Foto: Arquivo pessoal

Por Ana Carolina Andraus

No caminhar do mundo onde as relações estão mais digitais que reais, os chamado retiros, que eram considerados uma escolha alternativa quase hippie, hoje, se tornaram um caminho cada vez mais forte na busca por aprofundamento na espiritualidade ou pelo ioga, e a experiência de estar novamente em um grupo “controlado”. 

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Permita-se sair de um modus operandi construído com tanto empenho e se abrir para uma reconexão simplesmente por se permitir retirar-se do seu próprio mundo, assista ao seu crescimento interior se potencializar.

Essa possibilidade de contato humano – combinado com o total desligamento da realidade nada fácil que todos enfrentamos recentemente – se transformou em uma verdadeira porta magica de encontros improváveis e aprofundamento nas nossas próprias verdades e uma troca magnifica no coletivo.

Foto: Carolina Andraus

Convidada para fazer parte de um retiro de quatro dias no Outeiro das Brisas pela a ainda não inaugurada Urban Yoga, fui surpreendida com uma troca fortíssima entre mulheres, amigas, conhecidas ou amigas de amigas, que nos transformou em um grupo de profunda abertura emocional, compartilhamento, trocas cheias de risos e algumas lágrimas, onde nos apoiamos, nos desafiamos, e nos emocionamos juntas de maneira absolutamente surpreendente. 

Tivemos uma jornada de práticas maravilhosas, de profundos momentos de meditação com uma força e magnitude de emoção que só poderiam ser reflexo de estarmos sobre as falésias deslumbrantes do Outeiro das Brisas, que poderiam ser a costa da Córsega, mas onde o mar é morno e verde claro, na nossa amada Bahia, cercados de mata nativa. 

A riqueza de poder compartilhar não apenas o privilégio de estar em um lugar lindíssimo, e, diga-se de passagem, com um wifi muito ruim que nos presenteou com um certo isolamento digital, com uma programação bastante intensa de práticas e os inúmeros desconfortos de cada uma em sair da sua zona de conforto, de suas casas, muitas deixando as suas famílias pela primeira vez desde o início da pandemia, para ter alguns dias dedicados a seu autocuidado. 

Como nem tudo são flores, o privilégio vem acompanhado com a mudança de rotina, os horários, a frequência da prática, administrar a distância de filhos, de uma agenda de trabalho, e até do medo de dormir sozinha em um quarto de pousada que fica em meio a um jardim, mas que nos recebeu com uma noite de tempestade e ventos fortíssimos. Três aviões não conseguiram pousar no dia em que chegamos, tal era o mau tempo, que tiveram que arremeter e ir para Salvador esperar o tempo melhorar. 

Depois de ajustes e chegadas, e uma noite de sono turbulenta, pouco a pouco começamos a nos observar, totalmente fora do contexto social que estávamos acostumados a nos perceber. A primeira prática de ioga, que começou com uma profunda meditação e a musica com voz e violão do professor de vinyasa ioga Rafael Bogoni, nos tocou tão lindamente que muitas de nós já terminaram com lágrimas nos olhos.

Foto: Carolina Andraus

Cada encontro, cada vez que praticamos, ou nos sentamos em uma longa mesa onde as deliciosas refeições eram servidas, fomos surpreendidas com novas percepções e descobertas cheias de aprendizado e amorosidade. Rimos muito umas das outras, e umas com as outras. 

Contamos experiências divertidas, e a cada conversa uma nova descoberta acontecia, algumas mostrando uma doçura e amorosidade desconhecidas, outras nos inundando de aprendizados, conteúdos e informações, ou ainda simplesmente filosofando sobre os desafios e alegrias das escolhas que cada uma de nós fez pela vida.

Os relacionamentos, que nunca podem deixar de ser uma parte importante da troca feminina, obviamente foram parte importante da pauta. Mas é interessante como foi uma pauta muito menor do que normalmente acontece, porque por algum motivo estávamos mais aprofundadas em descobertas das nossas almas, e apesar das histórias de amor e desamor serem tão parte dessa construção da alma, olhamos muito mais para nós mesmas, as marcas que essas histórias nos deixaram, o crescimento pelas alegrias e sofrimentos, e as nossas próprias metamorfoses que também são constantemente rotuladas, julgadas e desafiadas pelas normas que a nossa bagagem sociocultural nos impõe.

Quando pensamos em um caminhar de mulheres cheias de histórias para contar, onde a busca pela felicidade total é um lugar para ser alcançado, com unanimidade chegamos à conclusão de que esse lugar é construído pela amorosidade, pela compaixão, principalmente com nós mesmas, com a decisão de nos colocar em um lugar onde somos, sim, prioridade nas nossas vidas, afinal seremos muito melhores versões de nós mesmas para todos as nossas voltas. 

Se acreditamos que existe uma espiritualidade que criou e governa tudo o que vemos às nossas voltas, e estivermos próximos dessa força magnifica dentro de nós, poderemos ser cocriadores da nossa própria força e ajustar a rota das nossas vidas sempre que nos sentirmos fora do eixo e incomodadas, mesmo que a vista do mundo estejamos fazendo escolhas sem um sentido lógico.

Ainda presenteados com uma lua cheia espetacular, nos permitimos ir todas as noites, depois que a poderosa tempestade nos deixou, assistir ao nascer da lua, as estrelas, acender uma fogueira nas falésias e ao som de música brasileira do grupo Sonoros – Trancoso, cantar, cantar e cantar, sentir, sentir e sentir, e sonhar.

Se temos o entendimento que a vida é, mais do que nunca, um colecionar de experiências, de pequenas e grandes alegrias, que nos dão brilho no olhar, e uma força que vem do coração para acreditarmos que podemos, sim, construir um caminho feliz e cheio de luz, percebermos que o novo luxo está na riqueza das trocas profundas, desarmadas, sem julgamento, e o aprendizado transformador que isso nos traz.  

Foto: Carolina Andraus

O mundo antes e depois da pandemia não deixa de ser uma pauta constante em nossas vidas. Estamos todos ainda nos adaptando, nos reinventando, buscando reconquistar as nossas liberdades e o que nos foi tirado, repentinamente, em questões de estilo de vida. O coletivo, que por muitos meses deixou de ser uma opção real em nossas vidas, e fez com que nos fechássemosm em distancias, com relacionamentos mais digitais eu e em alternativas sociais. Construímos grupos fechados e passamos a nos preocupar muito em nos proteger, e não mais em trocar. Por tantos motivos, viajar para um retiro que tenha valores alinhados com a sua própria busca é uma opção maravilhosa, e mais do que nunca fica evidente como nós, mulheres, precisamos do coletivo, nossa natureza pede a troca e o compartilhamento, e como esses simples momentos com outras mulheres têm um poder transformador, curativo, nos fortalece e só faz com que a nossa luz interior aumente. Permita-se viver, permita-se compartilhar, permita-se ter esse momento de selfcare.

Foto: Arquivo pessoal

Obrigada às sócias Fernanda Salzano e Adriana Praça, que mesmo antes de abrir o Urban Yoga já estão proporcionando um lugar tão especial de transformação interior, uma missão que é o propósito principal do lindo projeto que vem ai pela frente com inauguração prevista para março de 2022. @urbanyogasp

@carolina.andraus é formada pela FGV, ex-mercado financeiro, empreendedora, desenvolveu e vendeu diversas empresas no mercado imobiliário. Globetrotter e cidadã do mundo, já morou em Londres, Paris, Nova Iorque, Boston, Istambul e Frankfurt. Recentemente voltou a estudar na Harvard Business School e passou a escrever sobre mulheres inspiradoras, comportamento, e viagens.