Foto: Arquivo pessoal

Por Fernanda Fehring

O Brasil não cansa de me surpreender. Apesar de ser notório por ter algumas das paisagens mais bonitas do planeta, o País parece ter sempre uma “carta na manga”, um lugar “novo”, mais bonito e especial do que todos os outros já visitados.

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E seguindo esta tendência, o destino nacional que é a “bola da vez”, que desponta e encanta atualmente, é Alter do Chão – vilarejo localizado no oeste do Pará, que tem praias de rio de uma beleza singular.

Foto: Arquivo pessoal

Na verdade, trata-se de um dos lugares mais bonitos do Brasil e que oferece experiências transformadoras aos visitantes. Um lugar belíssimo sim, mas que proporciona muito mais do que apenas o contato com uma natureza exuberante. É a imersão na cultura local e a oportunidade de conhecer comunidades com um modo de vida tão diferente, que fazem de Alter um destino único.

Foto: Fernanda Fehring

Visitar Alter é mergulhar no universo das comunidades ribeirinhas e das comunidades indígenas, é ter a chance de desvendar o mundo de quem conhece tão bem a floresta – e que tem os rios como vias principais de tráfego. É um universo tão diverso e tão rico, que é difícil absorver tudo que se vê por lá de uma tacada só. É uma viagem que continua dentro de você – sendo maturada – por muito tempo depois de voltar para casa.

Alter do Chão

 

Alter está localizada às margens do Rio Tapajós e é um distrito do município de Santarém, no Pará – apenas 34 quilômetros separam os dois locais. Abriga um pouco mais de 6.700 habitantes, e possui quilômetros e quilômetros de lindas praias de rio, de águas verdes claras. Seu mais famoso cartão postal é a Ilha do Amor, um banco de areia localizado em frente à Alter, que se transforma em uma estreita península quando as águas do Rio Tapajós começam a baixar.

Foto: Fernanda Fehring

Apesar de já ser um destino conhecido (e adorado) na região norte e nordeste há tempos, o município surgiu no radar dos viajantes do resto do Brasil (e do mundo), em 2009, quando o correspondente do jornal inglês The Guardian no Brasil, Tom Philips, elegeu as praias da região como as mais bonitas do Brasil. Sim, isso mesmo, as praias mais bonitas do Brasil. Em suas palavras: “Alter é a resposta da floresta ao Caribe”.

Foto: Arquivo pessoal

E ele tem toda a razão. As praias de Alter do Chão são algumas das mais bonitas que já visitei, não só no Brasil, mas no mundo. Com suas lindas falésias banhadas pelas águas claras do Rio Tapajós e com trechos densos de floresta amazônica, o cenário é realmente de tirar o fôlego. E são muitos e muitos quilômetros de praias completamente desertas.

Foto: Fernanda Fehring

 

Foto: Fernanda Fehring

Vale exaltar, porém, que o roteiro de praias é apenas um dos motivos que faz Alter ser tão conhecida e tão especial. As experiências que vivenciamos neste lugar de rara beleza vão desde banhos de igarapé (nascentes de rios), passeios pelos sensacionais igapós (florestas submersas), visitas às comunidades ribeirinhas, trilhas pela floresta amazônica e passeios de barco pelos rios da região. Experiências únicas, que contribuem para uma intensa imersão na natureza e na rica cultura local.

Foto: Arquivo pessoal

A pousada Vila de Alter

A pousada boutique Vila de Alter surgiu como a escolha perfeita para passar alguns dias e conhecer a região. Agendei minha estadia para setembro, um bom período para visitar Alter – entre as épocas de cheia (quando os rios estão com um maior volume de água) e seca (quando a água começa a baixar e surgem as praias e bancos de areia).

Foto: Fernanda Fehring

A pousada, inaugurada em 2016, é o projeto de vida das proprietárias Andréa Aymar e Regina Santos, que montaram um espaço acolhedor para receber seus hóspedes. Em um terreno repleto de árvores, construíram seis confortáveis bangalôs de madeira reflorestada e um restaurante, um pequeno local para massagens e uma lojinha. Alguns charmosos ambientes de estar se espalham também pela área, criando pequenos espaços para os hóspedes relaxarem.

Foto: Fernanda Fehring

Com o intuito de “abraçar” quem chega para visitar esse pedaço do paraíso, foi criado um refúgio de paz e tranquilidade, um lugar onde simplicidade e conforto dão o tom. Peças do bonito artesanato local conferem charme e autenticidade ao hotel, e nos lembram a todo instante que estamos cercados por comunidades ribeirinhas e indígenas. Vê-se por toda a parte o carinho e o cuidado com os quais tudo foi pensado, que se refletem na atmosfera aconchegante do lugar.

Foto: Fernanda Fehring

Por ser pequena, e com um número reduzido de quartos, a pousada está sempre cheia e por conta da alta demanda para hospedagem no local, é recomendado fazer reservas com bastante antecedência.

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Acomodações

 Os seis bangalôs da pousada Vila de Alter foram batizados com nomes de espécies da flora Amazônica: Inajá; Tucumã; Cumaru; Urucum; Mururé e Piquiá, o quarto no qual me hospedei.

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Foto: Fernanda Fehring

Construídos em madeira, e alguns deles inspirados nas palafitas (estilo que homenageia os ribeirinhos), os quartos têm entre 35 e 42 metros quadrados e contam com ar-condicionado, frigobar, TV a cabo, ventilador e wi-fi.  Todos são confortáveis e têm uma varanda com mesa e cadeiras, e uma rede.

Foto: Fernanda Fehring

 

Foto: Fernanda Fehring

Durante a pandemia, a Vila de Alter está seguindo os protocolos rígidos e bem estruturados do selo Safe and Clean, e serve o café da manhã e lanchinho da tarde nos bangalôs. A pousada não serve jantar.

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Foto: Fernanda Fehring

O que fazer em Alter

A lista de atividades disponíveis em Alter é extensa, e quase tudo o que se faz por lá é por meio fluvial. Os programas imperdíveis vão desde visitar o igapó da Floresta Encantada, fazer uma trilha na Floresta Nacional do Tapajós (e dar um mergulho no igarapé do Jamaraquá), até navegar o Rio Tapajós e o Rio Arapiuns e visitar as comunidades ribeirinhas, conhecer o Canal do Jari e fazer o roteiro de praias. Durante minha estadia, segui uma programação intensa. Abaixo, cada passeio que fiz por lá.

Foto: Fernanda Fehring

Floresta Encantada

Já no caminho entre o aeroporto de Santarém e Alter do Chão, fizemos uma parada no complexo da Comunidade Caramazal. O passeio pelo igapó – ou floresta submersa – da comunidade é famoso no Brasil inteiro, já que foi pauta de um programa de tv. A Floresta Encantada, como é conhecido o igapó, é de uma beleza arrebatadora e uma excelente maneira de começar a estadia em Alter. O passeio é feito em uma canoa, e tive o prazer de ter como guia o Sr Itaguary, quase uma “lenda” local.

Foto: Arquivo pessoal

O belo passeio por manacás, tiriricas e palmeiras submersas levou trinta minutos de duração e foi seguido por um almoço no restaurante do complexo. Um pirarucu delicioso me deu as boas-vindas à rica gastronomia local.

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Rio Arapiuns e suas comunidades ribeirinhas

 É difícil não se apaixonar pelo Rio Arapuins. De uma beleza única, esse afluente do Rio Tapajós é lar de muitas comunidades ribeirinhas e de belas praias. Para chegar até lá, é preciso cruzar o Rio Tapajós e no ponto exato que escolhemos para fazer a travessia, foram 11 quilômetros de uma ponta a outra – mais ou menos 1 hora de viagem de barco. Às vezes, confesso, era difícil acreditar que aquela imensidão de água era um rio e não mar aberto.

Foto: Fernanda Fehring

Nossa primeira parada pela região foi para visitar a comunidade ribeirinha Urucureá. No local vivem 60 famílias que trabalham na produção de artesanato local, feito com a palha da palmeira de tucumã. No processo, a palha é tingida com plantas regionais, que produzem cores distintas, que embelezam utensílios como vasos, fruteiras e potes, dentre outros. A técnica é passada de geração para geração e garante o sustento dos moradores do local.

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Em seguida, visitamos a comunidade Coroca, que tem o restaurante “Na Praia”, que serve almoço para os visitantes – e ainda um redário, que garante um excelente soninho pós-almoço. Na própria comunidade, há ainda a visitação de uma impressionante criação de tartarugas amazônicas e uma criação de abelhas sem ferrão, que produzem um mel de sabor cítrico. Estas atividades, iniciadas com a ajuda de um Padre Alemão em 2003, garantem o sustento das muitas famílias que habitam a comunidade.

Foto: Fernanda Fehring

Nossa última parada foi para visitar a comunidade São Marcos, que conta com 8 famílias que produzem farinha de mandioca para comercialização. A comunidade oferece também passeios pelo extraordinário igapó e tem planos para montar um restaurante no futuro.

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Ao término das visitas e já de volta para casa, paramos para um mergulho na Praia da Ponta Grande, uma das muitas faixas de areia do Rio Arapiuns, de morrer de tão bonitas e completamente desertas. Um cenário de tirar o fôlego.

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FLONA

Um dos passeios mais interessantes da região, é fazer uma trilha pela Floresta Nacional do Tapajós, ou FLONA, uma reserva de 527 mil hectares. Para tal é preciso ir até a Comunidade de Jamaraquá, que fica há 40 km de Alter (de barco ou de carro), e começar o trajeto com um guia. A trilha de 9km começa pela mata secundária (mata reflorestada) e há várias paradas para observar árvores e animais pelo caminho. O guia dá uma verdadeira aula sobre os remédios extraídos da floresta (o expectorante da floresta, o “durepox”, o biotônico e por aí vai… rs) e sobre como identificar o movimento dos animais para identificar a mudança de tempo, ou a aproximação de algum predador.

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Na parte de cima da trilha, já na mata primária (mata virgem, intocada), nos encantamos com árvores centenárias, espécies provenientes da Amazônia, como a samaúma – conhecida como “árvore da vida” e a maior árvore do FLONA, os pequiás, os paus amarelos, as seringueiras.

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A trilha é cansativa, mas extraordinária, e quem opta por completar o trajeto, é brindado com um banho no sensacional igarapé do Jamaraquá. Um dos cenários mais mágicos que encontrei por lá.

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Canal do Jari

Meu último passeio da viagem foi para conhecer o espetacular Canal do Jari, um canal fluvial de 18km de extensão, localizado no encontro das águas azuis-esverdeadas do Rio Tapajós, e das águas barrentas do Rio Amazonas. O lugar é um verdadeiro santuário ecológico, que abriga botos, muitas espécies de aves, macacos, bichos preguiças, cobras, peixes e jacarés.

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As casas dos ribeirinhos em palha, e algumas em palafitas, se espalham pelo terreno ladeando o canal, e dividem o espaço com belíssimas árvores e com o gado, que vem para a região para pastar o rico capim da área e ganhar peso.

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E é nesse cenário encantador, que se encontra o jardim de vitórias régias de Dona Dulce, famosa na região por ter começado com a plantação das enormes plantas para enfeitar sua casa, e ter transformado o lugar em atração turística. É uma mulher admirável e um dos personagens mais queridos de Alter.

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Foto: Fernanda Fehring

Uma visita ao seu jardim inclui degustação de pratos preparados com as vitórias-régias, um passeio de canoa pelo jardim e a chance de conhecer Fortunato, o lindo filhote de tucano araçari (que foi achado abandonado quando tinha 1 mês de vida) e virou mascote do lugar. O fantástico Jardim de Dona Dulce é parada obrigatória para quem visita Alter.

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Piracaia

Na minha última noite na cidade, fui brindada com uma surpresa: uma Piracaia com direito à uma bela apresentação de carimbó. A Piracaia é uma pequena celebração montada na praia, com velas espalhadas e com um uma mesa montada na areia para degustação de peixes na brasa.

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É um costume que vem da tribo Borari (povo indígena natural da região), e o termo “Piracaia”, de origem Tupi, quer dizer peixe (pirá) no fogo (kaía).  Foi uma noite adorável e uma excelente maneira de conhecer um pouco mais das tradições da cultura paraense.

Foto: Arquivo pessoal

Quando ir

Alter é um destino que pode ser visitado durante o ano todo, porém, é um local com dois períodos bem definidos e bem distintos.  O “Tempo das Águas”, como é conhecido o período de cheia, quando as águas dos rios sobem, vai de fevereiro a junho, e é quando a natureza do local fica mais exuberante. É a época ideal para fazer os passeios pelos incríveis igapós, ou florestas submersas.

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Quando as águas dos rios começam a baixar, (geralmente) a partir de julho ou agosto, até janeiro, surgem os grandes bancos de areia e as praias da região, que atingem sua beleza máxima nesta época do ano.

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Comentários

Antes de viajar, ouvi alguns relatos sobre Alter do Chão – todos positivos – e já fui inclinada a gostar do lugar. Mas a verdade é que nada, mas nada mesmo, me preparou para o que vi, e vivi por lá.

Foto: Arquivo pessoal

Visitar Alter é conhecer nosso país um pouco mais a fundo, aprender com o modo de vida das comunidades que por lá vivem e entender o quão importante é proteger nossas floresta e rios. É um destino completo que atende quem quer apenas viajar para descansar, e quem quer fazer uma imersão na cultura da região. É, sem dúvida, uma das viagens mais incríveis que já fiz no Brasil.

Foto: Fernanda Fehring

O povo de Alter leva o turismo muito a sério e recebe o viajante com profissionalismo e competência. Minha estadia e experiências em Alter do Chão foram a convite da Pousada Vila de Alter e da Poraquê Turismo, e quem agradeço pela hospitalidade e  atendimento recebidos.

Pousada Vila de Alter, Alter do Chão, Pará

www.viladealter.com.br
@viladealter

Poraquê Turismo

Tel: (93) 9933-3005
@poraqueturismo

@fernandafehring é formada em Hotelaria, Gastronomia e Turismo pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, e em Cozinha pela École Le Cordon Bleu, de Paris. Foi expatriada por 18 anos, morando em países como Inglaterra, Alemanha, China, França e África do Sul. Mas é no Rio de Janeiro que Fernanda se sente mais feliz. Formada pela McQueens de Londres, Fernanda teve um ateliê de flores durante seis anos no Rio. Trabalha atualmente como curadora de viagens e colunista, e sua grande paixão são as viagens de natureza e de isolamento. País preferido no mundo? África do Sul. Viagem dos sonhos? Alasca.