, a palavra blue remete à tristeza. Por aqui, temos a expressão “tudo azul”, que significa: está tudo na paz.

Para o artista, o mais bonito do azul é que ele está tanto nas profundezas do mar quanto no céu que nos cobre. Esse mistério ambíguo da cor também faz parte do seu bioma.