Ilustração: Raven Leilani

Por Marilia Neustein

Indicada pela renomada escritora inglesa Zadie Smith como uma das promessas da literatura atual, a jovem americana Raven Leilani, de 29 anos, começou a escrever aos 13, quando sua família comprou o primeiro computador. Em plena Nova York, recém-conectada ao mundo digital, ela se sentia sozinha. Com a possibilidade de escrever suas sensações e guardá-las com privacidade – escondida dos pais –, a escritora e pintora sentiu-se livre para criar e expressar o que ela chama de seu próprio “frenesi”.

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Seu livro de estreia, o romance “Luster”, ainda sem data de publicação no Brasil, vem chamando a atenção nos Estados Unidos de boa parte dos formadores de opinião, como a própria Zadie, que a definiu como uma das “mais promissoras vozes jovens que exalam liberdade e ousadia” da literatura contemporânea.

Apesar das credenciais, Raven não gosta de ser rotulada. Em entrevista à Bazaar, afirma que o objetivo do livro não foi fazer discurso definitivo sobre a mulher negra. Pelo contrário. A ideia era desmistificar esse estigma, fugindo dos estereótipos de que elas são sempre “guerreiras”. “Minha intenção foi escrever sobre como esse universo é plural, rico e, ao mesmo tempo, estranho”, diz. “Na minha literatura, é importante que as mulheres negras possam ter liberdade de falhar, de ser humanas”.

O olhar generoso e altruísta da autora é baseado no que ela observa da realidade em tempos de feminismo pujante. “É importante mostrar como vivemos, calculando, internamente, tudo para sobreviver. E como isso é uma forma de tirania. Foi emocionante escrever sobre uma mulher negra que comete erros, muitas vezes os mesmos, repeti das vezes. E que ela também quer ser tocada e buscar sua arte”.

A busca da arte, para Raven, não se esgota apenas na combinação de palavras da escrita que atraiu olhares das grandes revistas literárias, como a prestigiada inglesa Granta. Ela também pinta e, segundo relata, foi a pintura – e não a literatura – seu primeiro amor. “Minha relação com a pintura é definida, basicamente, pela frustração de entender minhas limitações. Quando algo está errado na minha escrita, sei como resolver. Já nas telas, nunca consigo identificar o que está errado. Essa parte é mais interessante para mim e mais verdadeira.”

A permissão e até o enaltecimento das imperfeições – tema presente em sua pintura, escrita e também quando explora seu lugar de fala de mulher negra – parecem ser o fio condutor de sua relação com o mundo. Indagada sobre o que diria a jovens escritores, ela foge de grandes frases de efeito, de buscar inspirar ou emocionar. Ao contrário. Mestra em “normalizar” e traduzir o real, vai direto ao ponto: “Um conselho surpreendentemente sem glamour é que você não precisa ser inteligente ou original ao falar. O objetivo é ser claro. Diga a coisa e diga imediatamente. Se o seu objetivo é se comunicar, dê ao leitor uma razão para ficar e ouvir.”

Fique com o nome de Raven Leilani a um clique de distância, como nas lojas virtuais, onde seu livro está disponível para compra. Com a mesma personalidade, suas pinturas e retratos estão democraticamente em exibição em seu Instagram (@raven_leilani), e não devem brilhar apenas neste verão do hemisfério norte.