Foto: divulgação
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Por João Lourenço

O segundo romance de Hanya Yanagihara, Uma Vida Pequena, lançado em maio no Brasil, apareceu nas principais listas internacionais de mais vendidos e melhores do ano em 2015. A obra foi finalista dos prêmios mais importantes do circuito literário, como o National Book Award. Hanya é desses raros casos em que a vida pessoal da autora é tão interessante quanto o mundo dos personagens que inventa.

Nascida em Los Angeles, teve infância boêmia e despojada. Com o irmão mais velho, brincava por corredores de motéis de beira de estrada, enquanto os pais trabalhavam. Hanya explica: “Nós nos mudamos com frequência devido às necessidades do meu pai, que era médico oncologista. Atravessamos o país quase dez vezes. Não tinha glamour. Eram viagens de carro que duravam semanas, meses”. Após se formar no Smith College, instituição de artes liberais para mulheres, em Massachusetts, fixou residência em Manhattan.“NY é uma cidade para os extremos: muito ricos, muito pobres ou muito jovens. E quem faz parte desses grupos são aqueles que mais se divertem.A única coisa que conecta essas pontas é a ambição.”

A autora transitou por esses extremos ao desembarcar na cidade. Passou por publicações pequenas e, hoje, aos 40 anos, é vice-editora da revista T, do New York Times. Hanya diz que sempre gostou de escrever ficção, mas não via isso como uma profissão.“Não queria ser mais uma escritora quebrada. Fora a questão financeira, também é essencial que todo escritor tenha um outro trabalho, uma rotina. Geralmente, escritores são pessoas introspectivas que passam muito tempo dentro de si mesmas. Ir a um escritório, por exemplo, te obriga a estar rodeado de outras pessoas, outras experiências. E isso é algo que ajuda na ficção.”

Uma Vida Pequena (ed. Record, R$ 59,90) segue, ao longo de várias décadas, a vida de quatro homens que se conhecem na faculdade. Eles se mudam para Nova York em busca de realização profissional, mas logo se veem desesperançados. Willem é aspirante a ator; JB é um pintor perspicaz e, às vezes, cruel, que busca de todas as formas ingressar no mundo das artes; Malcolm é um arquiteto frustrado de uma empresa de renome; e o solitário, brilhante e enigmático advogado Jude funciona como o centro gravitacional do grupo.Aos poucos, os outros três passam a desvendar o passado de Jude, que sofreu abusos na infância. A narrativa mostra a luta deles para ajudar Jude a se livrar de seus demônios.“Escrevi esse livro porque estava interessa- da nos efeitos de longo prazo que situações de abuso e trauma deixam nas pessoas, principalmente em homens. Meninas crescem mais preparadas para essas situações. Meninos também sofrem abusos, mas não estão equipados para lidar com isso.”

Hanya conta que seu desejo era escrever sobre um personagem que nunca melhora e jamais aceita ajuda.“Você não é capaz de salvar outra pessoa, mesmo se você quiser, mas isso não significa que você não deva tentar.” Essa crença rege o núcleo do livro. Ela escreveu Uma Vida Pequena em 18 meses, mas, aparentemente, vinha se preparando para o livro desde sempre. Começou a colecionar fotos ainda na adolescência e diz que o tom do romance foi inspirado nas imagens de nomes como Diane Arbus e Ryan McGinley, fotógrafos que descreve como “contadores de histórias do nosso subconsciente”. Ao fim da leitura de Uma Vida Pequena, ficamos com a pergunta: o amor de quem nos ama é suficiente para nos sal- var? “Nem sempre”, responde Hanya.