Fernanda Feitosa – Foto: Jéssica Mangaba

Por Camila Martins – colaborou Bianca Argolo

A maior feira de arte da América Latina supera a ansiedade do público, pós-pandemia, com uma retomada entusiasta na aquisição de obras de arte.  Segundo a organizadora da SP-Arte, Fernanda Feitosa, que foi a protagonista em acompanhar as principais movimentações e inovações do cenário artístico, muitas galerias venderam seus estandes inteiros ainda nos primeiros dias da feira, que aconteceu na Arca, em São Paulo.

Segundo estudos internacionais, a queda nas vendas verificada durante a pandemia foi de 22% e o mercado já apresenta sinais de recuperação para patamares pré-pandemia. Por mais que o formato híbrido tenha colaborado no último ano, por conta da pandemia – nada substitui o encontro presencial com a arte. Foram 128 expositores, sendo 84 presenciais e 44 exclusivamente no ambiente digital.

“As galerias estão apostando em artistas mais jovens, em começo de carreira, como também iniciam a trabalhar com mais fôlego, junto aos artistas de corpos dissidentes – racializados e LGBTQIA+. Observava-se uma busca mais acentuada por pinturas, além de um interesse crescente por artistas mulheres, indígenas, negros e LGBTQIA+”, diz Fernanda Feitosa.

Na jornada da 17ª edição da SP-Arte era possível encontrar QR Codes contendo roteiros para orientar seus visitantes – questões sobre história e temas urgentes da arte brasileira, escritos e narrados pela curadora, editora, e pesquisadora Camila Bechelany, e pelo professor, curador e pesquisador Frederico Coelho. 

Como parte da programação, a feira também promoveu debates e encontros sobre temas latentes do circuito de arte no talks, com pautas como a arte e a tecnologia. Entre as atividades gratuitas, o programa “Experiências Digitais”, com a consultora e especialista no mercado de arte Vivian Gandelsman, dialogava sobre estratégias de precificação e venda.

Leia entrevista com a Fernanda Feitosa concedida à Bazaar.

Conforme afirmou antes da feira “todo o circuito está ansioso pelo reencontro”. Como o público reagiu ao encontro físico na SP-Arte?

A resposta que tivemos foi muito positiva! Por mais que o digital tenha nos ajudado no último ano, nada substitui o encontro presencial com a arte. O evento foi realizado de forma muito cuidadosa, seguindo normas rígidas de segurança. O público ficou muito feliz em poder ter o contato próximo com as galerias e também com os artistas, durante os encontros presenciais que promovemos por meio do talks.

Quais foram as principais movimentações e inovações do cenário artístico?

Houve uma oxigenação maior de artistas representados no circuito comercial de arte – as galerias estão apostando tanto em artistas mais jovens, em começo de carreira, como também iniciam a trabalhar com mais fôlego, junto aos artistas de corpos dissidentes – racializados e LGBTQIA+, por exemplo.

Como foi trabalhar com o presencial e o digital? Em qual dos dois formatos você percebeu que o mercado da arte obteve um melhor resultado?

Apesar de já estarmos realizando o SP-Arte Viewing Room há quatro edições, essa foi a primeira vez em que a feira foi realizada em formato híbrido; com o presencial e digital ao mesmo tempo. A feira física continua se mantendo como carro-chefe de vendas do evento, mas a feira digital desempenha um papel importante, ao tornar as obras acessíveis para colecionadores de fora de São Paulo e do Brasil, com quase 50 mil acessos únicos, contribuindo para um maior alcance da feira.

Em um formato híbrido, como foram os últimos meses de pandemia para a feira? Acredita que o formato digital na esfera das artes visuais vieram para ficar?

É difícil imaginar o mercado da arte seguindo sem sua manifestação digital. A pandemia forçou a aceleração de um processo de digitalização que já vinha sendo realizado em todos os mercados – o da arte só demorou um pouco mais para implementar essa transformação. O digital também traz benefícios importantes como a democratização das obras e da programação para além do espaço físico e temporal que ocupam.

Qual foi o resultado desta mostra física de acordo com a última mostra física que foi no Ibirapuera?

O resultado foi excepcional sob muitos aspectos, sendo o mais importante, a própria realização do evento depois de um hiato de quase 2 anos.

Pretende manter o lugar no próximo ano (Arca)? Quando pretende fazer a próxima SP-Arte em um espaço físico?

A Arca agora faz parte da agenda anual da SP-Arte. Fechamos um contrato de exclusividade com o espaço, e pretendemos realizar outras edições da feira, com diferentes e inovadores formatos, tal como foi esse primeiro evento, em 2021. A SP-Arte é reconhecida pela sintonia apurada com o mercado de arte e sempre inovamos formatos e propostas, como os setores curados, as performances, os prêmios e as exposições. Já temos data para a próxima edição física: entre 06 e 10 de abril de 2022, no Pavilhão da Bienal, e a edição na Arca, no segundo semestre, entre 24 e 28 de agosto.

Como foi superar a ansiedade do público, pós-pandemia? Eles estavam ativos (consumindo) ou estavam observando mais e pesquisando o mercado da arte como um todo?

Depois de um ano ressabiado para compras maiores, sentimos uma retomada entusiasta na aquisição de obras, com galerias vendendo seus estandes inteiros ainda nos primeiros dias de feira.

Como você pesquisou e observou o mercado da arte pós-pandemia? E quais foram as obras que estiveram mais evidentes aos olhos do consumidor?

Mesmo durante a pandemia já se observava uma busca mais acentuada por pinturas, além de um interesse crescente por artistas mulheres, indígenas, negros e LGBTQIA+.

Qual foi o foco da imprensa, ou o que deu maior holofote para a imprensa diante das diversas obras inseridas nas galerias?

A imprensa buscou destacar o caráter híbrido do evento, on e off-line, a retomada dos encontros presenciais, a qualidade da feira, a democratização e a diversidade dos expositores. A feira busca enfatizar sempre suas características de ser um evento plural, diverso e inclusivo.

Quais foram os projetos artísticos que mais chamaram a sua atenção e quais projetos foram destacados, mais vistos?

São muitos artistas e expositores que participam da SP-Arte, essa pergunta é sempre muito difícil de responder, pois são muitos artistas bons! Podemos citar a artista Panmela Castro, que surpreendeu com suas pinturas de flores no estande da Galeria Luisa Strina; o artista mineiro, Gustavo Nazareno, da Galeria Portas Vilaseca, que vendeu 100% do estande no primeiro dia da Feira; a presença da galeria HOA e do Projeto Vênus, ambas pela primeira vez presencialmente no evento – participaram, até hoje, somente na versão online, por conta da pandemia. Artistas internacionais de peso como: Antony Gormley, Anish Kapoor e Michelangelo Pistoleto, na galeria Continua.

Você acha que teve uma queda significativa no mercado da arte, que ela se manteve na média de dois anos atrás para os dias atuais, ou você acha que obteve ou teve uma ascensão?

A queda no mercado de arte ocorreu, sem dúvida, mas ela não foi tão grave quanto se esperava. Segundo estudos internacionais, a queda verificada durante a pandemia foi de 22%, e o mercado já apresenta sinais de recuperação para patamares pré pandemia.

Artistas apresentados na 34ª Bienal de São Paulo entre os mais conhecidos e outros mais presentes na nossa realidade tiveram holofote? Como por exemplo, Emerson Uyra, da Amazonia, Arte indígena e Antonio Dias, entre diversos outros, quais? Como as arte Afro e indígena foram consumidas?

Sem dúvida artistas que participam da 34ª Bienal estiveram presentes na SP-Arte, com destaque para os dois que mencionou, Uyra Sodoma e Antonio Dias. O artista indígena contemporâneo, falecido de forma trágica semana passada, Jaider Esbell, também teve destaque na Galeria Millan, que o representava.

A produção artística afro diaspórica e indígena está sim em evidência, não tanto porque o mercado está atento e dando voz, mas pelo fato de que esse tipo de espaço está sendo reivindicado pelos próprios artistas e as comunidades interessadas. Acredito que essas movimentações vem engrandecendo o circuito de arte como um todo e não apenas o mercado. Trata-se de uma revisão urgente dos problemas estruturais que carregamos como sociedade e que nos demandam ações afirmativas.