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Por Carolina Andraus

O hotel The Woodward, nova joia da Oetker Collection, acaba de abrir suas portas neste 1º de setembro de 2021, em Genebra, com design deslumbrante assinado por Pierre-Yves Rochon, um dos grandes nomes da arquitetura de interiores mundial. Em entrevista exclusiva à Bazaar, deste que é responsável por incontáveis ícones do design da hospitalidade e gastronomia de luxo mundiais, saiba por que Genebra será parada obrigatória na sua próxima viagem à Suíça, um dos destinos já abertos para brasileiros.

Qual foi a sua primeira impressão quando conheceu o deslumbrante prédio onde foi projetado o hotel?

Me considero uma pessoa de muita sorte por ter esse belo prédio, francês, em uma esquina e com uma vista espetacular do lago. Essa foi a primeira impressão do imóvel, e parte do sucesso de um projeto é ter um imóvel extraordinário. Fiquei muito feliz em ver esse lindo prédio, em uma localização tão privilegiada.

Pierre-Yves Rochon – Foto: Divulgação

Quais os detalhes que você projetou pensando no luxo atual?

Luxo é quando entramos em uma sala, e o espaço tem um pé direito alto, o que é o caso do lobby do The Woodward, para mim esse é o primeiro aspecto do luxo, o espaço, os volumes, esse é um grande luxo dos tempos modernos. Eu diria que quando estou desenhando um espaço com bons volumes, aí está 50% do sucesso.  Costumo dizer aos meus clientes, imagine metade do pé direito e o efeito que isso teria no mesmo espaço, 2 metros mais alto ou mais baixo, apesar de ser o mesmo espaço, muda completamente o projeto. Nos anos 1970 e 1980, os arquitetos e designers não se preocupavam tanto com os espaços, e hoje eu e meu time sempre brigamos para conseguir os pés direitos mais altos possíveis, alcançar uma boa proporção, e essa e uma das principais características do luxo.

A segunda parte do luxo é o acabamento, os materiais, as janelas grandes, os terraços com vista para o lago. O luxo não é apenas o que é dourado ou o que brilha, mas a qualidade dos materiais, as grandes janelas, o jardim de inverno que nós mantivemos no prédio, e manter as características de uma bela arquitetura de época.

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Como seu grande amor por filmes, e cenários, impacta na criação dos seus projetos?

Sempre quando eu desenho eu imagino uma cena de um filme, quando eu chego, posso ver a vista do lago, entro e pego o elevador, um lindo quarto onde haverá uma lareira, uma biblioteca, onde eu posso relaxar, ouvir boa musical, com boa luz, porque a luz também é uma grande parte do design de interiores hoje em dia. É uma pena não ter uma lareira verdadeira com madeira queimando, já que está proibido hoje em dia na Suíça. A música também é um elemento que considero importantíssimo no ambiente, porque uma pessoa não vai querer ouvir a mesma música da manhã, que ela escuta chegando à noite em um bar, para tomar um drink, ou para jantar. Trata-se de desenhar um estilo de vida, e não apenas uma decoração. A forma que o cliente irá sentir, a experiência toda nasce do projeto de design de interiores.

Essa é a forma que eu trabalho, antes de desenhar eu projeto um filme na minha mente. Eu me pergunto, nós queremos ser franceses à la Louis XVI? Queremos ser bem modernos? O que o cliente quer? Porque também ajuda saber o que o cliente quer. Então ficou decidido que para o The Woodward iriam combinar o clássico e o moderno, sendo que, para o moderno, o melhor período são os anos 1930. Quando você vê a lareira, ela não é Louis XVI, ela tem influência dos anos 1930, então o que tentaram fazer foi uma combinação do melhor do clássico e o melhor do moderno.

Eu não chamo meus projetos de hotel, eu chamo de residência, e eu realmente penso que dessa vez seria como desenhar um “Hotel Particulier”, que é o nome para uma residência francesa, e me imagino entrando em um belo lobby. Por exemplo, indo para o elevador, eu sempre penso em um teto alto, e eu também penso como uma experiência pegar um lindo elevador, onde depois de andar pela cidade você pode se sentar, elegantemente.

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Falando sobre os restaurantes, foram feitos para ser os novos hot-spots da cidade? – Rochon foi o designer do L’Atelier De Joël Robuchon pelo mundo

É muito bom que haverá o L’Atelier Robuchon no The Woodward em Genebra, porque o restaurante tem excelência onde o conceito é um “show-kitchen”, e a estrela é o cozinheiro, e por isso todos estão olhando para a cozinha, tudo é completamente preto, com apenas as luzes focais e todos à volta dela, para que o cliente veja apenas as mãos e a comida. No L’Atelier fomos os primeiros a colocar um chef com um a roupa preta há mais de 20 anos. Pensamos que se colocássemos o chef com uma roupa branca aquilo tiraria a atenção da comida e do preparo. Hoje em dias todos estão copiando esse conceito, que foi criado para ser uma “mis en scène”.

A comida é extraordinária, você pode comer sozinho, conversar com a pessoa ao seu lado, compartilhar os pratos, e quando a comida chega é uma grande experiência, que pode ser leve ou um jantar de vários pratos. Comida muito simples com muita qualidade, e qualidade, qualidade, qualidade é o mantra. E da forma que Robuchon fez o conceito, você pode estar em qualquer cidade do mundo que o purê de batatas, por exemplo, é sempre o mesmo, é o melhor do mundo. Como esse restaurante não tem muita vista, é ideal porque não precisa haver muitas janelas, então é perfeito. E uma característica marcante é que sempre se lembrar do que comeu no L’Atelier, simplicidade e qualidade deixam deliciosas memorias.

O outro é o Le Jardin, que também fizeram um outro em Miami, então o que você pode esperar é um jardim de inverno, e são lugares mais casuais para comer. Imagine que você está no seu apartamento, que tenha uma sensação de estar em casa, e você pode descer e comer alguma coisa leve, uma salada de lagostas, tomar uma taça de vinho mais casual, e aproveitar a vista no jardim de inverno com tranquilidade. Ou, se você preferir, pode comer três sobremesas, e pedir absolutamente o que você quiser, da forma que sentir vontade. Esse é o verdadeiro luxo, você não é obrigado a nada, é um chique frugal.

Qual seu apartamento ou suíte preferidos?

Gosto muito das suítes e apartamentos com vista para o lago, porque é mais como uma residência, com a vista, com grandes banheiros, com luz do dia, com espaços confortáveis, com privacidade e conforto. Buscou deixar um ar leve, e nos quartos trazer elementos dos anos 1930 com móveis contemporâneos, e apenas a estrutura arquitetônica clássica. Tudo foi desenhado para ser aconchegante.

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Qual foi o maior desafio do projeto?

O maior desafio é a execução, por exemplo, quando fazemos uma música precisamos de um bom arranjo, bons músicos, e nos projetos é a mesma coisa, então em algum lugar durante esse projeto foi um grande desafio encontrar os artesãos, trabalhos de madeira e acabamento, já que hoje em dia esta cada vez mais difícil trazer algo de altíssimo nível para o trabalho dos artesãos envolvidos nos acabamentos do prédio. A partir da minha geração, as pessoas começaram a pensar que seria importante estudar, ter uma carreira que não fosse mais a de artesão, e, na verdade, eles estavam completamente errados, e essa arte está se perdendo.

E como foi ter essa aliança franco-americana de ter um escritório de design nesses dois países culturalmente tão diferentes?

As diferenças culturais poderiam ser um desafio, mas não são porque a nossa linguagem é o design. Com as empresas pelo mundo, quando você fala da sua arte, para mim, eu desenho em português, espanhol, chinês, japonês, e eu adoro, então eu não tenho nenhum problema com os clientes, os parceiros de trabalho ou mesmo com os artesãos, porque estamos falando a mesma língua. Educação é uma outra coisa. Então nós nunca brigamos, entre os artistas, é sobre a visão, eu nunca tive problemas em nenhum lugar porque temos a mesma visão. Não existe política, e não existem as coisas que tornam a vida complicada.

Quais os maiores desafios do tempo que você começou em 1979 comparado a hoje?

A vida mudou completamente. Hoje quando desenhamos um hotel, existem tantas possibilidades de design, primeiro saber onde está localizada essa “caixa de sapatos”. Em Paris? Ou no Rio? Na montanha ou na praia? Outra grande diferença são os espaços, antigamente tudo era muito menor, hoje em dia temos mais espaço, hoje não existe separação entre o banheiro e o quarto, a iluminação, de novo, se tornou interessante nos projetos residenciais porque a indústria da hospitalidade trouxe tantos recursos, e em toda a nossa conversa eu não falei nenhuma vez a palavra hotel. Nós tratamos nossos projetos como residências, então fazemos um mix que é tão diferente, e isso fez com que existissem mais oportunidades com mais criticidade. Hoje você me dá uma caixa de concreto e eu consigo produzir uma vida de luxo em uma caixa de concreto. Não temos mais a obrigação de ter a estética de Versalhes, de Louis XVI ou Louis XVII, e isso é novo, não existia quando eu comecei a trabalhar.

Em retrospectiva, depois de tudo o que você já viu, como você vê o futuro?

“Eu espero viver mais 60 anos, como Oscar Niemayer, que trabalhou até os 104 anos. Primeiro, é um dos meus arquitetos favoritos no mundo, e veio para Paris para fazer a sede do partido comunista, e eu trabalhei com ele naqueles anos, quando ele também iria construir a sede da Renault aqui em Paris. E eu me lembro que ele desenhou um lobby, e eu tinha 25 ou 28 anos, e eu disse o que eu poderia fazer como designer de interiores para não destruir o que ele havia feito, porque o que ele fez era tão simples e tão lindo que eu não sabia o que fazer com aquilo. Eu também estive em Brasília quando era jovem, trabalhando na embaixada francesa, pelo escritório de um outro designer, ainda não era o meu escritório, e conheço Brasília desde o começo.

Eu espero que tenhamos um bom futuro, e espero que possamos terminar esse tempo terrível, e o eu espero é que as pessoas compreendam que elas precisam ser vacinas em todos os lugares do mundo, não apenas alguns lugares, e que torço para que o mundo possa estar vacinado e possa voltar a viajar. No meu negócio eu trabalho muito para o mercado de hospitalidade de luxo, que por um ano e meio esteve sem clientes, e, neste momento, por que haveria investimentos neste segmento quando não existem clientes? É um tempo muito difícil para todos nós. Antes dessa crise, foi fantástico, sempre no topo, mas agora precisamos encontrar a forma de continuar, e é diferente como estamos lidando na América e na França, mas acredito que futuramente teremos muito a fazer no mundo, e a vida vai continuar mudando.

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Dando a entrevista na capela da sua casa na Bretãnha, com um céu azul estrelado ao fundo, Rochon diz que hoje trabalha apenas com um iPad, que só precisa disso e pode trabalhar de qualquer lugar do mundo, e considera essa simplicidade proporcionada pela tecnologia também um luxo. Ele diz ter considerado se deveria ter feito nosso call da sua biblioteca, onde imagino uma coleção espetacular de livros, mas diz ter decidido que não, que falaríamos do lugar onde ele estava trabalhando. Obviamente, conta que seu escritório em Paris é um mundo completamente diferente, mas que essa é a forma que está trabalhando hoje.

Esperamos que o mundo possa ter mais e mais projetos e lugares onde possamos viver um filme com um roteiro pensado em todos os detalhes para nos acolher e nos possibilitar viver momentos de sonhos, entre um desafio e outro que a vida nos coloca. E se puder ser um projeto assinado por Pierre-Ives Rochon, saiba que seu filme será lindo, de um chique absolutamente atual e muito acolhedor.

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Sobre Oetker Collection 

Oetker Collection é um portfólio excepcional de Masterpiece Hotels, Estates and Villas na Europa, Brasil e Caribe. Localizada nos destinos mais desejáveis ​​do mundo, cada propriedade é um marco e um ícone de elegância, combinando a lendária hospitalidade com o genuíno espírito de família que é exclusivo da Oetker Collection. Trazendo um legado refinado em hospedagem que se originou em 1872, a missão da coleção é preservar e estender seus padrões incomparáveis ​​por meio da aquisição e gerenciamento de propriedades únicas.

O portfólio atual inclui Le Bristol Paris, Brenners Park-Hotel & Spa em Baden-Baden, Hôtel du Cap-Eden-Roc em Antibes, Château Saint-Martin & Spa em Vence, The Lanesborough London, L’Apogée Courchevel, Eden Rock- St Barths, Jumby Bay Island em Antigua, Palácio Tangará em São Paulo, The Woodward em Genebra, Hotel La Palma Capri (abertura na primavera europeia de 2022) e mais de 150 vilas e propriedades privadas em todo o mundo.

@carolina.andraus Business & Lifestyle Advisor, graduada em finanças pela FGV, mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, empreendedora, desenvolveu e vendeu diversas empresas no mercado imobiliário e um terminal portuario. Globetrotter e cidadã do mundo, já morou em Londres, Paris, Nova York, Boston, Istambul e Frankfurt. Recentemente voltou a estudar na Harvard Business School e passou a escrever sobre mulheres inspiradoras, comportamento, e viagens.