Danielle, Alana e Este, as irmãs que emprestam o sobrenome à banda HAIM (Foto: Reto Schmid/Divulgação)

Por Isadora Almeida

Se os sonhos – muitos deles estranhos durante a pandemia – estão sendo estudados para entender as incertezas e angústias geradas pelo confinamento forçado, o grupo indie pop HAIM encontrou neles uma resposta. Terceiro álbum de estúdio das irmãs de Los Angeles (Estados Unidos), Women In Music Pt. III (Mulheres na Música Parte 3, em tradução livre), que lança nesta sexta-feira (26.06), tem um tom sarcástico, ironizando esse jargão e assunto recorrente nas entrevistas que dão.

Obcecada com o tema que ecoou a indústria da música no ano passado, a vocalista e irmã “do meio” Danielle Haim, de 31 anos, sonhou com a frase, ligou para as irmãs, que riram do nome, e graças a isso sentiram que seria o encaixe perfeito para o novo trabalho. Não à toa: o tema esteve presente em incansáveis eventos, palestras e debates pelo mundo e diversas publicações com matérias que iam de “precisamos de mais mulheres na música” a “festivais precisam ter mais artistas femininas no line-up”. E outras mais desinteressantes sobre “como é ser mulher na indústria da música”. Então, para não correr o risco de ter de responder sobre isso novamente, facilitou o trabalho.

Durante a quarentena, o grupo HAIM foi um destaques das redes sociais quando não anunciaram uma live musical, mas de dança. Elas mostraram que têm muito mais a oferecer do que cantar ou tocar seus instrumentos. Este Haim (contra-baixo, 34), Danielle (guitarra e vocal) e Alana Haim (guitarra junto com teclados e percussão, 28) estão em suas respectivas casas em LA, vivendo a quarentena do jeito que dá. Meio-dia na Costa Oeste e 16 horas em São Paulo, o trio aparece para o papo (em vídeochamada por Zoom) com Bazaar. Um “oi” do lado de lá da tela, com delay em cada quadradinho, e seguimos.

Danielle assina a produção do novo álbum ao lado do namorado Ariel Rechtsaid (que já trabalhou com Adele, Charli XCX e Vampire Weekend) e Rostam Batmanglij (Clairo, Frank Ocean e Jenny Lewis). “A gente teve umas ideias malucas e foi para o estúdio ver o que saía, tentar a melhor versão e fazer justiça para as músicas que imaginamos. O Ariel e Rostam são gênios. Quando ouço a produção e a energia que criam, minha mente explode”, exclama a vocalista.

Ter três produtores criando em estúdio pode ser desafiador e ela explica o porquê: “Ter opiniões bem fortes às vezes é difícil, mas é muito bom trabalhar com pessoas que são abertas às nossas ideias. Me sinto sortuda por estar com eles.” Este logo completa: “Danielle é o equalizador no estúdio. Ela sempre coproduziu nossos álbuns, mas sinto que nesse tem muito mais a mão dela. Tenho muito orgulho da minha irmã.”

[Nesse meio-tempo, Alana pergunta se o olho de Danielle está OK, porque ela não para de coçar, mas está tudo bem — talvez seja um cisco. Esse é o nível de preocupação que uma tem com a outra, é muito gostoso ver (mesmo que por uma ligação de vídeo) essa conexão e carinho.]

Women In Music Pt. III é um mix de referências e vivências das três irmãs que tocam vários instrumentos desde criancinha e tinham uma banda com os pais, chamada Rockinhaim, que tocava covers de clássicos do Rock e da Soul music. A única a estudar música foi a baixista Este, que chegou a se formar em Etnomusicologia (algo como a antropologia da música) na UCLA e se especializou em músicas búlgara e brasileira.

“Nós três somos bateristas, foi o primeiro instrumento que aprendemos. Acho que ritmo é muito importante para a gente, compomos músicas na bateria. Amamos tanto a música brasileira por isso. Tem muita energia, vibra de uma maneira especial, como o Samba. Dá vontade de dançar, sabe? E são harmonias incríveis, que a gente não tem por aqui. Principalmente, a música do Carnaval… é demais”, exclama.

São quase nove anos que as HAIM querem vir ao Brasil e o que os fãs pedem por elas. “A gente quer muito ir, você sabe, né?”, comenta Este. “Temos parentes em Curitiba (capital do Paraná) e nunca conseguimos um tempo para visitar. Mas a gente vai, sim. Queremos muito tocar no Brasil.” A nós, resta esperar que o mundo entre nos eixos pós-pandemia, os shows voltem à normalidade para termos finalmente as irmãs por aqui. Um sonho que não vai precisar ser estudado!

Danielle, Este e Alana (Foto: Divulgação)

ÁLBUM NOVO
A abre-alas é a ótima e ensolarada Los Angeles, que traz um delicioso saxofone. De maneira agradável, a faixa encapsula o tom da nova fase. “Summer Girl, a primeira música que lançamos, foi feita no Verão, finalizamos e a lançamos de maneira espontânea. E foi assim com as outras músicas também. Depois de um ano gravando, isso resultou em um álbum, então acho que essa espontaneidade e leveza sejam o tema do trabalho.” Sem lançar nada novo desde 2017, em 2019 soltaram ao lado de Summer Girl (uma declaração de amor e positividade de Danielle para Rechtshaid, que enfrentava um câncer), Hallelujah e Now I’m In It – que aparecem como bônus track.

São 16 faixas que transitam entre tudo o que elas gostam: guitarras — que por vezes remetem a Fleetwood Mac —, pitadas de Pop que lembram os melhores momentos de Janet Jackson, letras e vocais que têm a energia de Joni Mitchell e tudo que existe no meio disso. I Know Alone, um dos singles do álbum, teve como inspiração o clássico filme cult Trainspotting (Danny Boyle), de 1996. “Pouco antes de gravarmos I Know Alone, tinha visto o filme e a trilha sonora ficou muito na minha cabeça, acho que ela acabou influenciando no resultado”, conta Este.

The Steps foi a escolhida para trazer o clima “cantando com as amigas do carro”. É a faixa mais HAIM, se assim podemos dizer com a guitarra mais delícia, do álbum que dá vontade de ver ao vivo com a Danielle “shredding” (arrebentando na guitarra). Logo vem à mente qual seria o solo de guitarra favorito dela: “Que difícil! Acho que Life’s Been Good do Joe Walsh. Essa música é demais! Ai, calma…sabe qual música tem um solo incrível? Marquee Moon do Television. Acho que eu fico com essa!”

Hallelujah, a faixa mais pessoal da carreira até hoje, tem letra e voz das três e fala sobre família, amor, perda e agradecimento por tudo. O trecho de Danielle e Este deixa claro a gratidão que sentem por terem uma na vida da outra. O de Alana é a parte mais emocionante do repertório, pois fala sobre a gratidão da amizade que teve com Sammi, a melhor amiga que faleceu em um acidente quando ela tinha 20 anos e gerou um quadro de depressão.

O diretor de filmes Paul Thomas Anderson, que trabalhou com as HAIM no disco anterior, no clipe de Little Of Your Love e na session Valentine, é o responsável pela fotografia da capa do álbum. Esse encontro traz o tom perfeito para ilustrar o novo trabalho em uma linda capa, irônica e cheia de significados. Excelência e espontaneidade, ponto para as HAIM.

Capa do álbum ‘Woman in Music Pt. III’, que lança na sexta-feira (26.06) – Foto: Divulgação