Foto: Getty Images

Por Matheus Lopes Quirino

Se a pintura não salvou Vincent Van Gogh, ela retardou o inevitável. Embora tenha morrido jovem, o pintor holandês, em pouco menos de uma década de atividade na pintura, deixou aproximadamente 1.600 trabalhos — entre gravuras, pinturas e esboços. Filho de um pastor calvinista, refugiou-se no sul da França, em Arles, depois de tomar um empréstimo com o irmão Theo para que pudesse pintar. Ele morreu aos 37 anos, “matado” – ainda hoje não é consenso se foi suicídio ou um disparo acidental. Ainda que a dívida tenha sido paga postumamente, a bem da verdade, quem lucrou foi o sobrinho, filho de Theo, que ficou com o espólio da família. Ainda hoje, impressiona a qualidade literária da correspondência de Van Gogh com o irmão, pobre galerista que prestava serviços a um marchand, ponte entre os impressionistas e o pintor, em Paris, na temporada que antecedeu o seu exílio.

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Em Salvação pela Pintura, o professor de história da arte Rodrigo Naves destrincha o expressionista a partir de sua produção, tendo em vista também a correspondência farta com o irmão Theo e os ensaios acadêmicos de críticos renomados, como Giulio Carlo Argan. Naves recolhe pontos cruciais da história da crítica de arte sobre o pintor. Muito se escreveu sobre vida e obra de Vincent Van Gogh, portanto, seu livro parte da premissa de ser um recorte, chamariz, para se aprofundar na literatura que cerca o pintor holandês para além das teses já discutidas sobre expressionismo ou loucura. A análise de Naves pode servir como apêndice ao livro Van Gogh: a Vida, biografia monumental e (até o momento) definitiva sobre o artista.

Como recorte e importante eixo de estudo na biografia do autor, Naves faz uma espécie de psicanálise em terceira pessoa, investiga as razões dos sofrimentos que culminou no suposto suicídio, elencando os problemas com álcool e a intensa solidão que acometia o homem de cabelos vermelhos que vivia em uma casa precária em Arles, respirando um ar repleto de chumbo, pois Van Gogh exagerava na dose de solventes e tinta a óleo.

Sobre este aspecto marcante de sua pintura, os impastos (técnica de pintura) que eram assinatura de Van Gogh, segundo Naves, são provas concretas da luta interna em que vivia o pintor. Com grossas camadas de tinta, ele descreve: “a espessura da massa de tinta irá constituir figuras a partir de pinceladas repetidas – por vezes paralelas, por vezes pluridirecionais – que parecem lutar contra o próprio material que procura torná-la a representação de pessoas e coisas reais”.

Foto: Getty Images

Condenado a um trabalho intermitente, que só teria fim com o fim da própria vida, no curto período de três anos Vincent Van Gogh pintou a maioria de suas telas. Tinha compulsão e obsessão em retratar o mundo ao redor, efeito colateral da solidão extravasada nas pinturas (e na correspondência). Segundo Lionello Venturi, referência para Naves, a série de fracassos pessoais do pintor colaborou para que sua autoimagem fosse maculada. Aos olhos puritanos de Vincent, ao menos, afirma Venturi, em seu livro: “[Van Gogh] faz-se vagabundo, vive na miséria, mas vê uma esperança de salvação na pintura”.

A falta de traquejo com as mulheres e a homossexualidade insinuante a partir da relação com o pós-impressionista Paul Gauguin são lugares comuns mal explorados na crítica, que não ganham palco no livro. Na linha das emoções, Argan vai de encontro com Venturi ao afirmar que “quando se vê como a paixão interna pode exacerbar e deformar as sensações”, sobre o humor do pintor estar diretamente ligado ao estado de espírito, assim podemos dizer das obras de Vincent. Como exemplo, Naves destaca uma carta de Vincent sobre as sensações de retratar o pintor expressionista Eugène Bosch. Ao saturar o amarelo dos cabelos do moço, Van Gogh anseia chegar a um tom quase celestial, colocando-o em um pano de fundo azul, justamente para realçar as madeixas do belga.

Essa obsessão de construir uma personagem iluminada é lembrada pela fortuna crítica nos estudos da fase Clara do pintor (com destaque para seus famosos girassóis), que reflete justamente uma espécie de auge do pintor (embora o termo seja discutível). Em paralelo, ao discorrer sobre a fase Escura, Naves é certeiro ao evidenciar a crueza e o desespero no quadro Os Comedores de Batatas, um dos principais trabalhos do pintor.

Por fim, “Salvação pela pintura” é um livro necessário e atual ao colocar no centro da discussão uma centena de dúvidas sobre os desdobramentos da autoimagem na obra de um artista. Ao levar em consideração o impacto da cor na pintura de Vincent, Naves traz à baila análises riquíssimas de historiadores de grande porte acerca de Van Gogh. De Roger Fry a Antonin Artaud, com primorosas passagens de Argan, a síntese de todo pensamento acerca das emoções do pintor se concentra na filosofia. Ao citar o aforismo de Friedrich Nietzsche (“Lux mea crux/Crux mea lux”) como uma alusão ao emblema da lápide (a cruz, a estrela, do nascimento, enquanto a cruz é o fim), os versos do pensador sintetizam um anseio universal, latente na vida e obra de Van Gogh, que sucumbiu cedo demais ao inevitável fim – mas sua obra, jamais.

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Salvação pela pintura, de Rodrigo Naves
100 páginas, Editora Todavia (2021)