O trio escocês formado por Martin Doherty, Lauren Mayberry e Iain Cook – Foto: Divulgação

Como toda a religião que se preze, o discurso deve condizer com a sua imagem. Não poderia ser diferente com o Chvrches (pronuncia-se como igrejas, em inglês). O trio de Glasgow, na Escócia, tem como vocalista Lauren Mayberry, que largou o posto de jornalista premiada para se embrenhar na música e ser sacerdotisa de uma legião de adoradores, ao lado dos produtores e multi-instrumentistas Martin Doherty e Iain Cook.

Depois de três bem-sucedidos álbuns tendo como foco o synth pop, o grupo desempoeirou as guitarras para apresentar um som mais pesado no recém-lançado “Screen Violence” (violência nas telas, em tradução livre), o quarto de estúdio. Apostando em referências do rock oitentista, tão atual na cena musical nas mãos de nomes como Miley Cyrus e Willow, o material invade a década de 1990 com resquícios da dance music.

Com canções que, ainda pop, soam mais obscuras, surge outro lado alternativo. Reflexo do período de quarentena, onde cada membro se situava em uma parte do planeta. No começo de 2020, Lauren e Doherty estavam nos Estados Unidos, enquanto Cook vivia na cidade escocesa. “Todo mundo se sentiu isolado, de alguma maneira. Mas o mais maluco é: o nome do disco veio antes da pandemia”, conta a artista, por videochamada. “Foram desempacotadas coisas que precisávamos para o álbum soar catártico”, conta sobre o trabalho menos polido e mais cru. “Estávamos em turnê, em 2019, imaginando o depois da estrada. Encontrei essa lista de nomes que não usamos para a banda porque poderia ficar muito datado ou retrô. Quando chegou a hora de compor novamente, gostei do conceito de trabalhar a partir de um título e uma estética para criar a partir desse universo.”

As referências foram pinçadas dos gostos pessoais dos músicos como Depeche Mode, New Order e Orchestral Manoeuvres in the Dark (conhecido como OMD). Além dos também britânicos Prodigy, Squarepusher, Aphex Twin e outros noventistas. Época do consagrado The Cure, o único feat. do álbum não poderia ser endereçado a outra pessoa, senão o vocalista Robert Smith. “Sinto que agora já posso me aposentar”, brinca Lauren a respeito da faixa “How Not To Drown”. “Sempre os tivemos como modelo perfeito, porque o The Cure consegue fazer faixas de pop absoluto, mas também se permite sons mais sombrios e estranhos, com ar melancólico”, diz. Depois de colaborações açucaradas com Hayley Williams, do Paramore, e com o DJ e produtor Marshmello, queriam algo mais condensado. “Foi tão estranho trocarmos e-mails com Robert e ele enviando suas notas de voz. Momento maravilhoso.”

Seja por dancinhas no TikTok ou fenômenos à la Billie Eilish e Olivia Rodrigo, o jeito que as músicas são consumidas, atualmente, vêm se modificando. “Não é mais baseada no gênero”, conta Lauren ao lembrar do início da carreira, há uma década, quando não eram pop o suficiente para estar em uma prateleira, nem alternativos ou roqueiros o bastante para estar em outra. Mas não é motivo de preocupação, visto que seu som sempre foi avant-garde. “Não ouço o que está no topo das rádios, então nunca tomo ciência do que chega para as massas, até eu perceber: ‘meu Deus, aquela pessoa está tocando dez noites no mesmo lugar’.”

Mais ecléticos e menos rígidos na musicalidade, o ócio da pandemia os fez entrar em contato com pedais de guitarra, de verve mais suja. E parecia ilegal, na opinião de Lauren, adicionar à sonoridade. Mas se deu conta que eles próprios ditam as regras do que é pecado em sua igreja. E, por isso, preferem se manter fiéis às origens do que soar mainstream.

A única coisa que Lauren ainda precisa trabalhar é a chamada cara de paisagem. “Não tenho uma boa poker face. Os meninos da banda me disseram que preciso tomar ciência da minha cara no Zoom. Porque, quando alguém me faz uma pergunta estúpida, entrego na lata. Acabo fazendo oversharing e me gera problema.” Menção explícita à crítica que fez condenando a atitude de Marshmello ao topar um feat. com os problemáticos Chris Brown e Tyga.

Lauren tem opiniões fortes e muito claras. Seu trunfo está na defesa de assuntos como feminismo, misoginia e empoderamento. Mas, confessa, está cansada de dar entrevistas focadas nesses temas. “Aos músicos homens perguntam apenas sobre suas inspirações, composições, letras e para mim é sempre: ‘como lida com os haters na internet?’”. Injusto? Talvez. Mas a verdade é que o confessionário público de Lauren tem atraído mais fãs do que odiadores. Para os fiéis seguidores, sua Igreja estará sempre de portas abertas.

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