Foto: Divulgação
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por Gustavo Abreu

O mundo das artes era um lugar bem diferente quando as Guerrilla Girls se juntaram em Nova York pela primeira vez, na primavera de 1984. Naquele ano, abria no recém-reformado MoMA uma megaexposição que destacava as 195 obras mais importantes produzidas de 1975 até então. Mas bastou uma volta pelos salões no prédio da Rua 53 para elas notarem um problema que precisava ser escancarado: dos artistas selecionados, apenas 17 eram mulheres. “Era muito raro um museu ou galeria ter sequer uma artista mulher em exibição. Os números eram terríveis. Então, decidimos fazer algo bem ‘na sua cara’, para tentar mudar a cabeça das pessoas”, relembra Kathe Kollwitz, fundadora do grupo, em entrevista à Bazaar. Desde então, o coletivo mascarado ataca museus ao redor do mundo com táticas de arteativismo, como outdoors, adesivos e projeções – e nenhum está imune.

Com o protagonismo feminino cada vez mais em voga, as Guerrilla Girls seguem suas celebrações de 30 anos com uma invasão à Europa. Só no segundo semestre, elas inauguraram duas exposições – no Museum Ludwig, em Colônia (até 8 de janeiro), e na Galerie mfc-Michèle Didier, de Paris (até 12 de novembro). Em outubro, elas atacam Londres: a primeira mostra será inaugurada na Whitechapel Gallery. “Mandamos questionários para 400 museus na Europa sobre como eles exibem artistas mulheres. Apenas 100 responderam. Faremos uma exposição maluca com comentários em cima das respostas.” Depois, partem para o Tate Modern, onde passarão uma semana instaladas no chamado Departamento de Reclamações das Guerrilla Girls. “Ficaremos lá o dia inteiro. As pessoas são convidadas a reclamar sobre política nomia, questões sobre gênero, qualquer coisa.”

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Dos anos iniciais de panfletagem pelas ruas do SoHo até hoje, mais de 60 integrantes passaram pelo Guerrilla Girls. Todas anônimas, mas emprestando de artistas mortas pseudônimos como Frida Kahlo, Gertrude Stein e a própria alemã Kathe Kollwitz. Elas já expuseram em bienais nos cinco continentes (incluindo a de São Paulo, em 2010) e são constantemente convidadas a “atacar” museus. David Kiehl, curador do Whitney, disse: “Para mim, elas são a realeza da arte”. A mais famosa das obras do coletivo questiona: “Mulheres precisam estar nuas para entrar no Met?”. Isso porque, em 1985, o Metropolitan, meca das artes nas Américas, tinha no acervo apenas 5% de artistas mulheres enquanto 85% dos nus exibidos eram femininos. Segundo Kathe, hoje as Guerrilla Girls seguem lutando pelas mulheres, mas também por artistas étnicos e LGBTs. Se um dia elas vão revelar quem são as guerrilheiras por baixo das máscaras de gorila, Kathe tem dúvidas. “É muito difícil ter trabalhado esse tempo todo sem receber nenhum crédito”, ri. “Mas, ao mesmo tempo, é delicioso não receber crédito. Nosso trabalho é focado nas questões pelas quais lutamos e acho que não importa quem somos. Com as máscaras, somos mais poderosas.”