Autorretrato da artista - Foto: Divulgação/Masp
Autorretrato da artista – Foto: Divulgação/Masp

Por Julia Flamingo

Uma boa curadoria de uma exposição histórica reflete muito mais do que selecionar obras e enfrentar o árduo trabalho de reunir peças emblemáticas em um só lugar. Ela consiste em adequar a produção criada num contexto diferente ao cenário onde é reapresentada e propor novas abordagens e releituras.

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Produzir hoje uma exposição de Tarsila do Amaral – quando o debate sobre empoderamento feminino e preconceito racial nunca teve tanta repercussão na história do País – significa considerar tudo isso e mais um pouco. Na mostra “Tarsila Popular”, o Masp propõe não só nos dar mais uma oportunidade para admirarmos as belas telas da pintora brasileira mais aclamada do século 20, mas também (e principalmente!) contribuir para o pensamento crítico acerca do modernismo brasileiro e das temáticas sociais e políticas que podem ser abordadas hoje a partir das suas figuras e paletas de cores inconfundíveis.

"Morro da Favela" - Foto: Divulgação/Masp
“Morro da Favela” – Foto: Divulgação/Masp

“Durante o modernismo, a arte estava ligada ao projeto de construir a identidade popular do Brasil”, conta Fernando Oliva, curador da exposição, que também organizou a mostra de mesmo viés “Portinari Popular”, apresentada no Masp em 2016.

"Abaporu" - Foto: Divulgação/Masp
“Abaporu” – Foto: Divulgação/Masp

Nas telas icônicas de Tarsila do Amaral, que viveu entre 1886 e 1973, estão presentes cenas de Carnaval, rituais religiosos e lendas populares e indígenas – caso de “Abaporu” e “Batizado de Macunaíma” -, que mostram o interesse da pintora pela cultura, crenças e costumes populares.

Nascida dois anos antes da abolição da escravatura em uma fazenda no interior paulista, ela cresceu em meio à plantação de café da família onde trabalhavam homens e mulheres negras que acabavam de se tornar livres. “Queremos focar na perspectiva das questões sociais, políticas, raciais e de classe que estavam em tensão na época e que podemos abordar a partir das pinturas de Tarsila”, acrescenta Oliva, em entrevista à Bazaar.

Ele assina a curadoria ao lado de Adriano Pedrosa, diretor artístico do Masp. “Tarsila Popular” reúne 57 pinturas e 41 desenhos emprestados de coleções particulares e instituições de diversos países.

"Cuca" - Foto: Divulgação/Masp
“Cuca” – Foto: Divulgação/Masp

A “Cuca”, por exemplo, foi trazida do museu de Granoble, na França, país onde Tarsila estudou e conviveu com vários mestres das vanguardas europeias, como André Lhote e Fernand Léger. Foi, porém, depois de voltar para o Brasil, em 1922, que ela incorporou as ideias vanguardistas à sua maneira “antropofágica” de representar o País.

"Pescador" - Foto: Divulgação/Masp
“Pescador” – Foto: Divulgação/Masp

Outro destaque é a tela “O Pescador”, que foi emprestada pelo Hermitage, de São Petersburgo, e será exposta pela primeira vez no País. A tela foi vendida ao museu russo em 1931 e permitiu à artista e ao então marido, o psiquiatra Osório César, viajar por diversas cidades da Europa oriental.

"Operários" - Foto: Divulgação/Masp
“Operários” – Foto: Divulgação/Masp

De volta ao Brasil, ela foi condenada por “atividades subversivas” por ter visitado países comunistas, o que acarretou sua prisão. Foi nesse período que se engajou nas temáticas sociais, que podem ser vistas em obras como “Segunda Classe” e “Operários”, também presentes na exposição, em cartaz até julho.

No primeiro semestre de 2018, o gigante nova-iorquino MoMA realizou a grande retrospectiva “Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil” e, em fevereiro, adquiriu a obra “A Lua”, o primeiro trabalho do acervo da instituição assinado por um modernista brasileiro. “O MoMA apresentou a obra da Tarsila ao público norte-americano e global. Nós queremos propor questionamentos aos nossos visitantes: por isso é que, desta vez, o catálogo é tão importante quanto a própria montagem”, afirma Oliva.

Pesquisadoras de assuntos ligados à representatividade de mulheres e minorias, como as brasileiras Renata Bittencourt e Amanda Carneiro, e as americanas Irene Small e Michele Greet, foram convidadas para se debruçarem sobre as obras de Tarsila e contribuir para a publicação com textos analíticos, apresentados também nas paredes do espaço expositivo.

A mostra integra a programação História das Mulheres, Histórias Feministas, que se desdobra ao longo de todo o ano no museu, com individuais de Djanira da Motta e Silva (em cartaz até maio), Lina Bo Bardi, Anna Bella Geiger, Leonor Antunes e a venezuelana Gego.

Masp: avenida Paulista, 1578, Bela Vista, São Paulo
Em cartaz até 28 de julho

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