Foto: reprodução
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Por Rosana Rodini

Tá no dicionário: “O nomadismo é a prática dos povos nômades, ou seja, que não têm uma habitação fixa, que vivem permanentemente mudando de lugar. Usualmente, são os povos do tipo caçadores-coletores ou pastores, mudando- se a fim de buscar novas pastagens para o gado, quando se esgota aquela em que estavam”.

Corta. 2016. E o cenário não é campo, muito menos o pasto, mas um apartamento em Ipanema. Toca a campainha. Ele pede licença, entra, a pele queimada do sol da Chapada, a dos Veadeiros. “Oi, prazer, eu sou nômade”, se apresenta, antes mesmo de dizer seu nome, estampando no rosto um sorriso do mundo. Tá na cara que está feliz. Amigo de um amigo de um amigo de outro amigo, o nômade francês foi parar lá em casa porque chegou ao Rio de Janeiro sem saber onde ia ficar. Era janeiro. Enquanto não decidia, foi dar um mergulho, que é o que se deve fazer, antes de tudo, qualquer um que baixe nesta cidade, ou em qualquer outra que desfrute de oceano.

“Porque o mar limpa o corpo e a alma”, explica, com sotaque acentuado e a clarividência natural de quem decidiu ver, quer dizer, viver a vida por outro prisma. O nômade deixou a acanhada mala perto da porta de entrada, com o desprendimento de quem entra e sai, de quem vem e vai. “Você está há um ano viajando só com ela?”, pergunto. “Mas por que eu precisaria de mais?”, rebate o nômade, que deixou tudo o que tinha na casa da mãe, que mora a uma hora de Paris, e foi indo, indo. Às vezes, volta. O nômade, gentilmente, foi na esquina comprar umas cervejas, depois voltou para, entre goles gelados, me contar das viagens, da liberdade, de amores em cada porto. Descreveu alguns pores-do-sol, falou sobre como é possível trabalhar de forma mais solta e de que, quando se tem menos, precisa-se de menos. Parece óbvio. E é. “Um dia, quero ser nômade”, digo. “Não tem um dia, só existe o agora. Você está feliz?”, pergunta. Não respondo. Ofereço um banho. O nômade aceita. Depois, pega a mala e vai embora.

Poxa, nômade, caiu no mundo e me deixou com essa… Na verdade, não é só culpa dele. Basta olhar ao redor para perceber que tá cheio de gente mudando de prioridades, fazendo o que, lá no fundo, você também deve estar morrendo de vontade de fazer. Ok, a turma do sabático não é novidade e não basta querer, é preciso poder se dar ao luxo de passar um ano viajando, certo? Nem tanto. As possibilidades são infinitas. Mas tem de arriscar. “Ai, que vontade de largar tudo e ir morar na Bahia, pé na areia, sol, sombra, água fresca, água de coco e uma vida a passos lentos.” A frase, tão banal quanto um bom dia, é escutada à exaustão a cada janeiro. Todo mundo quer, ninguém faz. Ou quase. Vi no Instagram: pousada Amapô, Caraíva, Bahia, Brasil, lá onde o rio encontra o mar. A pousada é obra de Carô Gold e Pitty Taliani, o duo por trás da famosa marca de mesmo nome. “A gente resolveu dar um tempo por aqui. Vamos ficando.” A marca segue. Meio cá, meio lá, e integralmente feliz, que é o que realmente importa.

Na mesma semana, escutei mais dois. Uma que trocou a selva de pedra pelo Mato Grosso do Sul. Agora, seu escritório é no mato e, munida de uma roupa gigante e amarela, do tipo que David Bowie aprovaria, anda, feliz da vida, a fazer mel. Virou apicultora, porque se interessou pelas abelhas e resolveu estudá-las. “Vim pra cá querendo dar uma desligada de tanta velocidade tecnológica. Queria me conectar com a vida real e a Natureza (sim, com caixa alta mesmo) foi a melhor escolha”, me explica por Whatsapp – o timing da resposta é diferente. A outra, arquiteta bem-sucedida, decidiu dar um tempo de seu escritório. Vai para a Índia, morar em comunidade, passar por uma série de transformações em retiros diferentes, abdicar de luxos materiais para lucrar em outras esferas. Os casos seguem.
Parecem extremos. E são. Mas não é preciso largar tudo para morar na Bahia, virar nômade ou monge tibetano. Tem mais a ver com um novo entendimento e até aceitação do que é ser bem-sucedido. Porque tempo e satisfação pessoal valem mais do que segurança. Um slow down que vai além da meditação, da ioga, do retiro espiritual ou do carro pela bicicleta. É hora de frear a corrida desenfreada, dar passos em outra direção. Desacelera, vai! Quem sabe assim até sobra algum tempo para se viver.