Preta Ferreira – Foto: Marcelo Auge

Como um ato simbólico, Preta Ferreira entregou o manuscrito de “Minha Carne: Diário de Uma Prisão” (Boitempo) em 24 de junho, dia em que completou um ano de sua detenção. Nas páginas, brada sobre corpos pretos, conjuntura, necropolítica, amor, Deus, orixás e família.

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Os relatos do cárcere da ativista (liderança à frente do Movimento dos Sem Teto do Centro, o MSTC, em São Paulo), cantora, atriz e escritora narram acontecimentos em forma de diário. “O jeito de transformar aquela prisão em arte foi escrevendo. Tinha de esconder as páginas para que não roubassem”, conta à Bazaar.

O livro é apenas o estopim de narrativas, que foram transformadas em música, roteiro de cinema e outras manifestações artísticas como se o leitor participasse da conversa. Não são apenas experiências dela, mas de pessoas com quem conversou ou se relacionou na prisão e outras que cruzaram seu caminho nessa jornada pós-penitência.

Com tudo escrito, lá se foram dois meses com Maria Gadú (a cantora e amiga próxima, que assina a edição), relendo e preenchendo lacunas dessas memórias. Preta foi presa por suspeita de extorsão em ocupações paulistanas, solta em outubro do ano passado e atualmente responde o processo em liberdade. “Saí com muito mais vontade de lutar e mudar esse sistema. Mais força do que quando entrei. Não saí com ódio, saí com amor no coração.” Ela defende moradia como um direito básico, previsto na Constituição.

O leitor vai se identificar, segundo ela, com a teoria de que todos têm lugar reservado no hospital, na prisão e no cemitério. “O propósito de escrever foi, também, para todo mundo sentir como é a injustiça. Como funciona a Justiça desse País e como o corpo preto sofre.”

Durante a edição, sentia como se não tivesse sido ela quem havia escrito. “São muito fortes. Me dava vontade de chorar, de rir, às vezes. É um mix de sentimentos.” A previsão é que o livro, que pega emprestado o nome de sua primeira música, seja lançado ainda este ano.

Antes da pandemia, estava a caminho um álbum de inéditas, também produzido por Maria Gadú, que segue incerto quanto às datas. “As músicas são bem fortes, bacanas, regravações bem boas, Maria está fazendo os arranjos.”

Preta começou a escrever historinhas na infância, depois textos e roteiros de seus clipes. Bebia das referências de outras mulheres como Juliana Borges, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro e a própria mãe, Carmen, que escreve em forma de cordel. Além, claro, de Angela Davis, que considera uma heroína.

No ano passado, quando a filósofa e ativista americana esteve no Brasil, foi a sua casa e fez uma dedicatória em “Uma Autobiografia”, que estava lançando por aqui. “Também vou escrever um livro. Quando ficar pronto, vou te dedicar”, prometeu a Angela naquele momento mágico. “Foi como se estivesse lendo um livro de história, meus heróis continuam vivos.”

Com a obra em punho, espera em breve entregá-la nas mãos de Angela. No dia daquela visita, ela revela um segredo que está detalhado no diário carregado de emoção. “Tinha feito um café da tarde maravilhoso, ela não quis (comer) nada. Ofereci água, ela bebeu um gole e o copo ainda estava cheio. Quando foi embora, bebi essa água, na esperança de ser como ela e guardei o copo”, diverte-se. “E o copo está escondido. Bebi direto da fonte. Posso dizer que sou a única pessoa no mundo que bebeu direto da fonte.”

Uma das músicas que compôs no período de detenção, chamada “Não Perca Sua Fé”, foi cantada para a escritora e narra as amizades que fez dentro da prisão – e virou “hino” por lá.

Preta conta um episódio engraçado, que marcou sua passagem pela penitenciária. Acreditava que quando encontrasse um trevo de quatro folhas, conseguiria sair de lá, uma vez que ele simboliza sorte. “As meninas diziam: o que você está procurando aí (na horta), louca?”, conta. “Minha liberdade”, respondia. “Quando achar meu trevo de quatro folhas vai sair meu alvará (de soltura). E não achei o bendito do trevo?” Duas semanas depois, conseguiu o feito.

Dali em diante, outras presas começaram a procurar a planta. Para marcar esse momento, fez uma tatuagem de trevo junto à data de soltura (10 de outubro de 2019). Líder nata, se colocou no papel de articuladora: para duas colegas, conseguiu a libertação por intermédio de pessoas que iam visitá-la, arrumou emprego para outra, que conquistou a liberdade. Hoje, há quem a procure para orientação.

Ainda que a vida real não seja um concurso de Miss, ela reforça que seu maior sonho é a paz mundial. “Queria ver o fim do racismo, do genocídio do meu povo, o povo indígena sendo dono dessas terras, uma mulher indígena ou trans na presidência”, divaga. “Quando uma mulher preta ganha voz nesse País, ou leva 14 tiros, como Marielle (Franco), ou é presa injustamente, como eu.”

Na escrita, Preta busca inspirar outras pessoas com esse livro como um manual de sobrevivência, não de rebeldia, e encorajar os estudos. “Não estou livre enquanto não ver meus irmãos livres, o fim do racismo ou o fim do genocídio da população indígena”, pontua.

Por este motivo, segue na luta – bebendo de diferentes fontes – a fim de tornar-se mais forte, lutar por aquilo que acredita e não se deixar esmorecer.