Fotos: Divulgação


Por Juliana Monachesi

No térreo do Museu da Imagem e do Som, em SP, que sedia a exposição Ai Weiwei – Interlacing, você passeia por uma sala com dezenas de fotos em preto e branco, ampliadas em tamanho não muito maior do que o 10×15 ou 13×18 dos álbuns de fotografia caseiros, que foram feitas por Ai Weiwei ao longo da década em que viveu em Nova York, de 1983 a 1993. Elas exigem atenção.

Do contrário, você poderá perder os vários cliques que o artista fez de seu vizinho Allen Ginsberg, como a foto que mostra ambos em um restaurante no Lower East Side brincando de siga o mestre.

“Todo mundo em Pequim sabia que seu apartamento no subsolo da East 7th Street em Nova York tinha se tornado a embaixada não-oficial da vanguarda no exílio”, escreveu o crítico Philip Tinari em longo e delicioso ensaio de 2007 na Artforum.

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Outras personalidades da cultura também povoam os snapshots: o artista e pioneiro da performance radical Tehching Hsieh (sim, você o conheceu na Bienal de São Paulo passada), o fotógrafo Robert Frank, o também artista e conterrâneo Xu Bing, entre outros. Lindas as imagens de manifestações em ruas e parques de NY bem antes dos nossos recentes occupies: mostram um ambiente (quase) sempre tolerante em relação à liberdade de expressão e aos embates pelos direitos de segmentos sociais.

Depois do primeiro de dois lances de escada para chegar ao primeiro andar, você tem duas opções: colocar um protetor descartável sobre o sapato (daqueles usados em hospitais e também na fila do raio-x nos aeroportos) ou deixar o sapato e usar a meia de papel apenas para proteger os pés. Recomendamos a segunda opção.

Mergulhar nas obras do primeiro e segundo andares é um pouco como entrar no templo de Ai Weiwei, sensação favorecida pelo piso todo forrado de branco e o ar-condicionado a toda. Percorrer as séries de fotos de Ai – que depois de registrar uma década no Lower East Side em 35 mm tornou-se adepto dos snapshots sem fim com celular – é testemunhar uma vida dedicada à oposição ao totalitarismo.

O artista, como se sabe, é um dos mais famosos dissidentes do regime chinês. Ai Weiwei foi preso pelo governo comunista e ficou detido (e incomunicável) durante três meses, sendo libertado em junho de 2012. Não foi a primeira vez que ele foi vítima da falta de democracia que tenta combater. Ai manteve um blog na China entre 2005 e 2009, fechado por chinesas devido a críticas “politicamente sensíveis” ao governo. Uma pré-seleção das fotos que publicava, feita para uma mostra no Fotomuseum Winterthur antes da busca e apreensão em seu estúdio pela polícia, está no MIS.

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“O que desejo mostrar é: como ser humano, sinto-me compelido a defender meus direitos. Ninguém deveria me provocar. Tolerei o fato de vocês deletarem meu blog, tolerei o fato de grampearem meu telefone, tolerei o fato de monitorarem minha residência. No entanto, sou incapaz de tolerar que invadam a minha casa e me ameacem diante de minha mãe de 76 anos. Sou incapaz de tolerar representantes do governo à paisana que me seguem em segredo e ameaçam minha segurança. Vocês não entendem nada de direitos humanos, mas já devem ter ouvido falar da Constituição, certo?”, escreveu em seu blog em maio de 2008.

Desde que seu blog foi fechado, em 2009, ele tem usado o Twitter como plataforma de comunicação online. Ai agora tira fotos com o telefone e as transmite imediatamente pela página no Twitter. Uma seleção dessas fotos também pode ser vista na exposição. Imperdíveis também são as imagens da série Fairytale Portraits (2007) – que retratam alguns dos 1.001 cidadãos chineses que ele levou a Kassel como parte de seu projeto para a Documenta 12 – e Study of Perspective, iniciado em 1995, sinalizando com a mão um categórico “foda-se” diante da praça Tiananmen, em Pequim, work in progress que continua sendo refeito até hoje.