Tilda Swinton – Foto: Getty Images

Por Duda Leite

Tilda Swinton não tem medo de nada. Ela não tem medo de parecer bem mais velha (como em “O Grande Hotel Budapeste”), de encarnar uma bruxa decrépita (em “Suspiria” de Lucas Guadagino), de ser uma alcóolatra (em “Julia” de Erick Zonca), e nem mesmo de ser uma vampira chic (em “Amantes Eternos” de seu amigo Jim Jarmusch).

E Tilda não para. Em 2021, a camaleônica atriz britânica de 61 anos estava com três filmes no Festival de Cannes: “A Crônica Francesa” de Wes Anderson, “The Souvenir: Part II” de Joanna Hogg (ainda inédito no Brasil), e o misterioso “Memoria”, do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul – que chega à plataforma de streaming MUBI em agosto. Neste mês, Tilda volta à Cannes com o filme “Three Thousand Years Of Longing”, de George Miller.

Katherine Mathilda Swinton, ou simplesmente Tilda, sempre gostou de quebrar padrões. Sua estreia no cinema aconteceu em 1986, com “Caravaggio”, do cineasta queer Derek Jarman, de quem se tornou musa. Explorou sua androginia e sua semelhança com David Bowie em editorias de moda, e contracenou com o próprio no clipe de “The Stars (Are Out Tonight)” da diretora Floria Sigismondi.

No mundo fashion, Tilda serviu de inspiração para o kaiser Karl Lagerfeld, e colabora regularmente com o estilista Haider Ackerman e a dupla avant-garde holandesa Viktor & Rolf.

Cena do filme “Memoria” – Foto: Divulgação

Entre sua imensa coleção de prêmios figura um Oscar como melhor atriz coadjuvante por sua atuação em “Michael Clayton” em 2007, ao lado de George Clooney. Sempre de olhos abertos para o cinema de arte, em 2020, Tilda estrelou o primeiro filme falado em inglês do espanhol Pedro Almódovar, o curta-metragem “A Voz Humana”, baseado no monólogo de Jean Cocteau.

Em “Memoria”, seu novo trabalho, Tilda faz uma de suas atuações mais experimentais. Ela se movimenta pelas ruas de Bogotá como uma alienígena lânguida em câmera lenta. É o primeiro filme falado em inglês e espanhol do mestre tailandês. “Memoria” é também o primeiro filme de Weerasethakul filmado na Colômbia. O projeto originou-se em 2017, quando o cineasta recebeu uma homenagem no Festival de Cartagena.

Tilda vive Jessica Holland, uma botânica que sofre de insônia e está perdendo a memória. Jessica é acordada abruptamente por um som ensurdecedor. A partir daí, Jessica/Tilda parte em busca do significado desse estranho som. Segundo a descrição de Jessica, o “som é como uma enorme bola de concreto que cai numa superfície de metal, rodeada por água do mar”. O filme torna-se então uma espécie de ficção-científica metafísica, povoada por alienígenas e espíritos da selva. Os espíritos são uma constante do cinema de Apichatpong e já estavam presentes no seu filme mais emblemático, “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, em 2010.

Cena do filme “Memoria” – Foto: Divulgação

Segundo declaração de Tilda durante o último Festival de Cinema de Nova York, “era importante encontrar um lugar onde tanto eu como Joe não pertencêssemos. Onde ambos estivéssemos deslocados, porém em perfeita sintonia. Jessica está totalmente desconectada do ambiente urbano, mas em perfeita conexão com a natureza.”

Tilda compartilha com a personagem esse amor pela natureza. Cresceu no campo na Escócia e segundo ela mesma, “é um animal rural”. Quando não está trabalhando em um set de filmagem, passa os dias em meio ao verde em sua casa nas Highlands. “As cidades podem ser extremamente estimulantes, mas, após poucos dias, preciso voltar para a natureza. É onde me sinto melhor, me sinto pequena. Viver no campo é a minha droga”, completa.

Em um dos diálogos mais transcendentais de “Memoria”, Jessica se consulta com uma médica para tentar desvendar a causa de sua insônia. A doutora lhe oferece um folheto sobre Jesus e filosofa sobre Salvador Dalí: ele entende a beleza do mundo. Em outro momento, Jessica conhece um pescador (de uma outra espécie, segundo ele mesmo diz) que não vê TV porque seu cérebro é como um hard drive: se lembra de tudo. Segundo ele, “já existem histórias demais”. Ainda bem que nem Tilda nem Joe concordam com isso.

Entre seus próximos projetos estão “The Eternal Daughter”, terceira colaboração de Tilda com sua colega de universidade Joanna Hogg, com quem fez “The Souvenir” partes I e II, ao lado da filha Honor Swinton Byrne. É uma história de fantasmas filmada secretamente na pandemia, no País de Gales. Como lembra o filósofo esloveno Slavoj Zizeck em “O Guia Pervertido do Cinema”: “nossos desejos são artificiais. Precisamos do cinema para entendê-los”. Viva o cinema e viva Tilda!