Foto: Divulgação
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Por Mario Mendes

Na década de 80 do século passado, quando o termo “indústria cultural” fazia sentido, o papel do crítico era de suma importância. Para ser ouvido, temido, odiado ou achincalhado. No “Caderno B” do “Jornal do Brasil”, reinava soberana na crítica musical Maria Helena Dutra (1937-2008), senhora absoluta do latifúndio da MPB.

Artistas lançavam discos, estreavam show, saíam em turnê, todo mundo queria saber a opinião dela. Maria Helena não se fazia de rogada: o show de Caetano era bom, mas com figurinos feios e pobres, a mais recente apresentação de Milton Nascimento parecia ter sido feita em cima da hora de tão mal-ajambrada, Simone era desafinada etc.

Caetano espumou – por ele e pelo amigo Bituca – enquanto Simone disparou que a jornalista não estaria exatamente interessada em seus dotes vocais. Como sempre gostei de uma boa polêmica, peguei uma ponte aérea e voei para o Rio ao encontro da fera, que morava em frente à clínica do dr. Ivo Pitanguy, em Botafogo.

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A temida crítica se revelou uma simpatia, reviu posições e opiniões sobre então jovens talentos da música (Fafá, Joanna, Marina…), confirmou veredictos desfavoráveis sobre alguns medalhões (Caetano, Gil, Bethânia…), disse que gostava mesmo de ouvir banda de música na praça e declarou que escrevia para os leitores, não para os artistas.

Aí, eu quis saber: “Você gosta da Rita Lee?”. Maria Helena abriu um largo sorriso e mandou: “Rita Lee é o equivalente atual às marchinhas carnavalescas de Lamartine Babo. Com inteligência e irreverência, ela faz a crônica do Brasil que estamos vivendo”.

Eram os últimos dias da ditadura militar e Rita, no rádio, desancava a MPB em “Arrombou a Festa” – em parceria com Paulo Coelho, antes de se tornar mago – e via Elis Regina avisar o marciano que por aqui estava todo mundo “down no high society”. Foi a primeira vez que ouvi alguém colocando miss Lee em seu devido lugar como figura pop de primeira grandeza, longe do estereótipo que ela mesma definiu tão bem: “Roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”.

Rewind 1968: mesmo sem ter a mínima noção de que aquele era o ano da juventude no poder, minha irmã e eu – 11 e 9 anos, respectivamente – saímos de uma visita à loja de discos com o LP Os Mutantes, que ouvimos até gastar a agulha da vitrola. Panis et Circensis, A Minha Menina, Adeus Maria Fulô e outras pérolas cantadas e tocadas pelos irmãos Arnaldo e Sergio Baptista e por Rita Lee no álbum hoje considerado seminal e divisor de águas em nossa música.

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Foi a partir de então que Rita Lee – Rita Lee Jones, paulistana, filha de pai americano e mãe brasileira descendente de italianos – entrou no campo de visão do showbiz para não sair mais. Sim, os irmãos Baptistas são excelentes músicos, mas era o ar moleque e a alegria contagiante dela que enchia o palco quando os Mutantes entravam em cena. Rita vestida de hippie, com um coração desenhado no rosto, de noiva grávida (um escândalo naquele Brasil carola e pudico) e entoando o melhor sotaque caipira ao cantar 2001, o primeiro encontro da moda de viola com a guitarra elétrica. Enfim, Rita era um arraso.

Por essa época ela se casou com um dos companheiros de grupo, Arnaldo, mas a união não durou muito, assim como o tempo de Rita na banda. Partiu para uma carreira solo que estreou com o álbum “Build Up”, no qual aparecia como uma cantora pop comportada, vestida e maquiada no rigor da moda, no estilo da francesa Françoise Hardy – o maior sucesso do disco foi justamente “José”, versão de “Joseph”, do igualmente francês George Moustaki.

Mas foi a bordo do Tutti Frutti, banda que montou com Lucia Turnbull, Luis Sergio Carlini e Lee Marcucci, que seu espírito roqueiro finalmente vingou em uma série de álbuns recheados de clássicos.

Sem levantar bandeiras ou se engajar no debate político da época, Rita era mais subversiva e vanguarda do que seus pares. Cantou o feminismo, o conflito de gerações, os temores da vida adulta, as drogas, o sexo e o rock’n’roll, emendando um sucesso atrás do outro.

Claro que pagou um preço por isso. Chegou a ser hostilizada por uma plateia universitária em uma apresentação com Gilberto Gil – por não ser considerada politizada o suficiente – e, num registro mais barra pesada, foi detida por posse e consumo de maconha, permanecendo um ano em prisão domiciliar quando já estava em seu segundo casamento, com o músico Roberto de Carvalho, e grávida de seu primeiro filho, Beto.

Os anos 80 foram pródigos para a cantora, que atingiu o ápice criativo e de projeção ao estabelecer parceria afinadíssima com o marido, que resultou em hits como Mania de Você, Lança Perfume e Baila Comigo. Mesmo com uma parte do seu antigo público alegando que ela havia se tornado pop demais, suas apresentações ao vivo nunca perderam a eletricidade e a trepidação de uma boa e velha banda de garagem. Rita continuava fiel às suas raízes.

Com carreira estabilizada e vida familiar nos trilhos – ela teve mais dois filhos, João e Antonio -, Rita fez um pouquinho de tudo. Teve programa de rádio, de televisão, fez pontas em novelas e no cinema e escreveu quatro livros infantis. Aliás, ela acaba de lançar mais um livro, “Storynhas”, em parceria com a cartunista Laerte.

Longe dos palcos, mas não aposentada da música, como ela mesma diz, Rita continua mandando seu recado – via pensamentos e loucurinhas hilários – vez ou outra pelo Instagram. E mesmo sendo um lugar-comum, eu diria que trata-se de uma força da natureza. Ou, na definição da própria para si e para as outras:” Toda mulher quer ser amada/Toda mulher quer ser feliz/Toda mulher se faz de coitada/Toda mulher é meio Leila Diniz”.