Foto: Victor Affaro

A atriz Tainá Müller, que acaba de fazer 40 anos, completados no último dia 1º, está em cartaz em várias plataformas, e ela gosta muito disso. Está no teatro com a peça “Brilho Eterno”, onde contracena com Reynaldo Gianecchini e cujo trabalho é sucesso de publico; na áudio série do Spotify “Batman Despertar”, que lidera esse tipo de conteúdo; e vai estrear a segunda temporada da série “Bom Dia, Verônica”, que bombou na Netflix. Além disso, está cursando uma pós-graduação e ainda dirigiu e produziu o filme “Apolo”, que trata sobre a maternidade na comunidade LGBTQIAP+.

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Casada com o diretor Henrique Sauer e mãe de Martin, Tainá tem uma vida agitada e não para de produzir. Nascida em Porto Alegre, a gaúcha se formou em jornalismo e trabalhou como modelo antes de se jogar na vida de atriz, produtora e diretora. Sim, modelo, Tainá passou uma temporada modelando na Ásia e também em Milão, na Itália. Apesar de suas tentativas de atuar em outras áreas, sempre escutava que era atriz, e assim deu ouvidos aos comentários e apostou na atuação. Ainda bem. 

Seu primeiro trabalho foi no cinema, no filme “Cão Sem Dono”, de Beto Brant, obra cult e premiada. Em princípio ela atuaria como assistente de direção, mas acabou ficando com a protagonista Marcela, o pontapé inicial para uma carreira bem-sucedida e de muitos personagens. 

Leia seguir entrevista que Tainá concedeu à Bazaar via Zoom.

Como é sua família? Fale sobre ela.

Sou do Sul, venho de uma família de três meninas, eu sou a mais velha [as irmãs se chamam Títi e Tuti Müller], nós três moramos em São Paulo, meus pais moram no litoral gaúcho.

O que estudou?

Eu me formei em jornalismo, depois quando decidi ser atriz fiz vários cursos de interpretação, fiz parte do grupo de estudos do Tapa. Agora estou cursando pós-graduação em filosofia contemporânea na PUC do Rio.

Foto: Victor Affaro

Como começou sua carreira de atriz?

A minha história começou muito cedo, entrei na faculdade de jornalismo com 16 anos, e logo de cara eu já quis trabalhar. Sempre fui muito envolvida com audiovisual, na faculdade fui monitora dos curtas de 16 mm, aí surgiu a oportunidade de fazer um estágio na Casa de Cinema de Porto Alegre como assistente de direção. Depois fui para a MTV de Porto Alegre, sempre trabalhando com televisão. Me formei e continuei um tempo na MTV e fazia uns frilas de montagem de publicidade. Eu tinha passado por três anos muito estressantes, onde eu não tinha fim de semana nenhum, sem férias, e queria sair do meu emprego. Na sequência um amigo disse que eu tinha umas fotos bem bonitas da MTV e perguntou por que eu não mandava para uma agência de modelos. Na época eu tinha 21 anos, e pensei não ter mais idade para isso, eu tenho 1,68 cm de altura, não tenho possibilidade para isso. Mas ele disse: “Manda, vai que”. Então mandei minhas fotos que eu tinha feito de divulgação para a MTV, e de fato aconteceu uma coisa inesperada que foi um convite para ir para a Tailândia. Eu pedi demissão e fui, acabei ficando oito meses na Ásia. Aí eu voltei, fiquei uns dois meses em Porto Alegre e fui chamada para ir para Milão. Lá eu comecei a me questionar sobre o que faria da minha vida, porque eu não queria mais seguir no jornalismo, mas era o que eu tinha estudado para fazer, eu tinha muita vontade de trabalhar com arte, tinha vontade de ser artista. Eu estava trabalhando como modelo, gravando publicidade, que era uma forma de atuação porque eu estava em cena. Nesses locais onde trabalhei fora do País todo mundo me dizia que eu ele era atriz, até os fotógrafos me diziam isso. Eu fiquei com isso na cabeça. Gostava de fazer teatro, fazia na escola e tal, e resgatei essa coisa, porque isso não era uma possibilidade para mim na Porto Alegre dos anos 2000, eu precisava me sustentar. Cheguei à conclusão de que o que eu gostava mesmo era de estar em cena, de contar histórias, de uma maneira mais autoral do que trabalhar com produção, por exemplo. Resolvi vir para São Paulo para estudar teatro e fui chamada para ser assistente do filme “Cão Sem Dono”, do Beto Brant. Ao mesmo tempo, o Leo Gama, da Globo, foi fazer um teste comigo e disse a mesma coisa: “Você é atriz, vem fazer a Oficina de Atores da Globo”. Só que eu já estava comprometida com o filme, mas o Léo disse se eu queria ser atriz ou assistente de direção, ao que respondi que queria ser atriz. Então comuniquei ao pessoal do filme que iria fazer a Oficina de Atores da Globo, porque tinha mais a ver com o que eu queria fazer naquele momento. Então me disseram a frase que mudou minha vida: “E se você fizesse a Marcela?”. A Marcela era protagonista do filme. Então eu faço a Marcela e minha carreira começa e nunca mais parei. 

Quais trabalhos da carreira você destacaria?

Ah, foram alguns, acho que a Marcela é um deles, que foi um filme cult, bacana que levou vários prêmios. Depois teve a Paula, de “Insensato Coração”, que me rendeu meu primeiro contrato longo com a Globo, que eu saí há pouco tempo. Teve a Marina, de “Em Família”, em que  protagonizei com a Giovanna Antonelli o primeiro casamento homoafetivo da história da televisão brasileira; enfim, fiz várias novelas, foram muitos papéis. Depois eu decidi sair desse contrato longo com a Globo para ter escolhas artísticas mais autorais e veio a Verônica, de “Bom Dia, Verônica”, que eu também destacaria. Tenho que destacar também meu trabalho em “Tropa de Elite 2”.

Fale sobre a peça “Brilho Eterno”, como surgiu a oportunidade para o papel?

A  última vez que eu estive em cartaz no teatro foi em 2019 com “Desajustados”, que eu fazia Marilyn Monroe, que é um papel que eu considero superimportante para a minha vida, porque eu era fã da Marilyn e a oportunidade de interpretá-la foi muito legal, até porque ela nasceu no mesmo dia que eu, 1º de junho. Então veio a pandemia e eu pensava se o teatro algum dia ia voltar. Fiquei com muita vontade de fazer teatro novamente. Fui gravar a segunda temporada de “Bom Dia, Verônica”, e encontrei o Reynaldo Gianecchini, que me fez esse convite maravilhoso, que é estrelar ao lado dele em “Brilho Eterno”, peça baseada em um filme que eu adoro, “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”, e a peça tem a direção maravilhosa e supercriativa do Jorge Farjalla. Em janeiro começamos a ensaiar, e estamos em cartaz, sucesso de público, graças a Deus, estamos lotando o teatro, mais de 16 mil pessoas já assistiram “Brilho Eterno”.

Como se preparou para a personagem?

Foi toda a preparação do Jorge Farjalla, ele é um superdiretor, muito experiente, ele que faz o trabalho de corpo com os atores. A gente teve uma preparação vocal com o Dan Maia, que também fez nossa trilha sonora, que é elogiadíssima. Eu fui convidada para colaborar com o texto, então entrei na peça em um processo de pensar junto, eles queriam essa visão mais contemporânea do feminino para a personagem, a Celine. Minha personagem é quase uma homenagem, ela não tem a ver com a personagem do filme.

Que tal experimentar o sucesso da série “Bom Dia, Verônica”? Você esperava que teria tanta receptividade positiva?

Foi positivamente surpreendente. Eu esperava que a séria ia gerar reações, porque desde que peguei o texto na mão eu sabia que o que eu tinha era muito potente, com uma personagem e uma temática muito pertinente, e a direção do Zé Henrique Fonseca, que eu já admirava de outros trabalhos. Mas foi melhor do que eu imaginava, ela realmente foi uma série que causou muitos debates e trouxe à tona o tema da violência doméstica em um período superdelicado que foi justamente o da pandemia, onde cresceu esse tipo de agressão. Então ela [a série] veio na hora certa. Eu fico muito feliz em ter levantado esse debate, porque acho que o principal trabalho como atriz é justamente provocar esses pensamentos, debates, reflexões que realmente atue na sociedade, acho que e isso o que dá sentido para o meu trabalho.

O que pode adiantar da segunda temporada?

O Gianechini será o vilão, teremos Clara Castanho no elenco, Camila Márdila, pessoas maravilhosa, mas não trabalhamos com spoiler (risos).

Quando deve estrear?

Neste segundo semestre.

Foto: Victor Affaro

E a audio série “Batman Despertar”, fale sobre ela?

Pô, esse está sendo um trabalho muito legal, está em primeiro lugar no Spotify, no mundo e Brasil, já há algum tempo. É uma série original da DC Comics e do Spotify, eles fizeram um roteiro original que foi lançado simultaneamente em nove países, e a nós coube a versão brasileira. O Daniel Resende me chamou para fazer a Barbara Gordon, a policial amiga do Batman que vem a ser depois a Batgirl. Foi um superdesafio, porque faço cenas de ação só com a voz, foi a primeira vez que eu tive que interpretar sem ser uma dublagem, é totalmente diferente, vc tirar o roteiro do zero e passar todas as emoções com a voz. Eu adorei, faria mais, disse ao Daniel que ele descobriu algo que eu nem sabia que gostava tanto.

Você pretende fazer mais se tiver oportunidade?

Com certeza, eu adoro trabalhar com a voz. O engraçado é que meu primeiro papel na Globo foi uma atriz de radionovela, em “Eterna Magia”. Lá eu já brincava muito com a voz. Então agora foi muito legal viver isso de verdade, fazendo uma audio série. É mais uma plataforma para exercitarmos nosso talento. 

Quais são os próximo projetos?

Tem o lançamento da segunda temporada de “Verônica”, vamos ver se fazemos mais temporadas de “Brilho Eterno”, eu estou dirigindo um filme, um documentário chamado Apolo”, com uma amiga minha, a Fabiana Winits, sou produtora do filme também. É a história de uma casal trans que tem um bebê. Ela, mulher trans, ele, homem trans, e ele engravidou dela. Nós documentamos essa gravidez até o parto, e o filme se chama “Apolo” que é o nome do bebê. É um filme que eu estou botando muita fé que as pessoas gostem e se sintam tocadas. É um projeto muito delicado e pertinente trazer à tona a questão da comunidade LGBTQIAP+, desse pertencimento, desse direito de existir e de ter um tratamento igual ao das outras pessoas.  

Como lida com as redes sociais?

 Eu tento muito o caminho do meio, não sou uma instagramer, já fiz lives, sobretudo na época da pandemia, tratando de temas que eu achava banana, sobre sustentabilidade, novas formas de viver, que foi até objeto da minha pós-graduação, mas eu não sou uma superprodutora de conteúdo para o Instagram, eu uso como ferramenta de comunicação com o público, gosto também de estar por dentro do pensamento da turma, o que está se falando, uso como material de trabalho para mim, pois precisamos estar conectados ao nosso tempo, e o nosso tempo são as redes sociais, mas eu não vivo para a rede social. Eu tenho um filho pequeno, tenho outras demandas, não sou do tipo que sai para jantar e de repente puxa o celular e está gravando tudo, eu gosto de manter também uma certa privacidade. 

Como cuida da beleza? E do corpo, gosta de se exercitar?

Gosto quando tenho tempo (risos). Atualmente eu estou tão atolada de projetos, de trabalho, que ando até meio descuidada. No teatro são quatro espetáculos por fim de semana, então para mim já é um exercício. Estou em um momento meio atribulado, mas quando estou mais tranquila, gosto, sim, de cuidar da pele, vou à dermatologista, mas sem neura, porque se você entrar em todas essas cobranças do mundo, de ficar linda o tempo todo… Eu não sou muito da pose, eu sou o que sou, e é isso. 

Quais são seus hobbies?

Eu gosto muito de ver filmes, séries, quando eu coloco o meu filho para dormir, às vezes ver uma besteira na televisão para esvaziar a cabeça. Eu gosto muito de documentário, e leitura. Eu tenho que ler muito por conta da minha pós-graduação, sempre que tenho um tempo livre, entre uma voo e outro, eu estou sempre lendo ensaios para fazer os meu trabalhos. 

Foto: Victor Affaro

Gosta de cozinhar?

Olha, eu gosto, mas eventualmente. Eu não sou daquele tipo de pessoa que vai todos os dias para a cozinha, não tenho muita paciência, e cozinhar demanda paciência. Quem me conhece sabe que não sou muito paciente, eu sou agitada. Quando eu tenho um fim de semana livre eu até gosto de cozinhar, mas uma vez a cada ano bissexto.