"Quero me sentir livre quando estou atuando", afirma Isabelle Huppert sobre seus 140 filmes
Foto: Reprodução/Instagram/@isabelle.huppert

Por Duda Leite

Isabelle Huppert não para. A incansável atriz francesa conta com mais de 140 filmes no currículo, ganhou um Globo de Ouro por sua atuação em “Elle” (2016), e estreou em julho uma adaptação de “O Jardim das Cerejeiras” de Tchekhov, no Festival de Avignon. A veterana do cinema já se apresentou no Brasil. “O público brasileiro é ótimo. Fiz duas peças que eram consideradas difíceis, mas eles aguentaram firme”, conta.

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Atualmente, está em cartaz nos cinemas brasileiros com o filme “A Dona do Barato”, dirigido por Jean-Paul Salomé. A atriz interpreta Patience Portefeux, uma tradutora de árabe que trabalha para a polícia e que acaba se envolvendo com o tráfico de drogas. Aos 68 anos, rosto da Balenciaga, a atriz francesa falou à Bazaar, por telefone, de Nova York, onde passava o que chamou de “férias forçadas”.

Como foi participar do primeiro Met Gala após o início da pandemia?

Foi muito divertido, como sempre. Essa foi minha quarta vez. Havia um clima diferente esse ano, mais otimista. É um evento sempre ligado à moda e aos designers. Moda é uma forma de autoexpressão. Vesti Balenciaga, do designer georgiano Demna Gvasalia, que adoro. Suas roupas são sempre bem coloridas e divertidas. A inspiração para o meu look tinha algo de sereia. E eu sou fã da história da “Pequena Sereia”.

"Quero me sentir livre quando estou atuando", afirma Isabelle Huppert sobre seus 140 filmes
Cena de “A Dona do Barato” – Foto: Divulgação

Em A Dona do Barato você vive Patience Portefeux, uma mulher francesa que trabalha como tradutora de árabe. Atuar em uma outra língua ajudou você a compor sua personagem?

Quando você atua em uma língua que não é a sua, você automaticamente se torna uma outra pessoa. Foi bem difícil aprender a falar árabe, principalmente porque a língua tem uma música bastante característica. Infelizmente, esqueci tudo, gostaria de ter tempo para voltar a estudar mais.

Patience, sua personagem, trabalha para a polícia, mas acaba se tornando uma chefona do tráfico de drogas. Como você fez para que essas duas personalidades tão diferentes ficassem verossímeis?

Foi como levar meu trabalho de atriz para a personagem. Eu era minha personagem, que estava querendo levar uma outra vida. Me tornei uma pessoa diferente, dentro do filme. Isso é sempre recompensador. Pude mostrar várias facetas da mesma mulher. Você pode fazer personagens bem diferentes, se o público acreditar em você. É um trabalho que permite você se disfarçar.

Sei que você sempre escolhe seus trabalhos baseados em quem vai dirigir. Mas, recentemente, você parece estar escolhendo os filmes também pela sua capacidade de se divertir. Estou me referindo a filmes como “Elle”, de Paul Verhoeven, e “Greta”, de Neil Jordan. Procede?

Sempre me divirto em tudo o que faço. Mesmo quando estou vivendo uma personagem naive ou inocente. Mas, esses filmes que você citou, foram mesmo casos à parte: são personagens que levavam muito em conta meu senso de humor. Nenhum desses dois filmes é exatamente uma comédia. “Elle” é um filme de Paul Verhoeven, que sempre gosta de misturar drama com comédia. Esse é o seu tom. Em “Greta”, Neil Jordan misturou drama com altas doses de ironia e, mais uma vez, um grande senso de humor. Como atriz, costumo apenas seguir o tom que os diretores me pedem. É a mesma relação entre um músico e o regente de uma orquestra. Ao mesmo tempo, quero me sentir livre quando estou atuando.

Existe uma tradição de atrizes que se tornam diretoras, como Barbara Loden ou Magie Gyllenhaal. Você tem vontade de dirigir?

Não tenho certeza. Tenho uma grande admiração pelas atrizes que se lançam como diretoras. Mas é um trabalho que requer muita atenção. Não sei se eu conseguiria fazer. E sempre consegui me expressar como atriz. Sou uma espécie de atriz autuer. Teria que ser um projeto que me instigasse muito. Quem sabe, um dia.

Você faz milhares de coisas ao mesmo tempo. Já estrelou sete filmes após “A Dona do Barato”. O estilista Karl Lagerfeld declarou numa entrevista ao cineasta Bruce La Bruce, que detestava tirar férias. Qual é a sua relação com férias?

Isso é um exagero completo. Essa é a imagem que as pessoas têm de mim, mas não corresponde à realidade. Fiquei de férias todo o verão e, agora, estou em Nova York em férias forçadas. Na verdade, deveria estar no Japão começando meu próximo filme, que foi cancelado por causa da pandemia. Espero que tenha sido apenas adiado.

Este ano duas diretoras francesas ganharam os principais prêmios nos dois maiores festivais de cinema do mundo. (Julia Ducorneau, Palma de Ouro em Cannes por “Titane”, e “L’Évenement” de Audrey Diwan, Leão de Ouro em Veneza). Você acha que a indústria está mudando em relação ao reconhecimento das mulheres?

Parece que sim, mas eu não diria que está mudando. Isso não é algo novo. Jane Campion ganhou a Palma de Ouro em Cannes, por “O Piano”, em 1993. Sempre existiram mulheres diretoras, talvez não tantas como agora. Mas é significativo que sejam duas jovens diretoras, apesar de que Jane também era jovem quando ganhou (tinha 39 anos). Com certeza, é uma boa notícia. Porém, já havia diretoras mulheres desde os anos 1940, como Ida Lupino, que ganhou uma retrospectiva recente no cinema da minha família, em Paris.

"Quero me sentir livre quando estou atuando", afirma Isabelle Huppert sobre seus 140 filmes
Cena de “A Dona do Barato” – Foto: Divulgação

No filme “A Dona do Barato”, você conseguiu encontrar um equilíbrio interessante entre melancolia e leveza. Essas caraterísticas fazem parte da sua personalidade?

Fico muito feliz que você tenha prestado atenção nesses dois aspectos da personagem. Esse foi o meu instinto. Eram duas características que achei que a personagem precisava ter. Essa mistura de leveza e melancolia. Havia um certo mistério sobre essa personagem. Você nunca sabe exatamente o que está passando na sua cabeça. E gosto muito de que o final do filme fica em aberto. É um final poético.