Foto: Divulgação

Por Mariana Barbosa

A simetria das pinceladas do paquistanês Salman Toor com a realidade espanta. Ele adorna essa atmosfera íntima e esverdeada (mesma cor da bandeira de seu país) que, por vezes, remete a certo enclausuramento – ora solitário, ora compartilhado.

Liberdade, solidão e todos os conflitos da própria existência aparecem como uma filosofia simbiótica com aqueles que moram em suas obras. Instalado na “cansativa e apaixonante” Nova York há cerca de 15 anos, o pintor edificou sua carreira inspirando-se na vida contemporânea.

Seus personagens bebem, tiram selfies e questionam as incertezas do futuro. A identidade de suas pinturas figurativas vão do queer boy ao brown man (menino gay e homem pardo, em tradução livre), carregando a cultura americana e o universo LGBTQIA+ multiétnico.

“Às vezes, eles parecem ágeis e descolados, vivendo a vida urbana com seus amigos e parceiros. Em outros momentos, não tão legais, são estrangeiros, suspeitos com ideias estranhas, pessoas esperando por uma resolução no campo burocrático ou vítimas de homofobia”, explica em entrevista à Bazaar.

Tirados de sua própria cabeça, os personagens são retratados compartilhando a vida com amigos, parceiros e familiares. Inspirações que vêm da TV e até das pessoas que segue no Instagram. Suas pinturas são resultado de memórias, como um momento de luta interior motivado pela sua vida em uma metrópole ocidental. “Cresci em Lahore, no Paquistão, em um ambiente em que a família é sagrada e todo e qualquer individualismo é ameaçador.”

Óleo sobre tela Group B (2020), de Salman Toor – Foto: Galeria Luhring Augstin/Inam Malik

Inspirado pela própria história para criar seus personagens, Salman contrapõe com imponência a pintura figurativa como conhecemos até aqui – sempre protagonizada por brancos. Para ele, trazer para o contemporâneo os seus “‘homens pardos” é uma maneira de expressar igualdade e liberdade.

A paleta de cores terrosas da tela “Downtown Boys” (2020) nos transporta para as memoráveis obras de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), que para ele é um ponto de convergência entre jovens pintores figurativos. “Quando ainda vivia no Oriente, eu e um amigo (também pintor) repassávamos suas pinturas. Hoje, confesso que não olho mais para Lautrec, mas adoro as meias inseridas em suas composições intimistas de quartos”, comenta, relembrando os tempos em que ele e o amigo retratavam-se como meretrizes parisienses.

Falar em liberdade é contraditório nos últimos meses. Atravessado pelo isolamento social, o mercado de arte reage migrando para o digital e criando uma rede colaborativa entre os seus agentes. Alguns artistas viram sua produtividade despencar. Salman, no entanto, relata que os dois primeiros meses significaram um ápice, criando telas, ainda que em menor escala, em seu apartamento em vez do estúdio.

Mas percebeu em pouco tempo que a falta de vibração na cidade diminuía seu entusiasmo. “Sem pedestres, sem estranhos e suas diferenças, era como se aos poucos me esquecesse de quem eu era. Percebi isso quando comecei a pegar o trem novamente para chegar ao meu estúdio. Eu me sinto vivo novamente.”

Mudar-se para o Ocidente instigou Salman Toor a ir contra as influências modernas que flutuam no mundo artístico. Assim, embarcou em uma formação acadêmica na pintura, que trazia uma história associada a temas como racismo, colonização e escravidão – que acessa constantemente como catalisadores de seu trabalho.

Com uma narrativa similar à de muitos artistas que vivem em outras capitais, como Paris e Londres, se diz seguro e verdadeiramente livre na vida que leva na cidade que adotou como sua. Em meio à pandemia, viu sua primeira exposição individual no Whitney Museum of American Art de Nova York ser adiada. Agora, “Salman Toor: How Will I Know” deve acontecer, presencialmente, em novembro.