A aclamada St. Vincente lança o autobiográico Daddy’s Home, seu sétimo álbum de estúdio – Foto: Zackery Michael/Divulgação

Demorou bastante tempo para que St. Vincent lançasse o sucessor de seu trabalho homônimo, de 2014, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Música Alternativa no ano seguinte. Mas não quer dizer que ela ficou à mercê do ócio nestes sete anos.

Além rodar o mundo fazendo shows, com uma memorável passagem – para a gente e para ela -, ao lado de sua inseparável guitarra no palco do Lollapalooza Brasil, em 2019 (com direito a concerto intimista no Cine Joia, também em São Paulo), ainda escreveu e atuou no filme “The Nowhere Inn”, ao lado da amiga Carrie Brownstein, produziu o álbum do Sleater-Kinney e fez muitas colaborações – que a gente enumera já, já. “Estive ocupada”, conta em conversa com Bazaar.

“Daddy’s Home”, seu sétimo álbum de estúdio, lançado na última sexta-feira (14.05) narra o fato de ficar sem dinheiro, trabalho ou um lugar para morar. “Pessoas com falhas, que fazem o possível para sobreviver. E eu já estive na pele de todos esses personagens.” O título zomba da sua própria vivência ao encarar com leveza a ressocialização do pai, que ficou preso por uma década, após um golpe financeiro na casa dos US$ 43 milhões.

Já faz mais de um ano que ele está em casa e chegou a hora dela quebrar o silêncio em forma de música, já que não deu um pio quando o caso eclodiu. Inclusive, ele só ganhou os tabloides na época em que Annie Clark (nome de batismo da cantora), namorava a toda poderosa Cara Delevingne. “Quis proteger a minha família e a mim mesma, preferindo não contar essa história de um jeito autobiográfico. Agora que está em forma de música, é de outras pessoas. Não é sobre mim”, analisa.

A rockstar narra sem rodeios a época em que ia visitar o pai na prisão e distribuía autógrafos na sala de visita. “É engraçado e absurdo. Quis escrever sobre essa experiência com humor e compaixão. Muito aconteceu nesses 10 anos. Era uma garota antes, mas agora eu é que sou o papai”, gargalha.

A artista acredita que a vida é longa, o mundo é complicado, mas há sempre possibilidade de redenção, reflexo do que vai semeando ao longo da sua trajetória. “Pessoas erram, todo mundo falha e a vida é assim. Queremos que as coisas sejam simples, que as narrativas caibam perfeitamente em um potinho. Mas, geralmente, não são. E está tudo bem. Aí está a natureza do ser humano.” A primeira parte do trabalho foi feita antes da quarentena e o resto veio lockdown adentro.

A aclamada St. Vincente lança o autobiográico Daddy’s Home, seu sétimo álbum de estúdio – Foto: Zackery Michael/Divulgação

É um disco “legal” para ouvir enquanto dirige. “Diria também que é para colocar na sua sala, tomando tequila, sentado no sofá, talvez, fumando maconha (o uso recreativo é permitido na Califórnia, Estados Unidos, onde ela mora) ou algo do tipo, algo que as pessoas gostem”, sugere.

Com tanto tempo dentro de casa, é difícil dizer o que essa texana de Dallas ainda gosta de fazer nas horas vagas. “Ler livros, assistir filmes e escutar podcasts.” Adora os de histórias reais de terror, citando Radio Rental, que é “muito bom”. E lista outros como American Scandal e Savage Lovecast. Na TV, assistiu recentemente “Narciso em Férias”, documentário que narra a prisão de Caetano Veloso, de quem é fã ao lado dos Gilbertos, João e Gil.

Annie é aquela amiga que todo mundo gostaria de ter, a chamada faz-tudo. Confessou, recentemente, à inglesa NME que virou uma DIY (faça-você-mesmo) de mão cheia. Depois que assiste a um vídeo no YouTube, vira expert em pintar uma parede ou dar trato no encanamento.

Lembra que falamos lá no começo sobre parcerias? É dela parte da composição de “Cruel Summer”, de Taylor Swift; também empresta a voz para “Chalk Tablet Towers”, do Gorillaz. Fez história no Grammy 2019 quando performou com Dua Lipa a faixa “Masseduction”, que levou para casa o gramofone dourado de Melhor Canção de Rock. Depois de trabalhar com David Byrne, só faltava ser chamada para trabalhar com Paul McCartney, o que aconteceu recentemente, e também deu as caras no documentário de Dave Grohl.

Aos 38 anos, e com uma agenda poderosa de trabalhos, a artista não se sente nem um pouco pressionada ao apelo do mainstream. Em estúdio, não tem fórmula mágica. “Tenho muita sorte de produzir álbuns e ainda ter pessoas querendo escutá-los, talvez mais do que quando comecei, o que é ótimo.” Segue seus próprios instintos. E, convenhamos, são pra lá de certeiros. “Tenho muito respeito por meus fãs e a forma que demonstro é tentar fazer um ótimo trabalho.”

Desviando do campo minado que são as redes sociais, onde reina a cultura do cancelamento, prefere acreditar que cada passo na carreira é um novo começo. “A música tem muito mais a me ensinar do que eu tenho a dizer ou fazer”, conclui. Em suas palavras, no fim das contas, o que importa mesmo são as pessoas com ouvidos e corações que fazem a engrenagem do rock girar.

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