Rico Dalasam – Foto: Mauricio Nahas/Divulgação

Rico Dalasam gosta de chamar o período fora dos holofotes de prática de ausência. “Por dádiva ou desgraça das coisas”, resume. Precursor do movimento queer rap, abriu espaço para outros rappers LGBTQIA+. O cantor vinha sendo puxado para um cenário pop mainstream sem ter a chance de se questionar se era, de fato, para onde queria seguir.

Em 2017, rodava o show do EP “Balanga Raba” quando a música “Todo Dia”, sua parceria com Pabllo Vittar, eclodiu como hit do Carnaval e acabou em um imbróglio judicial em torno dos direitos autorais, chegando a um fim no ano passado. Dalasam saiu como o cancelado da história e se retraiu.

Rico Dalasam – Foto: Reprodução/Instagram/@ricodalasam

Depois do episódio, recolheu também todas as composições de sua autoria que estavam nas mãos de outros cantores, e parou para recalcular a rota. “Fiquei pesquisando, entrei em uma onda de achar outra sonoridade e poema”, recorda. Nada vinha, emendou um término de namoro bastante choroso e tudo foi se acumulando. Escreveu a letra de “Braille”, primeiro single da nova era, dois anos depois.

A faixa desembocou no premiado EP “Dolores Dala Guardião do Alívio” ou “DDGA”, lançado em 2020, e que acaba de ganhar versão estendida como um álbum, seu segundo de estúdio. “Pode ser que meu movimento de retorno não esteja cumprido neste trabalho”, resume sobre o processo de retomada.

Dalasam considera tudo o que passou, e que foi documentado, uma obra literária, com cartas e poemas, cujo livro virá na sequência. A trama envolve a dualidade da dor e do alívio, uma reconexão ancestral e o coloca como figura afro-latina. Quer viajar quando der para se conectar com a ancestralidade na África, conhecer o Egito e fazer um roteiro entre Espanha e Marrocos.

Rico Dalasam – Foto: Reprodução/Instagram/@ricodalasam

Neste lançamento, despiu-se ainda de seus flows de rap, trava-línguas e amontoado de termos (alguns criados para expressar sentimentos), sua assinatura. “No rap, a gente chama uma frase potente de punchline. Qualquer verso forte é uma aspa, um tuíte… A característica do meu trampo é como ele é escrito, como é desenvolvida a narrativa e a distribuição das palavras”, exemplifica.

Quem ouvir as novas composições pode se identificar com fragmentos dela, não necessariamente com o todo. “Não está baseado na emoção eufórica ou egóica do artista. Preferi o ‘não’ muitas vezes”, conta. Optou por não estrelar campanhas publicitárias ou acumular receita multiplicando uma imagem exaustiva enquanto tentava se reconstruir. “Minha disciplina é a música e a escrita”, distanciando o título de influenciador quando o assunto são pautas identitárias.

Rico Dalasam – Foto: Reprodução/Instagram/@ricodalasam

Quando teve o estalo deste trabalho, ele e os parceiros Mahal Pita e Curumin estavam debruçados sobre outras músicas, mais conceituais, que não têm previsão de sair. “Pode ser que demore outros quatro anos para por outra coisa na rua”, brinca sobre o disco “estranho” e conceitual que antecedeu “DDGA”. “Não sei se é para agora ou para quando tiver 50 anos”.

Daquele período antes da mudança, ainda guarda uma pasta com mais de 100 músicas que, muito provavelmente, nunca verão a luz do dia. “As coisas desandam quando você não se respeita. Vê algo que, mesmo que fuja da sua natureza, você vai e fala: ‘eu sei fazer’.”

Rico Dalasam – Foto: Reprodução/Instagram/@ricodalasam

A moda, outra plataforma que ajudou a construir sua persona, está menos colorida e incendiária. Os looks com barriga de fora – sinônimo de resistência – atenuaram em tons mais sóbrios e com mais pano. Maturidade, segundo ele. Deixou de lado o cabelão para usar dreadlocks baixinhos. “Moda sempre foi um código, uma linguagem muito forte. Falar algo quando você não tem voz por meio da imagem”, resume.

Como inverteu todos seus códigos, espera que seu processo de transição, hoje mais tranquilo, sirva de lição para outras pessoas nesse momento de agonias silenciosas.