Foto: Divulgação

Por Allan Tolentino

Depois de conquistar milhões de plays ao redor do mundo nos últimos anos, Anne-Marie vem se consolidando na cena pop internacional. Da mesma safra de Dua Lipa, certamente você conhece e até dançou a superconhecida “Rockabye”, parceria com Sean Paul e Clean Bandit, de 2018. Com o tão temido segundo álbum de estúdio, a britânica tem um objetivo ainda mais complexo no recém-lançado “Therapy”.

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Como o nome sugere, o trabalho é uma sessão de terapia com 12 faixas discorrendo versos honestos e crus sobre autoconhecimento embaladas por melodias pop. “Você nunca esquece das coisas. A não ser que as encare. Tenho aprendido muito. Minha autoconfiança está melhor e me sinto gostando de mim mesma. Esse é o começo para tudo melhorar”, conta a cantora britânica por videochamada.

O tom visceral das canções podem ser sentidos como em “Who I Am”, em que revela ser “teimosa e minha mãe sabe bem disso” ou em “x2”, quando narra uma vingança em dobro a um boy lido por ela como “complicado”. Momentos assim sustentam o universo do trabalho, exalando um pop eletrônico de produção complexa ao passo que ostenta parcerias de peso, como “Our Song”, com Niall Horan (ex-One Direction), e “Kiss My (Uh Oh)”, com as meninas do Little Mix. A colaboração com as conterrâneas rendeu um lugar no topo dos trending topics do Twitter aqui no Brasil quando os fãs subiram a tag #beijogrego… Para ver o nível de engajamento da gata! Leia a entrevista:

Foto: Bella Howard

Como ficou o coração enquanto fazia o tão temido “segundo álbum”?
Foi muito assustador! (risos). Tentei não pensar nisso, fiquei tipo “ah, não vai ser fácil, só vou fazer música e ver no que dá”. Mas o medo acabou sendo verdadeiro. Só não sabia o que fazer ou dizer, nem qual tipo de som. Então, tomei um tempo para chegar ao resultado. Percebi que, realmente, amo música pop e ser honesta sobre minha vida. Esse é o tema da minha música a partir de agora.

Enquanto você entendia os caminhos do trabalho, teve algum acontecimento da sua vida que te ajudou a definir o disco?
Sim… Ao entrarmos em lockdown, comecei a enfrentar várias questões pessoais. Comecei a me sentir triste e para baixo. Então, comecei a fazer terapia. Foi quando as coisas começaram a fazer sentido para mim. Pude ver com certa distância e entender como me sentia sobre determinadas situações. Escrevi músicas logo depois das consultas, tudo foi caminhando em paralelo. Isso me ajudou muito a entender o que iria comunicar.

Foto: Divulgação

Essa foi sua primeira vez na terapia?
Antes, eu já tinha tentado, há uns dois anos e meio. Mas fiz só duas sessões e não gostei muito, não entendi direito. Então, parei. Mas, para minha sorte, foi bom ter podido me distrair do meu próprio cérebro e dos pensamentos. E não pensar sobre as coisas profundamente. Quando foi hora de ficar trancada em casa, fiquei: “certo, talvez eu precise mesmo me ouvir para saber o que estou fazendo”. Antes, não deu certo. A verdade é: você precisa estar pronto para a terapia dar certo.

Quão desafiador foi preparar este álbum estando à distância dos seus colaboradores? Boa parte deles estava em Los Angeles, certo?
Duas das músicas, “Who I Am” e “Tell Your Girlfriend”, foram escritas em Los Angeles, em 2019. O resto são todas de 2020. Foi bem difícil não estar em estúdio presencialmente com as pessoas, porque amo o calor humano. Me sinto muito criativa quando nos reunimos. E o Zoom foi bem difícil, pelo delay e todas essas coisas horríveis, mas graças a Deus isso existe. Talvez só não para compor.

A maioria das músicas teve meus vocais gravados na minha própria sala de estar. Senti tanto conforto que pude experimentar em como realmente usar minha voz de outro jeito, para cantar o meu melhor. Teve o lado ruim, mas também o bom de ter ficado em casa tentando criar. As colaborações foram muito divertidas pelo simples fato de que ninguém poderia dizer não (risos). Eles não tinham desculpas, porque não estariam ocupados. Não dava para não estar disponível! Então, foi divertido. Fazer esse segundo álbum foi algo que gostei muito.

Foto: Divulgação

Uma das suas grandes referências para composição é a Alanis Morissette… Como é ser hoje um dos nomes que, assim com ela, também traz grande honestidade para o mundo que apresenta aos fãs?
Ai… é o paraíso ouvir isso! Cresci ouvindo Alanis e ela foi uma das pessoas, junto à P!nk e o Eminem, que eram honestos em suas letras. Sem medo de dizer das suas vivências. A Alanis era bastante crua e me fez perceber: você não precisa ser o popstar perfeito, sabe? Nem falar sobre coisas sem significado. Ela me fez a artista de hoje. Não quero fazer música sem uma mensagem. Seja para se sentir melhor ou chorar. Quero que sintam algo, seja o que for. Ela fez isso comigo! Quando comecei a compor, esse era o objetivo.  Que as pessoas possam ouvir minhas músicas várias e várias vezes sem se cansar. Esse é o plano!

Você acredita em astrologia?
Sim!

Que ótimo! Porque por volta da sua idade (30 anos), muito se fala do Retorno de Saturno, com  mudanças no comportamento e como se vê o mundo. Você tem algum conselho para fazer essa mudança de perspectiva ser mais fácil?
Sempre sofri com situações sociais e ansiedade, preocupações com o futuro. Meu cérebro está sempre a 100 por hora. Antes da pandemia, nunca havia pensado nisso… Estava sempre distraída, viajando para algum lugar, fazer um show. Então, não precisava pensar nos meus problemas. Neste último ano, foi importante encarar os pensamentos, e não só deixar para lá. Perguntar “por que estou me sentindo assim? Qual o motivo?”, e fiz muito isso nesses últimos tempos, principalmente com minha psicóloga.

Isso tem me deixado mais feliz, porque estou tentando entender a situação e arrumar um jeito. Pensava “ah vou só fingir que algo não existe e estarei feliz”, mas você nunca esquece das coisas. A não ser que você as encare. Tenho aprendido muito. Minha autoconfiança está melhor e me sinto gostando de mim mesma. Esse é o começo para tudo melhorar. Você pode comprar um tênis, um carro ou uma casa nova mas, se você se sente uma porcaria por dentro, nada tem significado. Meu conselho é ser um pouco egoísta e pensar em você. Porque, quando você se sentir melhor, tudo vai estar melhor ao seu redor. É isso que tenho vivido.

Nós, fãs brasileiros, somos conhecidos por sermos, digamos, intensos. Você recebe muitos comentários afirmando “please come to Brazil”?
(Gargalha) Sim! E eu amo, sendo honesta. Minha primeira memória de um fã brasileiro foi logo quando saí do Rudimental e fiz meu primeiro show solo, em Londres. Uma fã brasileira foi até Londres só para o show pequeno, para umas 200 pessoas. Dei uma medalha porque merecia muito! Sempre me lembro disso e quero muito poder retribuir o favor e ir ao Brasil! Espero que no próximo ano. Aí vocês não vão precisar comentar mais nas minhas fotos para eu ir para o Brasil porque já vou estar aí com vocês!