Foto: Guilherme Samora/Divulgação

Rita Lee, 72 anos, paga para não sair de casa. Só sente falta de poder “dar uns amassos” nos filhos e netos. Mas houve um tempo em que a rainha do “Roque Enrow” não sossegava – como a própria contou em “Rita Lee: Uma Autobiografia”. “Passei 50 anos direto na estrada feito cigana, já deu por essa vida”, decreta à Bazaar.

Sem culpa nenhuma, despediu-se dos palcos em 2012 e optou pelo dolce far niente ao lado do companheiro, o guitarrista Roberto de Carvalho, de 67 anos, com quem encara o distanciamento social.

Foto: Guilherme Samora/Divulgação

Embebida pela natureza e pelos bichos de sua casa em São Paulo, a autora dedicada acaba de completar sua série de literatura infantil “Dr. Alex e os Reis de Angra” e “Alex e o Phantom”, lançados originalmente na década de 1980. “Há muita luta pela frente ainda”, explica ela sobre o personagem ambientalista preocupado com a Mãe Natureza. “Vovó Ritinha é uma velhinha fofa, contadora de histórias verdadeiras para crianças, com um toque leve, porém com mensagens sérias.”

Defensora dos animais desde sempre, acredita que esse momento leva a uma viagem para dentro de si. “O vírus da nossa Nave Mãe Terra é a própria raça humana, que está destruindo o planeta e a si mesma.”

Quando foi decretada a pandemia, estava empenhada em voltar aos palcos, ainda que em uma aparição despretensiosa na turnê “CeLEEbration”, do primogênito Beto Lee. Seu outro filho, João Lee, segue produzindo remixes dos hits da carreira dos pais com DJs brasileiros e estrangeiros.

Esse movimento musical vem para coroar o aniversário de lançamento do quarentão “Lança Perfume”, que deve ganhar edição comemorativa em breve.

Ao lado de Roberto, Rita tem se empenhado em compor e gravar demos, mas se sente desencorajada agora a entrar em estúdio para registrar um material inédito, quem dirá uma live. A seguir, uma conversa sobre música, amadurecimento e autodeboche.

Foto: Guilherme Samora/Divulgação

Qual reflexão faz sobre os problemas preconizados na sua série de literatura infantil, que estão hoje acometendo nosso País?

Pois é, nos anos 1980 não se falava tanto em preservação do Meio Ambiente, da cultura indígena, da mineração desenfreada, do perigo de usinas nucleares, da defesa dos reinos mineral, vegetal e animal. As crianças de hoje precisam desde cedo aprender a respeitar e a defender nossa Mãe Terra. Afinal, elas que vão herdá-la.

“Lança Perfume” acaba de completar 40 anos. O trabalho continua sendo um clássico atemporal. Tem alguma história engraçada daquela época?

A história é a seguinte: quando o Corinthians ganhava, meu pai [Charles Jones] distribuía lança perfume para a família toda, era uma farra em casa. A música foi, de certa maneira, uma homenagem a ele.

Seu último álbum foi “O Reza”, de 2012. Você tem dito que tem demos e composições para pelo menos três álbuns inéditos. O que falta para estes trabalhos verem a luz do dia?

Por enquanto, as músicas estão registradas em demos e, se a preguiça permitir, um belo dia gravaremos pra valer no estúdio que temos na garagem. Demos são esboços, não dá para saber como serão os arranjos enquanto não botarmos a mão na massa.

Seria seu primeiro lançamento na era das plataformas de streaming. Como enxerga esses novos jeitos de consumir música?

Com essa pandemia, músicos, técnicos de palco e de som, roadies, cenógrafos, e quem faz toda a estrutura por trás de um show estão todos desamparados. A arte brasileira está desamparada. Os poderosos que estão no comando odeiam artistas. No momento, estou sem alegria para encarar um estúdio… Mas, certamente, se acontecer de lançar um trabalho novo, vou entrar nessa vitrine virtual.

Para você, envelhecer foi um problema?

Ficar velha para mim está sendo uma fase interessante, uma rabugice sarcástica que não se deixa levar por discursinhos políticos seja de que lado for, são todos canastrões. Meu corpo físico envelhece a cada dia, mas minha cabeça está bem mais afiada.

Você já atribuiu esse amadurecimento a uma “feitiçaria feminina”. Se a idade lhe deu superpoderes, quais são eles?

Não é superpoder, com a idade minha libido foi sendo transformada em mortido. Estou mais próxima da vida que me espera depois de cumprir minha experiência no mundo da matéria.

Seu bom humor permanece intacto, ainda que há 12 anos longe dos palcos e enfrentando esse momento de pandemia?

O autodeboche é uma grande estratégia para sair desses momentos de depressão. Claro que nem sempre é possível, é difícil fazer humor quando há tantas tragédias pelo mundo. Eu choro por cinco minutos, depois me dou um esporro e começo a agradecer pela vida maravilhosa que tive e que ainda tenho.

Qual foi a coisa mais audaciosa que acredita ter feito na carreira?

Não sei dizer das minhas audácias, eu fazia o que me dava na telha. Mas me lembro que num show (Hollywood Rock, em 1995) entrei vestida de Nossa Senhora Aparecida, como uma homenagem à padroeira do Brasil, e fui excomungada pelos padres…

Tem algum arrependimento ou prefere não colocar feitos nessa perspectiva?

Ter experimentado quiabo, já sabendo que não ia gostar.

Quais bandeiras Rita Lee defende?

A única bandeira que sempre carreguei desde pequena é a da defesa dos animais.

Tem medo de ser cancelada na internet?

Não frequento tanto a internet para que isso aconteça. “Cancelar” alguém parece coisa de 1984, de (George) Orwell.