Sonia Braga no Museu de Arte Contemporânea de Niterói - Foto: Marizilda Cruppe
Sonia Braga no Museu de Arte Contemporânea de Niterói – Foto: Marizilda Cruppe

Por Carol Almeida

“É a dama do lotação?”, o senhor me pergunta, um pouco atônito, um tanto perplexo. “Sim”, respondo. Estamos na calçada do restaurante da velha oligarquia recifense, o Leite.Toneladas de equipamentos cinematográficos cercam o local. E aquele senhor, passando desavisado pelo centro da cidade, sem querer, contempla o maior fetiche de sua geração. Fosse ela a dama do lotação, a Gabriela subindo no telhado, a dona Flor com seus dois maridos, as várias mulheres na Mulher-Aranha e, por fim, a Tieta, que a casa torna.Todas personagens que codificaram Sonia Braga como epítome da sensualidade brasileira. Mas a Sonia que está ali diante do transeunte embasbacado é outra Sonia.

Ainda diva, ainda a grande estrela de cinema, mas, sobretudo, uma atriz que, quase 20 anos depois de protagonizar um filme nacional, volta ao Brasil. Ela vai viver uma personagem que – as pistas indicam – possivelmente irá questionar toda essa objetificação da figura feminina cujo poder e lascívia têm prazo de validade numa sociedade machista. Não à toa, a resposta dela ao roteiro foi imediata. Do Texas, onde recebeu o texto, enviou o sinal positivo para se lançar na produção. O filme em questão se chama Aquarius, deve ficar pronto entre 2016 e 2017 e é do premiado diretor Kleber Mendonça Filho, aquele que com seu primeiro longa, O Som ao Redor (ao qual Sonia assistiu via Netflix), ganhou dezenas de prêmios pelo mundo e elogios nada tímidos do The New York Times e do Cahiers du Cinéma.

Do pouco que já foi revelado do roteiro de Aquarius, sabe-se que Sonia Braga, 65 anos, interpreta Clara, uma jornalista musical aposentada que foi morar no Recife nos anos 70, teve três filhos, ficou viúva e vive num edifício à beira-mar da praia de Boa Viagem conhecido como Aquarius. Há também algo relacionado a viagens no tempo, visitas a um Recife já passado.

SoniaBraga e o diretor Kleber Mendonça nas gravações de Aquarius, filme em produção no Recife - Foto: reprodução/ Bazaar
Sonia Braga e o diretor Kleber Mendonça nas gravações de Aquarius, filme em produção no Recife – Foto: reprodução/ Bazaar

O cenário da casa de Clara, por si só, já sinaliza o que vem por aí. O nome real do edifício que serve de locação da protagonista é Oceania e trata-se de um dos símbolos de resistência de antigas e históricas construções de dois ou três pavimentos diante de um mercado imobiliário predatório em suas torres de mais de 20 andares. Oceania/Aquarius aponta para um debate sobre memória. E ninguém melhor do que Sonia Braga, que com esse filme pode estar se reinventando, para condensar os embates entre passado, presente e o futuro da tão esperada Era de… bem, você sabe. A lembrar que a atriz, que vive hoje em Nova York, está em briga judicial com a Rede Globo pela reexibição da novela Dancin’ Days no Canal Viva, sem que os atores fossem remunerados por isso.A memória, essa danada.

“Ela tem uma relação única com a câmera”, elogia Kleber, sabedor de o quanto o nome de Sonia Braga como protagonista de seu filme mexe com o imaginário das pessoas.A atriz, por sua vez, também é completamente ciente do magnetismo que exerce dentro e fora de cena. Sua presença no set é sempre um evento. Ela conversa com os figurantes, troca receitas, quer botar crianças no colo, posa para fotos com as pessoas, causa comoção em cenas externas e dá uma bronca espirituosa na repórter que, inadvertidamente, passa por detrás do carro que ela irá dirigir em cena:“Eu podia ter lhe matado!”, Sonia me repreende, enquanto ensaia sua primeira ré. Ela tem carteira de habilitação, mas mal sabe dirigir. Na cena em questão, está presa no meio de um daqueles transitos incontornáveis das grandes cidades e lá vemos mais uma pista de que, novamente, Kleber Mendonça Filho não vai poupar críticas ao modelo de desenvolvimento urbano em que vivemos.

Vestindo quase sempre branco, nude e tons terrosos, em tecidos que fluem “uma sofisticação inteligente e sutil”, segundo a estilista e figurinista do filme, Rita Azevedo, Sonia Braga passeia pelo set de Aquarius altiva, sorridente, concentrada. Se aquele senhor tivesse passado algum tempo depois, eu responderia:“Não é a dama do lotação, é Clara. Ou melhor, Sonia

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