Foto: Divulgação
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Por Miriam Spritzer

Empoderamento feminino e igualdade de gênero são dois assuntos que estão em voga nos filmes e séries. Para quem se interessa nestes assuntos, o documentário “A Woman’s Work: The NFL Cheerleader Problem” é indispensável. O filme aborta como de fato funciona as questões trabalhistas das líderes de torcida profissionais do futebol americano por meio de dois casos de mulheres que entraram na justiça para brigar por melhores salários e condições de trabalho.

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O filme é dirigido e produzido por duas mulheres, Yu Gu e Elizabeth Ai e, por meio da história de Lacy Thibodeaux-Fields e Maria Pinzone, as duas líderes de torcida do documentário, fazem comparações de como a indústria do futebol americano trata homens e mulheres. Lacy e Maria foram duas das primeiras mulheres a levarem seus casos trabalhistas à corte americana. E apesar de terem ganhado seus casos, a vitória custou as suas carreiras.

“A Woman’s Work” traz à tona algumas informações que o grande público desconhece sobre o funcionamento da NFL, a principal organização de futebol americano profissional. Apesar de se tratar de uma industria bilionária, há uma grande discrepância salarial das líderes de torcida em relação a outros funcionários e gastos de cada time. Em média o time de torcida ganha menos que o salário mínimo americano e muitas vezes elas mesmas pagam por seus uniformes.

O documentário segue Lacy Thibodeaux-Fields e Maria Pinzone em todo o processo legal que as duas passaram para brigar por melhores condições de trabalho, enfrentando não só críticas de seus superiores, mas de outras líderes de torcida também.

“A Woman’s Work: The NFL Cheerleader Problem” estreou no Festival de Cinema de Tribeca, onde tivemos a oportunidade de conversar com Yu, Lacy e Maria, sobre o filme e os impactos nas suas carreiras e no mercado.

Mesmo sendo brasileira, sempre vemos em filmes e séries a referência de líderes de torcida. Parece que é o sonho de toda menina americana. O que chamou a atenção de vocês ao serem contratadas?
Lacy: Cresci em uma cidade pequena, participei de todos os times de dança e até ganhei uma bolsa de estudos por causa disso. Foi muito difícil pensar que batalhei a minha vida toda para chegar em um lugar e ver que não era nada como deveria ser. Trabalhamos quase que todo o primeiro ano sem receber salário, e qualquer custo que tínhamos saia do nosso bolso. Eu comecei a questionar isso tudo.
Maria: Exatamente, eu via que estava sendo explorada. As pessoas que estavam acima de nós, sabiam que tínhamos 18 ou 19 anos e tiravam vantagem disso. Eu não podia aceitar que isso estava acontecendo.

Vocês chegaram a conversar com colegas sobre essas questões?
Lacy: Eu conversei com várias meninas, e me irritava que ninguém fora eu se chateada com a situação toda. Existia uma cultura de bullying. Era impossível de conversar com a nossa diretora. E nos diziam sempre “se você não está feliz, pode ir embora que temos seiscentas outras meninas que adorariam pegar a sua vaga”.

Uma coisa que o filme mostra de forma clara é a diferença de como o show do jogo de futebol é tratado. A cultura de que o jogador é sério e está lá para trabalhar e receber seus milhões, mas a líder de torcida está lá só para se divertir, por isso não merece um salário alto. Como vocês veem isso?
Lacy: Nunca foi sobre ganhar um caminhão de dinheiro. Apenas ganhar o que é certo. O mascote do time geralmente é pago mais que as líderes de torcida.
Maria: É muito frustrante ter trabalhado tanto para chegar no time e ter quem lhe contratou dizendo que não acha que precisa lhe pagar. E não só a parte salarial, porque no caso eu trabalhava em um escritório de contabilidade também, mas era uma questão de respeito e dignidade.

Yu, você publicou no filme muitos segredos de um dos esportes mais queridos nos Estados Unidos. Quem impactos você espera que o filme traga?
Yu: Eu espero que o filme inspire as pessoas a fazerem o que é melhor para as suas comunidades. Lacy e Maria correram um grande risco para melhorar a vida de todas as mulheres da sua indústria. E isso é muito inspirador para mim como diretora. Acho que no meio do futebol americano isso já está acontecendo com mais e mais processos contra os times. Mas temos que mudar a forma como as mulheres são vistas e valorizadas em todos os campos profissionais. Este é só um começo.

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