Daniela Filomeno – Foto: Arquivo Pessoal

Por Daniela Filomeno

Sou curiosa e isso alimenta minha vontade de explorar cada cantinho do mundo: das culturas à gastronomia, das paisagens ao estilo de vida. Tenho uma atração especial pela diversidade da natureza, que inclui o “mundo do gelo” (Islândia, Alasca, polos Sul e Norte), e ele sempre na minha bucket list. Inóspita e impressionante, Antártida não é uma escolha óbvia de destino, mesmo para locais de paisagem gélida. O continente branco é desconhecido – 99% de seu território é gelo – e pouco explorado, o que o torna mais fascinante. Visitá-lo é abraçar o espírito de imprevisibilidade em uma verdadeira aventura.

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A Antártida (ou Antártica) não pertence a nenhum país específico. Sem um governo, seu território só pode ser utilizado para fins pacíficos, pesquisas científicas colaborativas entre as bases ali instaladas, e nenhum país pode reivindicar sua terra ou explorá-la comercialmente – por isso, não há estrutura hoteleira ou turística, somente expedições.

Transporte

Pleneau bay é um verdadeiro estacionamento de icebergs – Foto: Arquivo Pessoal

Cerca de 40 embarcações desbravam a Península Antártica, Geórgia do Sul e Ilhas Falkland (sob domínio britânico), com saídas da Argentina ou do Uruguai. Fizemos o roteiro de oito dias (seis a bordo) no novíssimo World Explorer da companhia Quark Expeditions. A escolha foi pela experiência (são 29 anos fazendo esse tipo de turismo), os barcos são menores e te deixam o máximo de tempo fora da embarcação, explorando colônias de pinguins, glaciares, observando baleias e icebergs.

Caiaque em Danco
Island, entre icebergs – Foto: Arquivo Pessoal

Para chegar de navio, é necessário encarar a instável passagem pelo Estreito de Drake, entre o extremo sul da América do Sul e a Antártida, conhecida por ser uma das piores condições meteorológicas marítimas do mundo. Isso sempre foi um empecilho para enfrentar meu sonho de conhecer o polo Sul. Enjoo em navio, tenho labirintite e, mesmo sabendo controlar, não me atraía a possibilidade de ficar de três a quatro dias cruzando essa travessia em alto-mar. Quando descobri que existia a possibilidade de voar até o continente gelado, pulando o Drake, o sonho começou a se materializar.

Experiência

O museu Port Lockroy, em uma antiga base inglesa, é uma rara parada em terra com alguma estrutura – Foto: Arquivo Pessoal

É uma viagem que precisa ser programada com um ano de antecedência. Afinal, só é possível visitar a Antártida entre novembro e fevereiro, com vagas limitadas e superdisputadas – americanos, australianos, europeus e chineses costumam arrematar todos os lugares disponíveis.

O que esperar? Basicamente, é como fazer um safári na neve. Para a expedição, você chega um dia antes, em Punta Arenas, no Chile, e fica em compasso de espera – em stand by –, para saber quando será possível voar para a base militar chilena na ilha King George, o ponto de partida da aventura. O clima da Antártida é notório por ser um dos mais inconstantes do mundo. Por isso, tudo é reconfirmado a cada dia. Depois de pousar, há uma caminhada de dois quilômetros para chegar à costa e pegar o bote para embarcar no navio.

Geleiras e pinguins – Foto: Arquivo Pessoal

São duas expedições por dia (uma de manhã e outra à tarde) e sempre voltamos para o navio para as refeições. O pouco tempo a bordo é preenchido por briefings e palestras com experts (biólogos, historiadores, geólogos) sobre a região, a vida marinha e outras curiosidades. Saímos do navio em um zodiac (tipo de bote) para observar colônias de pinguins, diferentes espécies de focas, pássaros e, com sorte, avistar baleias jubarte e orcas.

Determinados lugares têm explorações por terra. A cada passeio, uma surpresa: muda a paisagem, a vida animal, o cenário. É impressionante como uma expedição é muito diferente da outra.

Caiaque em Danco Island, entre icebergs – Foto: Arquivo Pessoal

É possível incluir um pouco mais de emoção com stand up padle, caiaque ou o polar plunge, mergulho no mar a 0º. Caiaque entre icebergs, definitivamente, entrou na lista de experiências mais diferentes que já fiz na vida. Ainda me lembro do forte cheiro do mar, devido à altíssima concentração de plânctons; o barulho do caiaque batendo em pequenos pedaços de gelo e o silêncio sendo interrompido pelo barulho similar ao de um trovão, quando o iceberg se desprende do glaciar.

Acho que parei de respirar alguns minutos ao observar a “dança” do gigante iceberg girando até se estabilizar ou quando a foca-leopardo, a grande predadora dos mares gelados da Antártica – e não a orca –, curiosa, mergulhava por perto.

Foca-leopardo, a grande predadora dos mares do Polo Sul – Foto: Arquivo Pessoal

Esqueça aquele turismo luxuoso habitual, o must é a natureza: beleza abundante que chega a emocionar. As paisagens são indescritíveis, algo que nenhuma lente consegue captar – daquelas coisas da vida que só estando presente para entender. Aliás, presente é uma palavra que pode definir um pouco a sensação de visitar a Antártida, vendo toda a grandiosidade e o cenário desse lugar tão impactante. Definitivamente, entrou no ranking das minhas melhores viagens da vida.