Ventura Profana fotografada por Gê Vianna – Foto: Divulgação

“Vivo a Bahia, me criei no Rio, fui para Belo Horizonte, onde lancei um livro, ‘A Cor de Catu’, fiz uma residência artística, e falei pela primeira vez: eu sou Ventura Profana“, resume a multiartista. Cantora, performer, artista visual e escritora, ela acaba de ser indicada finalista do Prêmio Pipa, um dos mais relevantes de artes visuais do País.

E prepara também sua primeira individual no Centro Cultural São Paulo (CCSP), em outubro, a convite do curador Hélio Menezes. “Vou falar sobre minha pesquisa de edificação, a construção desse templo, aquilo que chamo de tabernáculo”, explica Ventura, sobre “Plantações de Traveco, para a Eternidade”. Em exibição, um apanhado de obras dos últimos anos, que vão de redesenhos de mobiliários de igreja contra o falocentrismo à gigante bandeira camuflada de 16 metros, batizada de “Sem Senhor”.

Mas é para a música que o radar dessa artista multiplataforma se volta agora. Em conversa com Bazaar, ela conta que versos como “respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada”, da música “Vaca Profana”, na embocadura de Gal Costa, serviram como acalanto a ela, que sempre foi forçada a acreditar que sua feminilidade era conduzida pelo Diabo ou por forças demoníacas.

“Me reconheci enquanto divina”, diz, sobre ter virado a chave na aceitação de seus seios fartos, que a faziam sentir vergonha na adolescência. Antes de se identificar como travesti (é assim prefere ser chamada), violências vinham endereçadas nos olhares de reprovação, que ricocheteavam sobre seu corpo. “Fui me tornando muito depressiva e perdendo o amor pela vida para me encaixar nesse lugar de uma pessoa aceita pela família.”

Criada em templos batistas e espécie de pastora missionária, em sua porção cantora – que usa música para evangelizar – lançou este ano o EP “Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor” (parceria com Podeserdesligado), bem no meio da quarentena.

Obra “Edificação Performance 50” (2018) – Foto: Divulgação

O senhor do título, segundo ela, não é Jesus, mas o que representa o poderio branco. “Entendo Jesus, me aproximo Dele, me relaciono. É lógico que eu consigo discernir Jesus Cristo do Senhor. O que Ele prega não tem a ver com essa presença e esse histórico senhorio. Tenho buscado mergulhar na cultura cristã e nas escrituras bíblicas para fazer esse trabalho de lavagem”, crê.

Para tanto, Ventura deixa bem claro: “Isso que faço é uma música cristã, assim que classifico. É uma produção que pensa a religião, que parte dela e a questiona. Estou falando de Cristo”, explica.

Extremamente plural, é frustrante para a artista ficar presa ao núcleo LGBTQIA+. “Parece que toda minha subjetividade está sempre atrelada à questão de gênero. Isso dificulta e afasta infinitos debates que poderiam ser possíveis se a gente não ficasse restrita a esse playground, que é uma prisão.”

Enquanto ela assina as letras, Pode (apelido do produtor Jhonatta Vicente) explora musicalidades pretas dentro do eletrônico. A parceria entre eles começou há três anos no cântico “Eu Não Vou Morrer”, quando também começaram a propor cultos. “À medida que fui cantando e fazendo esses ajuntamentos, o trabalho foi nascendo e as coisas amadurecendo”, explica.

Ano passado, avisou ao produtor que não teria paz espiritual enquanto não tivesse um EP em mãos. Este ano, deu pitaco aqui e ali nas produções que fizeram enclausurados durante uma semana. De manhã vinham as letras – até a mãe de Ventura teve participação, dando bronca e indicando versículos bíblicos. À noite, Pode trabalhava nos beats e se arriscou nos backing vocals em algumas faixas.

Capa do single “Mulher Virtuosa” – Foto: Divulgação

A cada música, Ventura encafifou com um instrumento: tem desde guitarras rasgadas e saxofone até o simbólico shofar – importantíssimo no cristianismo e presente nas igrejas do Reteté, mais próximas de simbologias israelitas.

Aos 27 anos, a capricorniana nascida no interior baiano clama para que o discurso de ódio disfarçado de religião seja exterminado no País que mais mata trans no mundo. “Não adianta nada você abrir sua igreja para receber travestis e continuar exaltando, louvando, dando tudo de si e toda sua fé e esperança em um homem branco e cis”, rebate.

Segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), 124 pessoas trans foram assassinadas no Brasil em 2019.

Arrebatadora

Os talentos múltiplos de Ventura Profana coexistem e não se sobrepõem. Quando a pandemia veio, estava prestes a embarcar para a Suíça para uma residência artística, que adiou e emendou outra, no Goethe-Institut, de Salvador. Para tanto, precisa ter uma “disciplina de Deize”, como gosta de dizer. “Sou bem malabarista, eu diria. Não sei se estou mais acrobata ou mais malabarista. Estou por aí, tentando me equilibrar sempre.”

Além do trabalho em madeira e ferro, tem estudado as poéticas do barro e da cerâmica como forma de expressão. Some-se a isso performances e um segundo livro a caminho. “A escrita é um refúgio para mim.”