Girl power: a cantora Karina Buhr bota sua fúria feminina a serviço da literatura. Ou o contrário - Foto: reprodução
Girl power: a cantora Karina Buhr bota sua fúria feminina a serviço da literatura. Ou o contrário – Foto: reprodução

Por Carol Almeida

Meia arrastão, collant cintilante, sombra e delineador nada tímidos – a virtude dos exageros parece até carnavalesca. E, de certa forma, é. No palco, Karina Buhr cola no corpo todas as marcações de um discurso pela soberania dessa entidade feminina que baixa com frequência, em mulheres e homens, justo no período momesco. A artista, conhecida e admirada por carregar em sua música, desenhos, teatro ou mesmo nos posts ativistas do Twitter e Facebook, um discurso afinado de empoderamento da mulher, ou girl power, agora condensa na literatura toda essa fértil fúria feminina com Desperdiçando Rima (Editora Rocco), coleção de textos (quase todos inéditos) entre contos, poesias e crônicas poetizadas.

O livro é resultado direto do fluxo de pensamento que (es)corre pela coleção de papéis pequenos e pilhas de cadernos que a artista baiana-pernambucana (nasceu em Salvador, se criou no Recife) acumula em seu apê no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, onde mora há 12 anos. Das anotações que faz sobre o que observa da cidade e de si mesma, costura textos aparentemente aleatórios, mas que, juntos, revelam em comum uma pulsão política do mundo, das pessoas, do amor. Além de uma natural inclinação para palavras que se comunicam a partir de uma irmandade musical. Não será estranho se alguns dos poemas inéditos ganharem melodia no trabalho de Buhr, a multimulher.

Para ela, tudo, das rimas de amor ao ativismo, faz parte do mesmo combo.“Para mim, é uma coisa só, não consigo dividir muito. O Oficina me ajudou a entender isso, porque ali não há divisões, quem é ator canta, quem é músico interpreta”, diz ela, em entrevista à Bazaar, numa alusão aos quatro anos em que trabalhou na companhia teatral de Zé Celso, entre 2003 e 2007.

Referência no Brasil quando se fala em artistas socialmente engajados, Karina não dissocia nenhum de seus trabalhos – e Desperdiçando Rima é prova disso – de uma verve questionadora sobre os padrões impostos, particularmente o lugar que a mulher ocupa no mundo. Com o “sotaque carregado de caju, coração 5% algodão”, como se coloca no livro, vem conquistando espaço importante no discurso feminista no País, vide o manifesto Sexo Ágil, que lançou há três anos com outros artistas indies.

“Em qualquer meio, não há um ambiente convidativo para as mulheres. Quando existe, é para você cumprir papéis que já estão mais claramente destinados a nós. A correnteza não trabalha a favor, mas você sempre pode enfrentá-la, e não se deve transformar issoemamargura.Transformaemletrademúsica,emoutracoi- sa”, defende Karina.