Com os cantores Elis Regina e Jair Rodrigues. Foto: Divulgação
Com os cantores Elis Regina e Jair Rodrigues. Foto: Divulgação

por Gisele Vitória

” Tem comida ainda?” No fim da sua festa de 80 anos, em 2009, a pergunta de Hebe Camargo fazia sentido. Passava das 5h da manhã. Roberto Carlos e Julio Iglesias tinham partido horas antes. Lily Marinho acabara de deixar a mansão da anfitriã, Lucilia Diniz, após cantar Parabéns pra Você em frente ao bolo de 80 velinhas.A festa black tie para 800 convidados foi no Dia Internacional da Mulher, 8 de março, data do nascimento da homenageada. Hebe dançou, cantou, subiu ao palco e distribuiu selinhos. Só na madrugada relaxou e sentiu fome. Para acompanhar a taça de vinho, chegaram quatro suzukuris de salmão.

2006 com Dionne Warwick. Foto: Divulgação
2006 com Dionne Warwick. Foto: Divulgação

Hebe Camargo propôs um brinde à vida, como gostava: “Esta festa vai passar na minha mente como um filminho, com todas as alegrias que vivi hoje.Tenho muita sorte”. Quase oito anos depois daquela festa, a biografia Hebe, do jornalista Artur Xexéo (Best Seller, selo da Record), chega às livrarias. É o primeiro dos projetos da empresa Hebe Forever, criada pelo sobrinho dela, Claudio Pessutti, que também foi seu empresário e anjo da guarda, para manter viva a memória da apresentadora. Na sequência virão um filme produzido por Carolina Kotscho (roteirista de Dois Filhos de Francisco), um documentário, uma minissérie, um musical e uma exposição. Claudio Pessutti conta que leu os originais de Artur Xexéo na velocidade da luz. E que luz.“A história de Hebe e da televisão no Brasil se misturam. Ela foi convidada por Assis Chateaubriand para fazer parte do grupo que foi até o Porto de Santos, em 1950, no dia em que chegaram os primeiros equipamentos da TV Tupi.”

Carinho em Gloria Gaynor (2006). Foto: Divulgação
Carinho em Gloria Gaynor (2006). Foto: Divulgação

A emoção bateu forte, diz ele, quando leu os capítulos sobre a luta contra o câncer. “Os últimos dias foram dificílimos, mas ela ficou feliz de assinar o seu contrato para voltar ao SBT. Pena não ter havido tempo.” Ele se emociona.“Acho que essa era a ideia dela. Entrar no ar pela última vez e, depois, se recolher. Mas ela nunca falou que sabia que estava morrendo. E nós a protegíamos desse assunto, cercando-a de mimos e alegrias.” E agora sou eu quem faço aqui um depoimento.Tive muitos encontros com Hebe entre 2007, quando a entrevistei pela primeira vez, e 2012, seu último ano de vida.

Leia também: Bazaar teve acesso ao acervo de roupas e objetos de Hebe Camargo!

Na Bahia, em 2012, quatro meses antes de morrer. Foto: Eduardo Lopes/Paulista
Na Bahia, em 2012, quatro meses antes de morrer. Foto: Eduardo Lopes/Paulista

A primeira vez que bebi uma taça de vodca pura – e talvez a única – foi ao lado dela. No mesmo sushibar da casa de Lucilia Diniz, cenário de sua festa de 80 anos. “Para acompanhar caviar, a vodca tem de ser pura”, ela me aconselhou.“Tenta!”Tentei, enquanto ela ria das minhas caretas. Em outra ocasião, no jardim de sua casa no Morumbi, em São Paulo, também num final de festa à beira da piscina, estávamos à mesa – éramos no máximo seis pessoas –, ouvindo Hebe, de pé, cantar Emoções, de Roberto Carlos, ao luar. Ouvi de Carlinhos Bettencourt, sócio do restaurante A Bela Sintra, com seu sotaque do Alentejo: “Se contarmos que estamos aqui, ninguém vai acreditar”. Antes do último brinde, ela nos dizia: “Não vão…Vamos esperar amanhecer e tomar banho de piscina”. O convite era irresistível, mas achamos mais educado ir embora.

Em sua fase cantora, ao lado de Edith Piaf. Foto: Divulgação
Em sua fase cantora, ao lado de Edith Piaf. Foto: Divulgação

Agora em abril, voltei à casa dela, que continua linda. Hebe viveu lá durante anos, cercada de cachorros, como o galguinho Fendi, uma galinha d’angola e a cacatua Tutu, seus bichos de estimação. Está tudo como ela deixou. Fendi, que dormia em seu quarto, vive com o filho da apresentadora, Marcello, no MatoGrosso. Masacacatua Tutu, ave de 10 anos, ainda imita sua gargalhada. Foi nessa mesma casa que, durante dois anos, a mulher de Pessutti, a empresária Helena Caio, que cuidou de Hebe em seus últimos momentos, organizou todo o acervo. São d ocumentos, fotografias, troféus, objetos pessoais e vestidos. “Ela doava muitas roupas”, conta Helena, enquanto almoçávamos com Claudio à beira da piscina.“Das mais antigas, temos poucas. Mas há vestidos icônicos.Um deles, ela gostava muito e estará na exposição. Ela usou no especial Elas cantam Roberto.”

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Meu último encontro com Hebe foi na Ilha de Comandatuba, na Bahia, quatro meses antes da sua morte, em 29 de setembro de 2012, aos 83 anos. Ela usava uma correntinha com quatro letrinhas mágicas juntas: vida.“O bom da morte é que a gente nunca sabe quando ela chega. É só não pensar”, dizia, deixando o vento levantar a túnica e revelar as pernas das quais ela se orgulhava.“Quer que eu entre no mar?”, ela perguntou. 9 Sim! Entramos, de roupa e tudo.

Em 1949, Hebe ainda morena, em viagem ao Ceará. Foto: Divulgação
Em 1949, Hebe ainda morena, em viagem ao Ceará. Foto: Divulgação

Ela vestia um caftã verde e gargalhou ao se desequilibrar com uma marola mais forte. De um lado, Hebe se apoiava em mim. Do outro, segurava a mão da jornalista Daniela Filomeno. Hebe estava lá para ser homenageada no Fórum de Comandatuba, do Lide, do hoje prefeito de São Paulo, João Doria. No final, quando já brindávamos no almoço, me desculpei por insistir sobre temas como a morte, a doença e os medos. Ela sorriu e, com leveza na voz, sussurrou no meu ouvido:“Eu não aprendi com a morte. Eu aprendi com a vida”.