Fotos: Divulgação


Por Paula Jacob, de Berlim

 

Uma senhora com demência em estado avançado sofre uma tentativa de abuso do próprio marido. Ao menos é como a cena é tratada pelos médicos e policiais. Para o cônjuge de anos, não passava de mais uma forma de cuidado e garantia de prazer para a sua esposa. A linha tênue entre certo e errado em momentos críticos da vida é o que guia o tom de Queen At Sea, um dos destaques da Competição Oficial do Festival de Berlim. Escrito e dirigido por Lance Hammer, o filme oscila entre os pontos de vista dos envolvidos na situação, mediada pela filha Amanda (Juliette Binoche), interpretada com a maturidade artística de Juliette Binoche.

 

Professora universitária e acadêmica, mãe de Sara (Florence Hunt), uma menina adolescente em fase de autodescobertas, ela mora em outra cidade e, pelos indícios dados pelo roteiro, passa pouco tempo em Londres com o padrasto e a mãe, mesmo com o diagnóstico de saúde dela. Em processo de separação conjugal, ela enfrenta dilemas próprios e tenta segurar todas as pontas para dar conta de algo que visivelmente não tem uma solução apenas lógica ou prática. Do outro lado, Martin (Tom Courtenay), perdidamente apaixonado pela companheira de 18 anos, que conheceu em um concerto de música clássica, com quem mantém uma relação de profunda parceria. Tão profunda que as áreas cinzentas da moralidade e da autonomia acabam deixando tudo mais confuso.

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No meio disso, existe Leslie, vivida com honestidade por Anna Calder-Marshall. Os atos sempre guiados e os olhos por vezes confusos perguntam ao espectador o que fazer em uma situação como essa: enfrentar ou fugir, ajudar ou correr, abraçar o caos ou ser pragmático. Nenhuma resposta seria certa ou errada, porque cada um lida com a dificuldade com as ferramentas que estão disponíveis para si – sejam elas financeiras ou emocionais. Aqui, por acaso, a questão monetária não parece um empecilho para arranjar alguma saída, então a casa de repouso especializada em casos como o dela se torna a melhor opção. Porém, no segundo dia de estadia, um problema a impede de ficar e o retorno para casa é necessário.

 

A teimosia inicial do marido dá espaço para a escuta, e a insistência quase fria da filha também cede para o encontro. Só assim ambos conseguem dar conta da imensidão indizível de viver com alguém que esquece como comer, tomar banho, dançar. Esquece quem são esses que ali permanecem. É dolorido o processo, por isso a direção de fotografia de Adolpho Veloso se torna um pilar estético importante para o filme, por dar espaço de respiro nos enquadramentos e tempo de maturação dos gestos dos personagens. Junto com a montagem, ainda proporciona momentos de pausa com cenas intermediárias de paisagens e da vida agitada em Londres, que não necessariamente se conectam com a história central, mas mostram o quanto as coisas continuam acontecendo lá fora, independente do que se passa dentro. 

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Apesar da metáfora, Queen At Sea acaba por pecar por alguns excessos no terceiro arco, mostrando a vulnerabilidade de Leslie de forma tão explícita que parece prejudicar toda a suspensão temporal das sequências anteriores.