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Poesia espacial: Eduardo Kac cria obra de arte fora da Terra

Em conversa com Bazaar Art, o carioca fala sobre sua pesquisa, tecnologia e o futuro

by redação bazaar
Desenho da série Telescópio Interior (2015) - Foto: Divulgação

Desenho da série Telescópio Interior (2015) – Foto: Divulgação

Por Julia Flamingo

A obra de arte mais importante de Eduardo Kac é de papel e tesoura: um pedaço recortado no formato da letra M e outro enrolado em si mesmo, encaixado no centro da primeira forma. Seria bem simples se fosse um trabalho terráqueo. Mas, acredite, é inteiramente concebido fora do planeta Terra, realizado nos últimos 10 anos em parceria com o Centro Nacional de Estudos Espaciais, ligado ao governo francês.

Feita por um astronauta em uma experiência antigravitacional, a escultura Telescópio Interior não tem começo nem fim. Ela simplesmente flutua em órbita. Dependendo de sua posição, lê-se a palavra moi (“eu”, em francês).

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Still do vídeo Telescópio Interior (2017) - Foto: Divulgação

Still do vídeo Telescópio Interior (2017) – Foto: Divulgação

O artista carioca ainda não viajou para o espaço, mas seu potencial criativo é extraterrestre. Afinal, constrói obras a partir do inaudito. Fundou e intitulou a bioarte, que trabalha diretamente com organismos vivos, para manipular, modificar ou criar DNA, proteínas e células.

Exemplo dessa expressão é o GFP Bunny, no qual combinou a biologia molecular de uma água-viva no coelho Alba, que ficou com a pele verde fluorescente. Em 1997, foi o primeiro ser humano a implementar microchip digital em um robô. Também não foi fácil para o artista-cientista criar seus holopoemas, no qual palavras literalmente flutuam no centro de uma sala.

Professor de arte e tecnologia do Art Institute de Chicago, onde vive desde 1989, Kac acumula cinco individuais só neste ano. Sua primeira foi a exibição do documentário “Telescópio Interior”, do diretor francês Virgile Novarina, no Museu do Louvre.

Em setembro e outubro, o ganhador de prêmios como o Golden Nica Award tem individuais no Sector 2337, em Chicago, e na DAM Gallery, em Berlim. Com uma agenda atribulada de palestras ao redor do mundo (durante a entrevista, ele estava prestes a embarcar para Montreal), o concorrido artista falou com Bazaar Art sobre arte, novas mídias e futuro.

Bordado Poesia Espacial II, da série Telescópio Interior (2017) - Foto: Divulgação

Bordado Poesia Espacial II, da série Telescópio Interior (2017) – Foto: Divulgação

Você foi a primeira pessoa a produzir algo fora da terra que não tivesse interesse econômico ou político, mas estético e poético. Qual a importância desse trabalho no conjunto da sua obra?
Ele é o mais importante pelo que representa. Primeiro, uma experiência estética direta do que você sente e vivencia numa dimensão antigravitacional. Segundo, ele simboliza uma mudança de paradigma cultural. Estamos iniciando uma nova etapa: a cultura espacial. E não estou falando em produzir filmes de ficção científica, mas o fato de que, muito em breve, os seres humanos vão poder viajar para o espaço. No começo, isso será muito caro, e todos ficarão deslumbrados. Depois, os preços irão cair, os passeios serão corriqueiros. Então, a questão do que fazer com essa nova aventura humana irá se colocar: como será a gastronomia, o teatro e a dança no espaço e no planeta? Telescópio interior mostra esse futuro próximo.

Quando você entendeu efetivamente que poderia manipular e incorporar a tecnologia à sua obra?
Comecei a trabalhar com o digital em 1982, com o holográfico em 1983, com o online em 1985, e com a telepresença em 1986. Para mim, o digital e o online não representavam mais um meio de expressão, e sim o início de uma nova cultura. Tinha total consciência disso, como os jovens costumam ter [em 1982, ele tinha 20 anos]. Embora a pintura fosse dominante nas exposições de museus e galerias, eu sabia que os anos 1980 iniciavam uma nova era, e queria participar ativamente da criação dessa cultura.

Poesia Espacial VI (2017) - Foto: Divulgação

Poesia Espacial VI (2017) – Foto: Divulgação

Sua obra mudou muito desde a década de 1980 para cá? Se você está de olho em novas mídias, fica cada vez mais desafiador estar à frente do tempo…
Naquela época, os meios para criar minhas obras não existiam. Hoje existe um mercado para comprar pedaços de robôs, por exemplo, e montar o seu. Mas, antes, eu tinha de comprar pedaços de metal e cortar à mão, caso do meu segundo robô de telepresença, que criei em 1989, e que está em exibição no museu ZKM, em Karlsruhe, na Alemanha. Produzia a tecnologia para que pudesse fazer a obra. Como continuo interessado para além dos limites do conhecido e do aceito, os níveis de dificuldade se mantêm grandes. Meu impulso é o mesmo: o desejo de criar um novo futuro, mais humano, cordial, justo. Algo consistente nos meus 40 anos de trabalho.

Ao falar de arte e tecnologia, você acha que existe um tipo de banalização dessa produção?
A questão não é arte e tecnologia. A questão é arte. Ou seja, se estou na frente de um trabalho, seja pintura ou escultura, e ele me toca de maneira profunda, é isso o que interessa. Tecnologia pela tecnologia não me interessa. Meu foco é a emoção, o que te faz sentir, pensar, revisitar seus conceitos. 
O meio é secundário. Não trabalho com tecnologia de uma maneira reativa, ou seja, não olho para ela e me pergunto “o que posso fazer com isso?”. Primeiro penso na arte e, depois, para atingir o conceito que quero, uso as novas mídias. E se elas não existem, crio os meios para existirem.

Poesia Espacial VII (2017) - Foto: Divulgação

Poesia Espacial VII (2017) – Foto: Divulgação

Falar sobre tecnologia exige também discutir o futuro. O que pode nos dizer sobre isso?
O que vai acontecer é o seguinte: uma vez que você tem uma experiência fora do planeta, vai mudar a maneira de olhar a política, a economia, a cultura. Mais pessoas irão olhar para a Terra como uma entidade única. O que vemos hoje como elementos separados irá convergir e também tenderá à desmaterialização. Isso aumentará nosso acesso à informação, na mesma medida que a falta de privacidade ficará cada vez mais séria.  O telefone, por exemplo, irá se desmaterializar e virar um microchip, que vamos colocar na orelha. Em 1997, já queria sinalizar isso quando fiz a obra Cápsula do Tempo, e fui o primeiro a implementar o microchip digital numa obra. Hoje, existem mais ou menos 10 mil pessoas no mundo com microchips implementados. E elas fazem isso pelas mais diferentes razões: pode ser um paciente de um hospital ou alguém na praia de Ibiza. Conhecemos a tecnologia hoje entrando no corpo de quem precisa de auxílio médico. Mas não vai demorar para que ela também passe a corpos saudáveis, expandindo suas ações.

Poesia Espacial I (2017) - Foto: Divulgação

Poesia Espacial I (2017) – Foto: Divulgação