Por André Aloi

Geralmente feita para divertir, a música pop vem ganhando corpo e outras formas de se manifestar. Corpo e formas bastante femininas, aliás. Foi mexer com divas tipo Beyoncé e até com cantoras brasileiras como Luiza Possi. E vem chamando muita atenção. Bandeiras levantadas por artistas, como Demi Lovato, Rihanna, Meghan Trainor e a “nossa” Clarice Falcão trazem para si, por baixo da melodia, um discurso que clama por igualdade, empoderamento feminino, direitos sobre o próprio corpo, estar bem com sua aparência, racismos de cor e gênero, relacionamentos abusivos etc.

Com seu novo single, Formation , Beyoncé usou em fevereiro o intervalo do Super Bowl, o principal jogo do futebol americano, um dos eventos esportivos mais assistidos no mundo e a publicidade mais cara da TV, para fazer protesto. Ou, como se diz nas redes sociais, aproveitou os holofotes para “sambar” na cara da sociedade, botando luz sobre questões como preconceito racial e abuso de poder por parte da polícia americana, ao relembrar a misteriosa morte de Messy Mya, rapper gay e negro.

Aqui no Brasil, uma representante dessa música pop com apelo social é Clarice Falcão – que acaba de lançar o disco cujo nome já diz a que veio: Problema Meu. Segundo ela, esse movimento é “muito” reflexo do agora.“Pop é sempre fiel ao que está sendo comentado. As pessoas falam, pejorativamente, que o mundo está muito chato. E eu acho que o assunto está na moda mesmo, no melhor sentido possível.Ainda falta muita coisa. É só o começo de um longo processo, de se tornar popular, de sair das rodinhas e do meio acadêmico”, pondera. Sua contribuição para essa corrente de “protestos pop” é uma conexão direta com Beyoncé, até. No fim de 2015, lançou um vídeo com uma versão de Survivor, das Destiny’s Child – trio que deu fama à “Queen B”. Dirigido pela cantora, mulheres passam batom vermelho no rosto sem se preocupar com a simetria ou estética, uma referência também à vlogueira feminista Jout-Jout.A canção acabou o cara. Não importa em que posição ele esteja, a mulher destruiu um lar. Se for o cara, ele é um garanhão”, argumenta.

Muito antes de Lady Gaga ser indicada ao Oscar por Til It Happensto You, do documentário The Hunting Ground, a britânica Marina and the Diamonds, que foi destaque no último Lollapalooza de SP, já falava sobre o tema “abusos sexuais” em Savages (álbum Froot, 2015). Mas será que a vocalista, Marina Lambrini Diamandis, se vê uma porta-voz da nova geração? “Nunca parei para pensar nisso, mas reparei recentemente que você tem influência sobre as pessoas.Absorve sua cultura, se comunica através da música. Canções como essa são um retrato da nossa era, assunto que todo mundo compartilha”, diz.

Outra brasileira engajada é Luiza Possi. O abre-alas de seu novo disco,LP, chama Sigo.Fala sobre cair, levantar,seguir.“Tem um papel social bem grande. Uma mensagem para quem olha para os momentos em que se quer desistir e acha que não vai dar conta”, analisa. Pensando nisso, o vídeo do primeiro single, Insight, foi lançado no Dia da Visibilidade Trans (29 de janeiro). “A gente pegou as drag queens mais populares do Brasil para abraçarem a causa.Por isso me vesti de homem, me convencendo a fazer parte do universo delas. É um vídeo sobre a diversidade, sim, sobre aprender a respeitar. E falo que o prazer de ter uma mensagem por trás de uma canção é inenarrável”, afirma. Se a música pop tinha a função só de entreter, essa nova safra de cantoras mostra que há outras áreas para desbravar. Sem papas na língua, só aumentam o discurso clamando por liberdade, direitos, igualdade, responsabilidades. Se a música tem um poder, é o de unir pela palavra. E essas aqui não querem ficar caladas.