
Foto: Vinícius Rocha
Olivia Merquior desconfia da conta que a moda brasileira vem fazendo sobre si mesma. Curadora de moda do SP2B — sigla para São Paulo Beyond Business –, ela assina a programação que a Brazil Immersive Fashion Week (BRIFW) instala na Oca, com Kerry Murphy, fundador da The Fabricant, e os artistas Gabriel Massan e Bernardo Martins, o Figa, entre os convidados. A discussão que ela propõe começa longe das roupas. “Os algoritmos podem distorcer essa percepção, reforçando aquilo que já circula dentro das nossas próprias bolhas e criando a impressão de um reconhecimento que nem sempre encontra correspondência fora delas.” O festival de inovação, cultura e empreendedorismo estreia neste domingo (09.08) e ocupa os equipamentos do Parque Ibirapuera até o dia 16.
A percepção em questão é a de que a produção nacional atingiu o auge de sua projeção internacional, alimentada nos últimos anos pelo brazilcore, que virou tema de campanhas e rendeu editoriais. Merquior diz que o encontro presencial com pares de outros países revela uma realidade diferente daquela que circula no feed, lembra que as políticas públicas brasileiras já estiveram muito mais interessadas no setor do que estão hoje e resume o risco: “corremos o risco de acreditar que ocupamos uma posição melhor do que aquela em que de fato estamos”.
Foi esse diagnóstico que organizou a curadoria, montada para reunir artistas, empresários, pesquisadores e educadores em torno de uma constatação simples, a de que o algoritmo interfere na moda porque a moda sempre dependeu de quem controla a imagem. “Para além das roupas, moda é cultura. Ela faz parte da construção de imaginário e de desejo, alimentada, principalmente, pelas transformações dos meios de comunicação”, diz. “Hoje, um negócio de moda precisa ser pensado a partir da relação da sociedade com a tecnologia, seja incorporando-a, seja rejeitando-a.”
Bye Bye, Brazil
A distância entre a bolha e o mundo aparece na trajetória de quem já trabalha do lado de fora. Massan e Figa, casados e parceiros de trabalho, dividem o palco pela primeira vez no dia 13, às 15h, na mesa Bye Bye Brazil: Arte e Tecnologia do Brasil para o Mundo, mediada por Merquior, uma das primeiras pessoas a apostar no trabalho de Massan. Criado em Nilópolis, na Baixada Fluminense, ele teve o primeiro contato com ferramentas digitais numa lan house, jogando The Sims. Aos 30 anos, vive em Berlim, integra as coleções da Pinacoteca e da Fundação Julia Stoschek, expôs no Centre Pompidou-Metz e nas Serpentine Galleries, onde foi o artista mais jovem a assinar uma individual, recebeu o Prêmio de Distinção da Ars Electronica em 2024 e assinou comissões para Apple, Bvlgari e Madonna. Figa vem ampliando a atuação internacional e colaborou neste ano com Rick Owens.
Os dois ajudam a deslocar a discussão de talento para estrutura. “Hoje, temos artistas que deixam o país e acabam sendo absorvidos como ‘fruto’ de outras culturas”, diz Merquior, para quem o reconhecimento lá fora “não é apenas um louro particular, mas um dos maiores ativos que um país pode ter para sua reputação no ecossistema global”. O que falta, na avaliação dela, é articulação coletiva e capacidade de mostrar em números o que o setor produz. “Os poderes públicos não vão simplesmente acordar um dia e lembrar da gente.”
Depois do hype da IA
A tecnologia que Massan e Figa usam como linguagem reaparece na programação como ferramenta de criação e negócio. No dia 12, às 16h15, Murphy faz sua primeira apresentação no Brasil ao lado da carioca radicada na Holanda Adriana Pereira, cofundadora da The Fabricant, referência global na convergência entre moda, tecnologia e cultura digital. O keynote se chama SOCORRO, agora ela é a chefe! O medo de que a IA se torne sua nova Big Boss, confere? e parte de uma pergunta prática: se as máquinas executam tarefas, onde passa a estar o valor da criatividade humana? Cineasta de formação, Murphy trabalha com ferramentas desenhadas para preservar autoria, repertório e experimentação em vez de padronizar processos.
Merquior avalia que a discussão sobre IA na moda parou cedo demais e cobra que ela saia da geração de imagens. “Pensamos a IA ainda como superfície: geração de imagens, textos etc., quando ela já organiza os semáforos das cidades, participa de decisões jurídicas, faz parte dos processos de recrutamento de empresas e auxilia em diagnósticos médicos”, afirma. “A IA é uma nova infraestrutura e, sim, é perigosa em diversas esferas. Exatamente por isso, precisamos compreendê-la com profundidade.” A recusa, para ela, sai mais cara que o entusiasmo: “Afastar-se do tema entrando no hype do ‘não curto IA’ das redes é a pior coisa que pode nos acontecer. Ficaremos ignorantes e reativos enquanto o mundo nos atropela.”
É por essa lógica que a moda entrou na programação de um festival que reúne mais de 20 palcos distribuídos em oito espaços temáticos, cerca de dois mil palestrantes e expectativa de 500 mil pessoas ao longo de oito dias. Criado por Rafael Lazarini, fundador do Rio2C e COO da Live Nation, depois de uma aproximação com o SXSW que não virou franquia, o SP2B foi montado a partir de diferentes perguntas. “A unidade do SP2B não está em tratar de uma única indústria, mas em observar o futuro por diferentes perspectivas”, diz Lazarini. “A inovação acontece justamente quando repertórios e conhecimentos que normalmente estão separados se encontram.” Ele resume o papel do festival como “dar visibilidade a quem já está produzindo inovação aqui”, que é a lacuna apontada por Merquior, e diz esperar que a cidade saia dos oito dias com repertório: “Uma cidade avança quando seus cidadãos sentem que podem participar da construção do futuro, em vez de apenas reagir a ele.”
Nada disso se resolve em uma semana de programação, e Merquior sabe. Perguntada sobre o que gostaria que chegasse ao mercado depois do SP2B, ela responde com a definição que organizou a curadoria: “O entendimento de que moda não é apenas fazer roupas, mas um dos processos de construção de capital simbólico mais importantes do mundo contemporâneo, tendo o nosso próprio corpo como suporte.”

Foto: Getty Images
Entenda o SP2B
Criado pela Da20, empresa de Rafael Lazarini, que também organiza o Rio2C, o SP2B chega à primeira edição como o maior encontro de inovação, criatividade e empreendedorismo da América Latina, sob o tema A Nova Lógica do Empreendedorismo. A programação passa por inteligência artificial, cidades, saúde, clima, futuro do trabalho, gastronomia, música e moda, e traz nomes como Esther Perel, Daniel Lamarre, ex-CEO do Cirque du Soleil, William Bonner e Alice Braga. O sábado é gratuito e dedicado a microempreendedores, e o domingo abre o parque ao público com shows e cinema ao ar livre.
Serviço
SP2B — São Paulo Beyond Business
Quando: 9 a 16 de agosto de 2026
Onde: Parque Ibirapuera, São Paulo (SP)
Credenciais: à venda no site da Ticketmaster
Informações: sp2b.com.br
O que ver no palco da BRIFW, na Oca
11.08, 15h — Marte Um: Grandes Negócios como Plataformas Culturais, com Emerson Rocha (De Saturno) e Tasha & Tracie (Itfavela)
12.08, 11h — Uma Batalha Atrás da Outra: O Futuro da Moda à Brasileira, com Santista Têxtil, Grendene e C&A
12.08, 15h — The Good Hacker: O Futuro da Sustentabilidade na Moda, com Azzas 2154, Riachuelo e C&A
12.08, 16h15 — Socorro, Agora Ela É a Chefe!, com Kerry Murphy e Adriana Pereira (The Fabricant)
13.08, 11h — GirlBoss: Mulheres como Protagonistas da Moda, com Daniela Gontijo (Louis Vuitton) e Marília Marton (Secretaria de Cultura e Economia Criativa de SP)
13.08, 15h — Bye Bye Brazil: Arte e Tecnologia do Brasil para o Mundo, com Gabriel Massan e Bernardo Martins (Figa)
14.08, 15h — HER: Realidade em Tempos de IA, com Giselle Beiguelman (FAU-USP) e Catharina Doria (The AI Survival Club)
14.08, 16h15 — Todo Mundo em Pânico: A Imagem de Moda no Mundo da IA, com Iago Cruz (Theory of Nothing), Bruna Bismara (Touch of Oddity) e Hellen Albuquerque (Getty Images)
15.08, 15h e 16h15 — A Substância: O Corpo como Arte e Terra em Transe: Novo Streetwear Brasileiro, com Aun Helden, Cyshimi, Osklen e Barra Crew

