Beatriz Milhazes/Foto:Vicente de Paulo
Beatriz Milhazes em seu ateliê, no Rio de Janeiro; artista completa 40 anos de carreira com retrospectiva (Foto: Vicente de Paulo/Divulgação)

Beatriz Milhazes é uma das mais bem-sucedidas artistas do Brasil, que acaba de estrear a retrospectiva Avenida Paulista, em São Paulo, dividida em duas partes: no Masp e no Itaú Cultural. A exibição é um resumo dos 40 anos de carreira (ela começou em 1980 e realizou sua primeira mostra em 1983), entre pinturas, gravuras, colagens, esculturas e até sua parceria com a irmã Márcia Milhazes, voltada para a cenografia – expostas pela primeira vez no Brasil. Como houve um recuo nas fases de retomada na capital, as performances de dança junto com a mostra tiveram de ser adiadas, o que deve acontecer em 2021.

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“Tenho tendência a virar acumuladora”, brinca a artista, cujos primeiros trabalhos eram cartões de aniversário para amigos, feitos a partir de colagens – que compõem a mostra. “Propiciou descobertas, de coisas do meu processo e abertura do meu arquivo”, conta. A exposição tem a visão de dois curadores centrais, Adriano Pedrosa e Amanda Carneiro, no Masp, e Ivo Mesquita, no Itaú. “A quarentena propiciou muitas conversas e trocas, um tipo de detalhamento e mostrar essa parte não vista”, diz a artista, que em 2015 expôs no Pérez Art Museum de Miami, com foco nas pinturas. Diferentemente, esse novo resumo se propõe a linkar as obras com a intimidade do processo artístico do ateliê.

As cores de Beatriz são um embate às telas em branco, identidade essa que foi criando ao longo dos anos. Além das pinturas, a artista não se aquietou e foi abrindo o leque para outras plataformas e materiais, coletados ao redor do mundo como embalagens de chocolate e papéis de balas e sacolas plásticas. Em viagens para o exterior, jornada que começou nos anos 1990, gosta de levar consigo um pouco do Rio de Janeiro. Em lugares como Nova York, Londres ou Paris, reproduz uma rotina como se estivesse em sua cidade natal. Faz caminhadas, entre jardins e a natureza, e gosta de fazer as três importantes refeições do dia religiosamente.

Obra “Avenida Paulista”(2020), de Beatriz Milhazes, doada ao Masp – Foto: Vicente de Melo

Quando a pandemia se instalou no mundo, em março, estava a caminho da Europa. Levou estoque de álcool em gel e máscaras (esgotados em muitos cantos) – protocolos que já havia aprendido em suas passagens pela Ásia. Estava desenvolvendo uma obra de tapeçaria na França e teria compromissos na editora Taschen, em Berlim, sobre um novo livro que será lançado em 2021. Quando voltou para sua casa no Leblon, dispensou os funcionários que trabalham em seu ateliê, no Horto, e não voltou mais lá. “Fiquei sozinha em casa, resolvi assumir o isolamento. Fiquei três meses sem sair”, diz ela, que não foi nem visitar os pais e se rendeu até mesmo aos aplicativos de compra online em supermercados.

A faxina no apartamento fez parte da sua realidade. “Adoro organização”, ri, dizendo que esse break no trabalho foi mais do que uma motivação. Uma necessidade! Como tem uma alimentação regrada e lê muito sobre nutrição, se jogou na cozinha com legumes assados como carro-chefe. O saldo positivo dessa incursão? “Aprendi a fazer feijão”, comemora. No dia a dia de enclausuramento, disciplinada, fez exercícios com ajuda de um professor online, já que montou um circuito dentro do apartamento para poder caminhar de 3 a 4 km diariamente. “A caminhada é quase uma medicação. Me acompanha onde for.”

Aproveitou a quarentena para montar um ateliê em casa, onde deu vida a uma série de pequenos desenhos, que estão sendo expostos pela primeira vez no Masp – inspirada pelos símbolos de paz e amor. Além disso, aproveitou a parada para reorganizar outros projetos, já que fora “obrigada” a ficar concentrada. No entanto, seus projetos não pararam. Aliás, o processo no ateliê é o que a motiva a ser feliz. “Quanto mais tempo, maior a qualidade. Cada período suga uma energia muito grande”, diz a artista, que mesmo depois de ter alcançado o sucesso, ainda se interessa por testar técnicas e o demorado de compor suas obras de grandes proporções (1,80 x 1,80m, em média).

Apesar de estranho, 2020 foi um ano produtivo para a artista, que lançou em setembro último sua versão da bolsa Artycapucines, da Louis Vuitton. Como citamos, vai atualizar o livro Tropical Abstraction: The colors and concepts of Beatriz Milhazes, que antes estava disponível apenas pelo selo Collector’s Book, e chegará ao grande público em 2021 pela Taschen. Até 23 de março de 2021, a expo Beatriz Milhazes: Avenida Paulista segue em cartaz.

Bolsa Artycapucines PM Beatriz Milhazes, lançada em setembro pela Louis Vuitton (Foto: Divulgação)

SERVIÇO
Exposição Beatriz Milhazes: Avenida Paulista

Até 23 de março de 2021
Museu de Arte de São Paulo (Masp) e Itaú Cultural
:: masp.org.br  | :: itaucultural.org.br