Pele em Fuga (2003) - Foto: Divulgação
Pele em Fuga (2003) – Foto: Divulgação

Por Julia Flamingo

Tire os sapatos, perceba a maciez do tapete nos pés. Respire fundo, sinta o cheiro de aromas e especiarias e tente adivinhar quais são. Toque no que está à sua volta: tronco de árvore, plantas, crochê. Faça o que seu corpo mandar – só não deixe de respeitar o espaço que outras dezenas de pessoas dividem com você para se relacionarem com a obra de Ernesto Neto.

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É o público que faz existirem os trabalhos mais recentes do artista carioca: sem ele, suas esculturas são apenas belos objetos. “Cura-Bra/Cura-Té” é o título do espaço construído por Neto para o octógono da Pinacoteca de São Paulo. A escultura marca a retrospectiva “Ernesto Neto: Sopro”, que o museu paulistano acaba de inaugurar.

Copulônia (1989-2009) - Foto: Divulgação
Copulônia (1989-2009) – Foto: Divulgação

Ao criar um ambiente reflexivo e de introspecção, o artista de 55 anos propõe uma espécie de cura do ser humano, relembra nossas raízes indígenas, mostra nossa pequenez diante da sabedoria da natureza e recapitula a importância do abraço e do toque no lugar do consumo material. Assim, acredita no crescimento e desenvolvimento pautado em novas maneiras de se relacionar. E faz isso por intermédio da arte.

Questionamentos que há 30 anos acompanham a produção do artista fervilharam a partir do seu encontro com os índios huni kuin, em 2013. A população dessa etnia, com mais de 7.500 pessoas, habita parte do estado do Acre. “Eles me fizeram questionar minha ação sobre a terra, meu conhecimento sobre plantas e entender que é somente por meio do autoconhecimento que a humanidade pode encontrar sua cura”, diz Neto à Bazaar. “A natureza está falando conosco: tivemos a catástrofe de Mariana, a queda da ciclovia Tim Maia, o fogo no Museu Nacional do Rio de Janeiro, a tragédia em Brumadinho. Precisamos ouvir o que ela tem a nos dizer!”

O Escultor e a Deusa (1995) - Foto: Divulgação
O Escultor e a Deusa (1995) – Foto: Divulgação

A convivência com xamãs resultou em instalações gigantescas, como “Um Sagrado Lugar”, que integrou a mostra principal da 57ª Bienal de Veneza, em 2017, e “GaiaMotherTree”, apresentada pela Fundação Beyeler e exposta na estação de trem central de Zurique, no ano passado. A instalação em forma de árvore, feita em crochê, tinha 20 metros de altura. Nesses eventos, não importava a origem dos visitantes, seus costumes e culturas. Pessoas do mundo inteiro paravam para respirar.

Parece abstrato, mas, na verdade, a produção de Ernesto Neto parte de um pensamento escultórico tradicional e embasado. Não é à toa que ele é considerado um dos mais importantes escultores da contemporaneidade brasileira. No começo de sua carreira, nos anos 1980, sua preocupação estava voltada para conceitos como o peso, a gravidade, o volume, a transparência. Dessa fase, estarão expostas na Pinacoteca peças emblemáticas, como “Barrabola” e “Copulônia” – esta última composta por meias elásticas e esferas de chumbo que, combinadas, resultam em uma relação de tensão e equilíbrio, e se espalham pelo espaço como tentáculos de um polvo.

TomBor Tom (2012) - Foto: Divulgação
TomBor Tom (2012) – Foto: Divulgação

Se, até então, Neto estava interessado no diálogo entre escultura e corpo, nos anos 1990 seu estudo se expande para o corpo coletivo. Esculturas viram composições arquitetônicas. Em “Nave Voadora”, por exemplo (e que também integra a retrospectiva), o público passeia por túneis de tecidos brancos esgarçados e presos ao chão por meio de gotas recheadas de areia e bolas de gude.

“Depois de pensar no coletivo, na sociedade, Ernesto Neto passa a considerar a relação da humanidade com o cosmos. E é nessa fase que ele está hoje. Suas esculturas atuais falam sobre a ligação de nós, seres humanos, com outros seres, sabedorias e cosmovisões”, explica Jochen Volz, diretor da Pinacoteca, responsável pela curadoria da mostra ao lado de Valéria Piccoli.

Velejando entre Nós | [Tapete Campo] Onde Ki Nos Vamo? (2012-2013) - Foto: Divulgação
Velejando entre Nós | [Tapete Campo] Onde Ki Nos Vamo? (2012-2013) – Foto: Divulgação
Com um total de 60 obras, esta será a primeira grande individual no Brasil a fazer um sobrevoo por todas as dimensões do pensamento do artista. Como diz Neto, em um elogio à natureza, a exposição foi construída no formato de um pássaro de asas abertas.

Pinacoteca de São Paulo: Praça da Luz, 2, Luz, São Paulo
Até 15 de julho

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