A obra “Contra Ataque” (2019), em que Adrianna Eu usa tesoura antiga e linha de costura vermelha – Foto: Divulgação

No meio de 2019, o MASP, em São Paulo, inaugurou uma mostra que recortava a produção têxtil das Américas Pré-Colombianas, com objetos que datavam de 800 a.C a 1532 d.C. Entre as belíssimas peças e discussões promovidas na exposição, ficava claro que o trabalho têxtil na América Latina faz parte de nossa raiz histórica e nos remonta às culturas originárias silenciadas pelas colonizações.

Ao longo dos séculos, estes objetos – ainda com aspectos mais utilitários ou decorativos – saíram do espaço relegado às mulheres e ao místico e ganharam caminhos nas mãos de artistas que entenderam o que o tecido nos conta sobre afetos, memórias e histórias. Em tempos de pandemia e resgate de nossas origens, trabalhos em tecido, como as tapeçarias, estão ganhando cada vez mais relevância, seja pelo aspecto manual, seja por obras, objetos e roupas que procuram retomar nossa ligação com produções antepassadas.

“A ideia do artesanal, do tempo, do humano, do saber, do transmitir vem crescendo fortemente. Esta carga afetiva é valorizada e priorizada no Brasil de forma recente”, conta a especialista em tendências Iza Dezon. “O têxtil sempre esteve presente na história da cultura. Podemos pensar em um auge dele no modernismo brasileiro, porque é quando surge uma noção de curadoria, que vai nomear as coisas e dizer que, a partir dali, isso é arte”, diz a curadora Carollina Lauriano.

Até o século 20, arte erudita e artesanal ainda eram divididas em um muro alto demais para ser ultrapassado. Pelo contemporâneo, estas barreiras se dissolveram. No Brasil, uma das percussoras da tapeçaria modernista foi Regina Graz (algumas de suas peças estão em exposição no MAM São Paulo), que, entre 1920 e 1930, já havia criado motivos abstratos inspirados pela Art Déco. A partir de 1950, vieram nomes como Genaro de Carvalho, Norberto Nicola, Jacques Douchez, Roberto Burle Marx, entre outros. Pelos anos 1970, artistas como Eva Soban, referência da tapeçaria da época, retiraram o tecer da parede (ou do chão) para criar formas que nos remetem a pinturas e esculturas.

“O Que Me Consome”, da série de tapeçaria em lã, de Jessica Costa – Foto: Divulgação

“Artistas do modernismo partiram de um processo de transposição de uma linguagem a outra, como da pintura para a tapeçaria, terceirizando processos”, conta Jessica Costa. Ela se considera uma artista-artesã. “O fazer manual é parte vital na minha produção”, diz. Jessica é uma das artistas que trabalham o têxtil pelo viés da contemporaneidade.

Máquina de costura antiga e seis milhões de metros de linha da obra “A Costura do Erro” (2019), de Adrianna Eu – Foto: Divulgação

Entrelaçar fios parece também nos remeter, de forma geral, a histórias pessoais ou coletivas. Muitos artistas contemporâneos olham o têxtil como espaço de memórias. “A costura é uma poética que utilizo, algo que se cria e devolve ao mundo. Além disso, é uma marca em minha história, como lugar de afeto e aproximação com minha avó”, reflete a artista Adrianna Eu.

O painel em tecidos sobre madeira Soft Paiting: Ikat (2013), de Renato Dib – Foto: Divulgação

Há vinte anos trabalhando e lecionando sobre arte têxtil, Renato Dib olha para estes processos de forma similar. “Todo material que utilizo em minhas obras já ‘carrega’ uma história”, comenta. Dib trabalha com costuras a partir de uma ideia de “colagem” e a expansão da prática da pintura, além de objetos e esculturas.

A curadora Carollina Lauriano aponta o resgate de uma história marcada por apagamentos e procedimentos menos automatizados. Ao citar nomes como os artistas Randolpho Lamonier e Sol Casal, ela atualiza uma discussão social sobre uma técnica não tida, por muitos anos, como arte propriamente dita. Para Carollina, existe, além do teor afetivo nos trabalhos, um caráter político. “Quanto mais avançamos ao desconhecido, no sentido sociopolítico e tecnológico, tendemos a resgatar tradições”, completa.

Artistas

Jessica Costa

A artista Jessica Costa – Foto: Divulgação

“Tecer, para mim, é um símbolo de comunidade e resiliência. No ato de tecer e desmanchar, você descobre um grande paralelo com a vida. É justamente na tentativa de acertar que muitas vezes você tem que retroceder, assumindo o erro como parte da travessia”

Renato Dib

O artista plástico Renato Dib – Foto: Divulgação

“Utilizo de muitos materiais que são pedaços de crochê, tricô, macramê, nós e outras coisas. A ideia do tecer entra como imagem, ou símbolo. O símbolo da criação da vida. Existe o mito das tecelãs, a simbologia das teias de aranha, que tiram o fio de seu corpo e tecem a própria casa. Tramas e os entrelaçamentos estão muito presentes no meu trabalho.”

Adrianna Eu

A artista plástica Adrianna Eu – Foto: Divulgação

“Se for resumir o que lido em minha obra, diria que trabalho as questões do ‘eu’ e suas relações afetivas, com o outro e consigo mesmo. A eterna busca de quem se é. Minha investigação vai para uma linha psicanalítica, flerto com esse campo e com a filosofia.”