Zuzu trabalhando em seu ateliê no Rio, em 1971 - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Zuzu trabalhando em seu ateliê no Rio, em 1971 – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Por Michael Koellreutter

“Um belo exemplo de criatividade e legitimidade da mamãe é a coleção Helpless, que considero a mais brilhante, a maior ousadia política dela, para denunciar os crimes e a ditadura no Brasil”, orgulha-se Hildegard Angel, jornalista e filha da estilista Zuzu, em entrevista à Bazaar. Helpless Angel – que trazia a hoje icônica estampa de pássaros pretos em tecido vermelho e vestidos bordados com quepes e tanques militares – foi desfilada em Nova York, em 1971, na casa do cônsul-geral do Brasil, Lauro Soutello Alves.

Zuzu reuniu por lá todos os correspondentes estrangeiros, vestiu-se de luto, e as modelos desfilaram ao som tristonho das Bachianas, cantadas a capela por Ana Cristina, irmã de Hildegard. “Logo as agências internacionais começaram a enviar para o mundo os vestidos com faixas de luto e os bordados políticos denunciando as maldades do governo no Brasil. A mulher de Lauro, Maru, era cliente da mamãe. Era uma época em que, pelo AI-5, denunciar o Brasil no exterior era crime, sujeito a prisão e, sabemos, às vezes, tortura e morte. Porém, a residência do cônsul é solo brasileiro…”

Looks de Zuzu Angel fotografados nos EUA na década de 1970 - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Looks de Zuzu Angel fotografados nos EUA na década de 1970 – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Mais de 40 anos depois, uma ampla retrospectiva dedicada à vida e à obra de Zuzu Angel acontece a partir de 1º de abril de 2014 no Itaú Cultural, ocupando o instituto paulistano. A mostra inclui 35 vestidos, além de todos os documentos – croquis, fotografias e cartas – que retratam a história da estilista.

O motivo da exposição, organizada por Hildegard em parceria com a equipe educativa do instituto, e, sobretudo, da abertura na data em que se lembram os 50 anos do golpe, é preservar a memória da mãe e sua luta obstinada para descobrir o paradeiro do filho Stuart, militante do MR-8 que se tornou, em 1970, tragicamente, o primeiro desaparecido político da ditadura brasileira – hoje comprovadamente torturado e assassinado. Em 1976, Zuzu morreria em um acidente de carro nunca esclarecido.

Conjunto Zuzu Angel fotografado nos EUA - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Conjunto Zuzu Angel fotografado nos EUA – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

“É uma exposição em movimento. Enquanto durar a mostra, haverá performers vestindo réplicas das criações de Zuzu, que irão percorrer o espaço interpretando trechos de cartas ou das memórias da estilista, que estão reunidas no livro – inacabado – Minha Maneira de Morrer”, conta a cocuradora Valeria Toloi, gerente do núcleo educativo do Itaú Cultural.

A mostra começa no térreo, com um lounge com livros e revistas originais que serviram de inspiração para Zuzu. “Ela era uma tremenda mulher de negócios, que conseguiu transformar uma atividade caseira de costura em uma marca reconhecida no exterior”, conta Claudiney Ferreira, gerente do núcleo audiovisual do instituto, também cocurador da expo. “Para tudo o que fazia, traçava um plano muito claro; e fez isso, inclusive, no momento em que decidiu internacionalizar a militância pela busca do filho”, diz.

Zuzu trabalhando em seu ateliê no Rio, em 1971 - Foto: reprodução/Harper's Bazaar
Zuzu trabalhando em seu ateliê no Rio, em 1971 – Foto: reprodução/Harper’s Bazaar

Na mostra, a formação e o processo de criação da estilista são destrinchados. “Ela começou fazendo saias para as amigas; então, percebeu que poderia fazer também camisas e providenciar os acessórios”, conta Valeria, que está indo semanalmente ao Rio há mais de três meses para pesquisar o arquivo do Instituto Zuzu Angel. A temática pastoral, os vestidos de noiva, a coleção inspirada por Maria Bonita e Lampião estão entre os highlights.

A fase do luto – seus bordados de denúncia e originais ou fac-símiles das cartas ao general Geisel, a Henry Kissinger, ao coronel Silvio Frota, entre tantas outras – também está exposta. Tanto Valeria Toloi quanto Claudiney Ferreira defendem que, após a morte do filho Stuart, Zuzu passou a usar o trabalho como estandarte para denunciar o que acontecia no Brasil, o que intensificou a imensa originalidade de seu processo criativo. Ela foi uma das primeiras estilistas no Brasil a criar estampas; e, provavelmente, a primeira a explorar a ideia de um logotipo, o onipresente anjinho.

“Sejam legítimas! Criem baseadas em suas raízes e experiências. Nunca tomem nada emprestado. Sejam vocês mesmas!”, é o conselho de Hildegard Angel a jovens estilistas. “É por meio dessa legitimidade que outras mulheres vão fazer o Brasil da Zuzu, numa outra época”, festeja.