A partir da esq., Gabriel Pitan Garcia, Julio Lapagesse, Renata Neon, Pedro Ivo Verçosa, Rafaela Foz e Virgílio Neto - Foto: André Giorgi
A partir da esq., Gabriel Pitan Garcia, Julio Lapagesse, Renata Neon, Pedro Ivo Verçosa, Rafaela Foz e Virgílio Neto – Foto: André Giorgi

O nome da rua é o mesmo do bairro: Barra Funda, em São Paulo. Ponto que atrai cada vez mais a turma das artes, que trocou a abarrotada Zona Oeste por áreas mais centrais da cidade. Por ali, uma fachada pintada de branco se destaca no meio das construções. A porta fechada esconde um dos locais mais interessantes daquelas bandas.

Batizado de Breu, o enorme galpão de dois andares funciona como ateliê coletivo, espaço de exposições e cursos, idealizado pelos artistas Rafaela Foz, Virgílio Neto, Pedro Ivo Verçosa, Renata Neon, Gabriel Pitan Garcia e Júlio Lapagesse.

Apesar do significado, tudo o que nasce ali é resultado de muita criatividade e força conjunta. “O nome não tem sentido conceitual. Estávamos atrás de opções simples e fortes. E também porque ficamos dez dias sem luz, completamente no breu. Porta aberta, esperando a Eletropaulo”, conta Virgílio.

Mesmo com distintas histórias de vida, todos parecem conhecidos de longa data. No entanto, foi quase isso, já que o encontro entre os seis se deu de forma muito natural. Pedro, Virgílio e Júlio vieram de Brasília. Formados pela UnB, são os mais velhos do grupo. Já dividiram ateliês na cidade natal e decidiram se aventurar na cena paulistana. Conheceram, então, Rafaela, Renata e Gabriel, que, assim como eles, integravam um espaço em São Paulo enquanto frequentavam o curso de Artes Visuais da Faap.

“Tem o caminho do edital, a galeria e as instituições. Em questão de autonomia, esse caráter de experimentação, de se colocar, falar do trabalho sem tantas interferências e dependências de outros formatos é muito importante. Aqui nunca deixou de ser um ateliê, ele é isso antes de tudo”, diz Pedro, atualmente encarregado da administração.

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Detalhe de um dos espaços do Ateliê Breu - Foto: André Giorgi
Detalhe de um dos espaços do Ateliê Breu – Foto: André Giorgi

Nenhuma decisão que envolva o espaço escapa do coletivo. Prestes a completar um ano de vida, a turma já colheu bons frutos. Ao entrar no recinto, uma cobertura com pé-direito alto e paredes de tijolos dão boas-vindas ao convidado. Em frente, um enorme corredor é ocupado com exposições que o grupo organiza, tanto deles como de outros artistas.

A programação do Breu ainda inclui rodadas de conversas com artistas, professores, curadores e intelectuais, além dos mais diversos cursos e oficinas. Já teve evento de performance sonora, aulas de modelo vivo e visitas das mais variadas, como da cartunista Laerte. “A maior parte das propostas chega de fora. Primeiro, sentamos com a pessoa e tomamos um café, nos conhecemos. Aqui não é uma instituição e nem galeria, tem uma liberdade importante”, garante Pedro. “Quando inauguramos o Breu, não fizemos um planejamento de exposições, elas aconteciam. Foi tudo orgânico, recebíamos e propúnhamos”, completa Rafaela.

No segundo andar, os estúdios foram divididos de acordo com a necessidade de cada membro. “Pedro e Gabriel pintam, então, têm de ter espaço, ar e parede para prender as telas. Meu trabalho não é tão manual assim, envolve leitura, um computador e estantes”, diz Rafaela, que produz majoritariamente em vídeo e fotografia. “Virgílio desenha, e demanda silêncio para se concentrar. O Júlio faz coisas mais miúdas e colagens, por isso precisa de uma boa mesa para todo o material. E a Renata faz coisas digitalmente e só exigiu uma mesa com cadeira”, continua. Fora os seis, mais dois ateliês rotativos são disponibilizados para quem procura um endereço temporário.

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A partir da esq., os artistas Julio Lapagesse, Gabriel Pitan Garcia, Rafaela Foz, Pedro Ivo Verçosa, Renata Neon e Virgílio Neto - Foto: André Giorgi
A partir da esq., os artistas Julio Lapagesse, Gabriel Pitan Garcia, Rafaela Foz, Pedro Ivo Verçosa, Renata Neon e Virgílio Neto – Foto: André Giorgi

Importante também é a troca promovida entre os artistas. Não é novidade que a visão romântica de uma vida baseada na solidão do ateliê caiu por terra. Hoje, espaços coletivos têm força no meio, principalmente para os mais jovens. Trabalhar ao lado de múltiplas cabeças pode ajudar a desenvolver certa maturidade na produção. “Vi a importância de ter alguém perto para conversar e colocar outras perspectivas. Desde então, não queria mais trabalhar sem ser dessa maneira”, exemplifica Gabriel. “É uma interação incrível, só de observar processos e a forma como o outro produz e se organiza”, confirma Renata.

A última exposição aconteceu em maio, quando o espaço comemorou oficialmente seu primeiro ano de existência. Para a ocasião, eles organizaram individuais de Renata e Júlio. Há novos projetos em mente, além de ciclos de conversas programadas para acontecer pelo menos uma vez ao mês. Os próximos passos já estão no pensamento, mas cada caminho ainda é uma porta a se desvendar. “Acho que, para o artista jovem, é uma boa estar junto, criar forças. Temos muitas dúvidas, seja de alguém que te ajude a indicar uma pessoa que faz molduras, ou que edite um vídeo melhor que você, saiba fotografar bem o trabalho. Alguém para ler seus textos. Acho que é nesse caminho que reside a grande troca”, completa Virgílio.

Detalhe de um dos estúdios do Ateliê Breu - Foto: André Giorgi
Detalhe de um dos estúdios do Ateliê Breu – Foto: André Giorgi