Foto: Caroline Lima/Divulgação

“Cure-se antes de tentar cuidar do mundo”, seria o conselho de Tainá Muller para sua personagem, a escrivã da Polícia Civil metida a investigadora no thriller brasileiro “Bom Dia, Verônica”, que chega à Netflix em outubro. Com oito episódios, a primeira temporada traz à tona feridas mal curadas da protagonista, que presencia um suicídio na delegacia em que trabalha.

A série iça temas que vão de feminicídio à xenofobia, passando por masoquismo, corrupção e subserviência. Casada com Paulo (César Mello), e com dois filhos, a relação da protagonista com a família é confrontada quando a sede por justiça vira ameaça. “Infelizmente, a realidade de violência contra a mulher no Brasil é cruel. Se você vir os dados, é apavorante”, conta em entrevista à Bazaar.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de feminicídio avançaram 22% no País, entre março e abril (meses de início da pandemia), comparado com o mesmo bimestre de 2019.

Para compor a personagem, Tainá fez laboratório na delegacia de homicídios do Rio de Janeiro. “Foquei meu estudo no feminicídio e é assustador. A realidade brasileira é um filme de terror nesse sentido”, lamenta. O mais interessante de acompanhar essa rotina foi tentar responder à pergunta: por que uma pessoa decide ser policial sabendo a violência que vai encarar nas cidades brasileiras? “Tem uma coisa de vocação que senti. E a Verônica tem muito disso.”

Discípula de Agatha Christie desde a adolescência, Tainá devorou em três dias a obra que deu origem ao seriado, de Ilana Casoy e Raphael Montes. No livro, o que mais chamou sua atenção foi o fato de que Verônica não é uma heroína clássica, mas amoral, falível e totalmente humana. “Tive que aprender a atirar, lutar. Coisas que jamais pensei na minha vida em fazer. Até porque, nisso, nós atrizes não somos muito exigidas.”

Tainá também comemora Verônica ser dona do seu destino e, apesar de habitar o universo masculino, não há fetiche. “Quando comecei na televisão, era a época dos homens difíceis nas séries e novelas. Complexos, com suas questões envolvendo uma mulher. Muito legal ver que há um protagonismo hoje em dia, em que a personagem é sujeito e não objeto.”

A trama, que se passa em São Paulo, foi gravada no ano passado (entre agosto e novembro) e conta com Adriano Garib, Antônio Grassi, Camila Morgado, Eduardo Moscovis, Elisa Volpatto e Sílvio Guindane no elenco.

A atriz na pele da personagem Veronica – Foto: Divulgação/Netflix

Longe dos folhetins desde “O Outro Lado do Paraíso” (2017), exibido na Globo, a vontade de construir uma obra diante do público não arrefeceu. “Fiz umas oito ou nove novelas em um curto espaço de tempo. Ainda tive um filho no meio (Martin, 5 anos, fruto de seu relacionamento com Henrique Sauer)”, lembra. “Confesso que começou a me dar vontade de experimentar outros formatos. Sou fã de série, óbvio que deu vontade de fazer. Surgindo uma oportunidade, um personagem legal em uma novela, vou adorar fazer também.”

Aos 38 anos, Tainá ainda quer cruzar outra barreira na ficção, ao interpretar um personagem real. “Tenho um projeto baseado na biografia da Hilda Hilst, que é meu sonho, mas que está parado, como tudo no cinema”, adianta. Esse desejo vem muito inspirado por obras que tem assistido, como a série “The Great”, sobre Catarina, a Grande, e muitos documentários.

Em seu rol de mulheres inspiradoras estão aquelas que não se deixaram interferir por pragmatismos machistas, a exemplo de Auritha Tabajara, Bertha Luz, Djamila Ribeiro, Elza Soares, Nise da Silveira, Pagu e Zezé Motta.

Nada de pause

Na semana em que foi decretada a quarentena, Tainá estava pronta para iniciar as gravações da série “Mal Secreto” (Globoplay), que foi adiada para 2021. “Conversas de um Novo Mundo”, sua série de lives, vai ser rebatizada de “Ideias” para o YouTube, em um programete dirigido pelo amigo Mauricio Arruda.

Durante o período de reclusão, ainda gravou o curta “Amores Pandêmicos”, dirigido por Fabiana Winits e com roteiro de Renan Flumian. “Bem caseiro, eu com meu celular, contracenando com o Milhem Cortaz remotamente. Curiosa para ver o resultado.”

Na trama, um casal que se separou em meio ao lockdown devaneia sobre a possibilidade reconciliação, pois, no fundo, ainda se gosta. No ano em que completa 20 anos diante do público (como modelo, apresentadora e atriz), essa jornalista de formação nos presenteia com personagens lúdicos na dramaturgia, mas que escancaram a realidade. De brinde, gatilhos para pura reflexão.