Carollina Lauriano entrega roteiro cultural para conhecer a Cidade do México
Foto: Acervo Pessoal

Curadora e pesquisadora de arte, Carollina Lauriano é uma das melhores referências quando o assunto é cultura – tanto no Brasil quanto fora. Neste ano, a curadora adjunta da 13ª Bienal do Mercosul tirou alguns dias para explorar a Cidade do México. E, para a nossa sorte, divide com a Bazaar suas descobertas, criando um roteiro incrível para os amantes de arte.

SIGA A BAZAAR NO INSTAGRAM

Veja o depoimento de Carollina na íntegra abaixo e planeje a sua viagem:

Carollina Lauriano entrega roteiro cultural para conhecer a Cidade do México
Foto: Acervo Pessoal

Chegar à Cidade do México é encontrar um local familiar a nós, brasileiros, especialmente para quem vive em São Paulo. Embora a CDMX seja extremamente cosmopolita, um dos pontos altos da cidade é que ela oferece a seus visitantes uma interessante mistura entre passado, presente e futuro.

Para os amantes da cultura, a Cidade do México é um prato cheio de opções, das mais tradicionais às contemporâneas. E embora a capital mexicana se configure como uma grande cidade global, é possível fazer muita coisa a pé, pois os bairros que concentram as melhores opções são vizinhos, o que facilita a organização da agenda.

Arte e Cultura

A Cidade do México é uma das mais interessantes culturalmente, porque ela mescla uma ideia de ancestralidade com o contemporâneo, oferecendo diversas atividades, das mais turísticas às artsy. Aqui o ideal é se programar bem, pois sobram opções para quem gosta de uma vida cultural agitada.

Uma vez na Cidade do México, é preciso reservar um dia para visitar as pirâmides de Teotihuacan. Localizadas a cerca de uma hora da capital, as construções pré-colombianas foram levantadas por povos que vieram antes dos Maias e dos Astecas e datam de, por volta, 100 a.c. É possível chegar de ônibus, a partir da rodoviária central (opção mais barata), ou por transfer particular.

De volta à Cidade do México, opções de museus não faltam para quem quer mergulhar na produção cultural do país. As opções que não podem faltar na lista são os museus de arte contemporânea Jumex e Rufino Tamayo. Ao lado do Jumex, a imponente arquitetura do museu Soumaya chama atenção e por si só já é um acontecimento. Criado para tornar pública parte da coleção do empresário mexicano Carlos Slim, e se centra muito mais no modernismo europeu.

Carollina Lauriano entrega roteiro cultural para conhecer a Cidade do México
Museo de Bellas Artes – Foto: Acervo Pessoal

Por falar em modernismo, o Museu de Bellas Artes, inaugurado em 1934 para o centenário de independência do México, abriga obras dos principais artistas mexicanos, incluindo painéis originais de Diego Rivera, Rufino Tamayo e José Clemente Orozco, além de telas de Frida Kahlo. A artista é outro capítulo à parte da cultura da cidade.

O Museu Frida Kahlo, ou Casa Azul, é o local onde a artista nasceu e residiu boa parte de sua vida e que hoje funciona como museu de preservação da história da artista, com muitos itens de arquivo e memorabilia.

O bairro de Coyoacán é um deleite para os fãs de Frida. A poucas quadras da Casa Azul também é possível visitar o Museu Casa de Leon Trotsky, local onde o revolucionário soviético viveu seus últimos dias de vida, após asilo político. Caminhando mais um pouco, chegamos na Casa Estúdio Frida Kahlo e Diego Rivera, a famosa casa gêmea, que abrigou o casal quando era insuportável viver juntos, mas a ideia de morar separados não agradava a ambos. A solução arquitetônica veio projetada pelo jovem arquiteto e amigo da família Juan O’Gorman.

Se ainda estiver pelo bairro, e com disposição para mais uma visita, a ideia é ir até o Museu Dolores Almedo, que tem um acervo composto pela coleção particular de Dolores, que garantiu a preservação de obras de Diego Rivera, Frida Kahlo (ela era muito amiga do casal), Angelina Beloff e Pablo O’Higgins. Além das obras de arte, o museu apresenta também relíquias arqueológicas e objetos da arte popular mexicana.

E por falar em museu de arte popular, a cidade guarda boas opções para quem quer se aprofundar na cultura popular do país, mas o que mais me chamou atenção foi o pequeno, mais potente, Museu de Arte Popular, localizado na região central. E a visita cultural tem que incluir o Museu Nacional de Antropologia, maior estrela da cidade. Dividido entre arqueologia e etnografia, o passeio é uma aula de história para se aproximar de como os povos pré-hispânicos, como os maias e astecas, se comportavam. Vá com tempo, porque tem muita coisa para ser vista.

Os preços dos museus variam muito. Há opções de graça, como Jumex e Soumaya, e os que têm valores bem simbólicos como Rufino Tamayo e Bellas Artes. Para os museus históricos, os valores são mais elevados e é preciso agendamento prévio pelo site, ou compra de ticket em locais específicos. Outro fator importante, é que em lugares como Casa Azul, por exemplo, você paga uma taxa a mais para fotografar o espaço, o que torna a experiência um pouco mais cara (por volta de 200 reais).

Para finalizar esse passeio, a cidade também é cheia de galerias e espaços independentes que valem a visita para entender o que há de mais pulsante acontecendo na cena contemporânea Mexicana. Na lista, não pode faltar uma conferida na veterana Kurimanzutto, nome fortíssimo na cena. House of Gaga, Galería OMR e Proyectos Moncloa foram as que mais me chamaram atenção. Por fim, vale visitar três espaços independentes e experimentais, como Arafura; com programações mais flexíveis, esses espaços se dedicam a projetos interdisciplinares, atividades educativas, conversas e residências artísticas.

Moda

A cena jovem de moda mexicana embora pequena, é bem interessante e pulsante. E é ao redor da calle Havre, em Juárez, que ela se concentra. E é na quadra entre as calles Liverpool e Marsella que encontramos as opções mais interessantes, como os dois casarões que abrigam uma série de marcas para se conhecer, como a Boyfriend Shirt, que oferece uma série de camisas desconstruídas, ou

Gastronomia

Esse tópico, inclusive, deveria estar em cultura, porque se aventurar na gastronomia mexicana é uma viagem pela cultura no país. Mas tirando a tradição, há espaço também para uma boa gastronomia contemporânea, geralmente concentrada entre os bairros de Roma, Juárez e Condessa, frequentados pela turma mais cool da Cidade do México.

Antes de seguir com a lista, duas observações importantes: como muitos restaurantes são disputados e o tamanho dos espaços por lá são diminutos, o site do Open Table é importantíssimo para garantir uma mesa na data desejada. Embora isso, o ponto positivo é que a maioria dos restaurantes tem um parklet, ou mesas na calçada, transformando a experiência. Outro ponto é que os mexicanos têm uma vida mais tardia: almoço a partir das 13h e jantar a partir das 21h.

Quando comecei a pesquisar lugares, o Contramar foi o restaurante mais indicado. E é tudo isso (e mais) do que falam. Prepare-se para a melhor experiência com frutos do mar que você vai ter na Cidade do México (e talvez na vida!). Mas já adianto, o lugar é concorrido e é melhor fazer reserva adiantada. Ainda no bairro de Roma, você pode dar uma volta na praça Rio de Janeiro, onde há várias boas opções de restaurantes, sempre cheios de pessoas jovens e muito estilosas. A minha recomendação é o Pígeon, com pratos muito bem apresentados e uma carta de drinks com ótimas opções.

Outra boa pedida são os restaurantes do grupo do restaurante Rosetta, um italiano supertradicional na cidade. Aqui eu recomendo deixar espaço para a sobremesa, pois são as melhores que comi na cidade. Já o Lardo, o Café Nin e a Panadería Rosetta são esses espaços mais dedicados aos lanches (mexicanos são loucos por um bom brunch!). Agora quem quer experimentar um restaurante de chef, a pedida é o moderninho Masala y Maíz, dos chefs Norma Listman y Saqib Keval, e que misturam ingredientes da Índia, México e leste da África.

Para quem busca uma experiência gastronômica com vista única da cidade, a minha recomendação é o Balcón Zócalo. Localizado no rooftop do Hotel Central Zócalo (que por si só já vale a visita para conferir um dos tetos de vitrais mais lindos que já vi). O restaurante, além dos pratos mais elaborados, oferece uma vista da de tirar o fôlego do Centro Histórico da Cidade do México.

Se a pressa bater, para driblar a fome eu recomendo os fast food La Casa de Toño e Orinoco, esse último com deliciosos tacos e uma divertida décor retrô, com cadeiras de metal da coca-cola e ares de açougue antigo. Mas se você quiser mesmo uma experiência um tanto quanto inusitada, o Deigo Ramen é o lugar, pois lá eu experimentei um dos melhores lámens. O restaurante funciona 24h, mas a noite é possível ver o sucesso do lugar, pela fila que se forma a partir das 19h. São apenas 22 lugares num balcão de cozinha aberta, o qual você pode conferir a confecção de cada bowl. Só isso já é um evento à parte.

Carollina Lauriano entrega roteiro cultural para conhecer a Cidade do México
Michelada com clamato – Foto: Acervo Pessoal

E para finalizar a experiência gastronômica no México, peça um Mezcal Tônica e uma Michelada com Clamato (suco de tomate temperado). Para quem é fã de cerveja, a Carta Branca é uma opção leve para acompanhar os mais variados pratos.

Arquitetura

O México é uma cidade que colocou seu nome na arquitetura mundial, por meio de nomes famosos como o de Luis Barragán. Além de sua residência oficial, que virou museu tombado como patrimônio mundial pela UNESCO, há outras 4 casas abertas para visitação mediante agendamento por e-mail. A visita guiada pelo estúdio-casa do arquiteto pode ser feita em grupo de até 6 pessoas em inglês ou espanhol e tem que ser agendada no site oficial.

Num approach mais contemporâneo, a Casa Orgánica é um deleite para os olhos. Construída em 1981, pelo arquiteto Javier Senosiain, para integrar talvez esse seja um dos lugares mais instagramáveis do mundo. Por isso, a alta procura e a recomendação de agendamento com 75 dias de antecedência, de acordo com o site oficial. Como projeto, O conceito da casa se define a partir de dois grandes espaços: um diurno e outro noturno, buscando a sensação de que no interior a pessoa adentrasse a terra, que fosse consciente da singularidade deste espaço sem perder a integração com as áreas verdes do exterior.

Carollina Lauriano entrega roteiro cultural para conhecer a Cidade do México
Praça da Revolução – Foto: Acervo Pessoal

Por fim, a ideia é sair caminhando pela cidade e observar todas as camadas que compõe a Cidade do México, dos prédios espelhados à herança colonial das grandes avenidas e praças repletas de fontes e monumentos. Aliás, a cidade é cheia deles, especialmente àqueles que mostram ao mundo a importância da Revolução Mexicana, que culminou na independência do país em 1810.