Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Fehring

Por Fernanda Fehring

Começamos nossa roadtrip pela Rota das Emoções com um carro alugado no aeroporto de São Luís. Ao ouvir sobre nossos planos, a atendente da locadora, sabiamente, nos aconselhou a trocar o carro que havíamos escolhido por um modelo mais “robusto”. As estradas que ligavam a rota entre os Lençóis Maranhenses, no Maranhão, o Delta do Parnaíba, no Piauí, e Jericoacoara, no Ceará, poderiam nos “pregar alguma peça”, disse ela. Conselho aceito e seguimos caminho para uma das viagens mais lindas que já fiz pelo Brasil – e pelo mundo.

Foto: Fernanda Fehring

Lençóis Maranhenses, Maranhão

Os Lençóis Maranhenses, nossa primeira parada, são magníficos de verdade. As fotos que vemos na mídia não fazem jus à beleza arrebatadora do lugar, que virou destino-desejo de 9 entre 10 viajantes que conheço.

Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Fehring

As duas primeiras paradas da rota, Santo Amaro e Barreirinhas, são apenas portas de entrada para o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses e nada mais do que isso. Lugares para dormir e pontos de partidas para os passeios para o parque. Foi Atins, o pequeno e tranquilo vilarejo no final do Rio Preguiças, que me fez suspirar. É Atins, a verdadeira joia dos Lençóis Maranhenses.

Nossa estadia nos Lençóis

Já estávamos havia 3 dias – de muita chuva – nos Lençóis e, na manhã da nossa partida para Atins, o sol finalmente deu as caras. Foi a oportunidade que precisávamos para fazer o extraordinário voo panorâmico sobre os Lençóis, um dos cenários mais bonitos que já vi em minhas andanças. As lagoas, impossivelmente bonitas, são mais de 5.000, e a área total do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses é de 1.550 km quadrados, maior do que a cidade de São Paulo.

Foto: Fernanda Fehring

Uma “voadeira”, ou lancha rápida, nos levou de Barreirinhas pelo Rio Preguiças acima em um lindo percurso recheado de palmeiras de açaí, buritis e manguezais. A chegada ao “porto” de Atins, uma praia de rio com uma casa de pescador abandonada e algumas canoas igualmente sem dono, nos deu o sinal de que aquele era um lugar especial, rústico e meio sonolento. Exatamente o lugar que estava procurando para me estabelecer e explorar aquela imensidão de dunas brancas e lagoas azuis turquesa.

Uma “jardineira”, – um Toyota 4×4 adaptado para levar passageiros na parte de trás, o veículo mais usado por aquelas bandas – já nos aguardava para fazer o transfer para o hotel.

Foto: Fernanda Fehring

Cruzamos o vilarejo de Atins e passamos por enormes “poças”, que indicavam que os lençóis freáticos já alagavam a cidade – e as dunas. Ótimo sinal! Ao contrário do que muitos pensam, as lagoas se enchem por baixo, quando os lençóis subterrâneos transbordam durante a época de chuvas e as dunas se enchem de água.

Nosso hotel em Atins – o La Ferme de Georges

Nosso hotel escolhido em Atins foi o charmoso La Ferme de Georges, de donos franceses, mas com estilo bem brasileiro em seus 7 chalés espalhados por uma área de 2 hectares. Seus telhados de palha e paredes brancas casam perfeitamente com um design minimalista em seu interior, no melhor estilo tropical chic. O arquiteto Yorick Piette abusou de madeiras locais como tatajuba, canela de velho e pau d’arco e criou ambientes ultraventilados para aproveitar a brisa local (já que os chalés não possuem ar-condicionado).

Foto: Fernanda Fehring

O hotel conta ainda com um ótimo restaurante, um simpático bar e uma bela piscina para os dias de dolce far niente. E ainda uma horta orgânica cultivada na própria propriedade, que fornece produtos frescos para a cozinha do hotel. O serviço é atencioso e simpático e a gama de atividades oferecida é excelente. O hotel conta com os serviços dos melhores guias da região e é recomendável agendar todos os passeios através de sua equipe.

Foto: Fernanda Fehring

 

Foto: Fernanda Fehring

Durante nossa estadia, fizemos um extraordinário passeio de dia inteiro, que incluía um míni trekking pelas lagoas, almoço no Restaurante do Sr. Antonio e pôr do sol nas dunas. Um dia que ficará na memória como um dos mais bonitos da minha vida.

Foto: Fernanda Fehring

 

Foto: Fernanda Fehring

Atins é uma cidade que “fisga” o visitante de uma maneira surpreendente. Confesso que sua rusticidade me impressionou ao chegar por lá. Mas sua beleza extraordinária, sua simplicidade e, acima de tudo, a doçura das pessoas tocou meu coração. Às vezes, me pego pensando nos dias que passei nesse vilarejo fincado entre o rio, o mar e os Lençóis Maranhenses – e em como esse lugar é um dos mais bonitos que já visitei. E na ironia que é rodarmos o mundo em busca sempre do lugar mais lindo, e que precisava acontecer uma pandemia para nos forçar a descobrir que este sempre esteve no quintal de nossa casa.

Foto: Fernanda Fehring

 

Foto: Fernanda Fehring

Delta do Parnaíba, Piauí

Após seis noites nos Lençóis, era hora de seguir viagem para nosso próximo destino, a cidade de Parnaíba, no Piauí. A viagem de três horas, começou com o mesmo percurso (de volta) pelo Rio Preguiças, mas debaixo de um “toró” daqueles. Junho ainda é parte do período de chuvas, informação preciosa que descobrimos in loco, rs. Fora a chuvarada, o resto da viagem ocorreu sem sustos por uma estrada pouco movimentada (salvo uma briga de jegues no meio da estrada) e com alguns povoados pelo caminho. A fronteira entre os dois estados, Maranhão e Piauí, é marcada por uma ponte e a surpreendente diferença entre as condições de suas autoestradas. Enquanto o lado maranhense era um pouco esquecido, o lado piauiense era impecável, sem buracos e com uma pintura tinindo de nova.

Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Fehring

Parnaíba também foi mais uma boa surpresa. A cidade costeira, a segunda maior do Estado, é uma graça, bem cuidada e limpíssima. Conhecida como a “Capital do Delta”, a cidade é um hub de ótimas universidades e tem grande valor histórico, com vários monumentos tombados pelo Iphan. Na região do Porto das Barcas, uma região turística recém-reformada, encontramos alguns deles. O lugar é lindo, com antigos armazéns transformados em espaços para lojinhas de artesanato e restaurantes. Um charme só.

Nosso hotel em Parnaíba – Casa de Santo Antônio

Quando comecei a pesquisar hotéis em Parnaíba e me deparei com o charmoso hotel Casa de Santo Antônio, sabia que era o único lugar que poderia me hospedar na cidade. A casa, um imóvel tombado do início do século passado, tem 22 suítes e algumas salas de estar e biblioteca de pé direito altíssimo. A propriedade conta ainda com piscina, jacuzzi, academia e spa. Os quartos são todos equipados com ar- condicionado, TV e wi-fi. E o restaurante é uma boa opção para jantar, com simpáticas mesas à beira da piscina. Pelo lado sustentável, o hotel é todo equipado com placas de energia solar.

Foto: Fernanda Fehring

O Delta do Parnaíba e a Revoada dos Guarás

Sou apaixonada por rios e cachoeiras, isso é fato. Tanto que uma amiga uma vez me falou que eu deveria ser “filha de Oxum”, um orixá feminino que reina sobre as águas doces, rios e cachoeiras. Como não entendo muito do assunto, não dei muita bola na hora, mas durante minha viagem pelo Rio Parnaíba, nosso diálogo me veio em mente e tive certeza de que ela estava certa. Pois essa viagem até o Delta do Parnaíba (e a do Rio Preguiças, no Maranhão) foram alguns dos pontos altos dessa viagem pela Rota das Emoções. A imensidão das águas, os afluentes do Rio Parnaíba, os manguezais e a beleza estupenda daquele lugar me impressionaram.

Foto: Fernanda Fehring

Saímos de voadeira, às 15h, do Porto dos Tatus, em Parnaíba, rumo à Baía do Caju e uma parada no Morro do Meio para uma caminhada pelas gigantescas dunas e um mergulho no rio. De lá, seguimos para a Ilha dos Guarás, uma pequena ilhota exatamente no meio do Delta, que é palco da revoada desses pássaros lindos, de plumagem vermelha, que chegam aos milhares para pernoitar nesse exato ponto.

Foto: Fernanda Fehring

Não sei se há uma hierarquia entre eles, mas o fato é que somente quando um primeiro pássaro pousa em uma das árvores da ilhota é que o resto segue para lá e é aí que acontece a revoada. Enquanto o primeiro não se aventura, os muitos pássaros que chegam ao Delta, esperam, pacientemente, sentados nas árvores ao redor. É simplesmente incrível.

Foto: Fernanda Fehring

Nosso guia nos ensinou que há muito os guarás descobriram que aquele era um lugar seguro para pernoite por não haver predadores. Consequentemente, voltam para lá todo o final de tarde, por volta de 17h30, criando esse magnífico ritual.

Foto: Divulgação/Chico Rasta

Fomos brindados ainda com um belo pôr do sol na volta pra casa pelo Rio Parnaíba. A maneira perfeita de fechar uma tarde na qual a natureza reinou absoluta.

Foto: Fernanda Fehring

Jericoacora, Ceará

Ficamos apenas uma noite no Piauí pois nosso tempo era curto, mas pegamos a estrada em direção ao Ceará já sonhando em voltar para conhecer a charmosa Barra Grande.

De Parnaíba até Jijoca de Jericoacoara foram 3 horas e 30 minutos de um cenário interessante. Mais árido do que os outros dois trechos, mas uma viagem tranquila e sem sobressaltos. Em Jijoca nos despedimos do nosso carro e pegamos, mais uma vez, uma jardineira, que nos levou até Jeri. Já na primeira tarde, um pôr do sol arrebatador nos deu as boas-vindas. Finalmente, chegamos à nossa última parada e estávamos felizes em visitar o famoso vilarejo pela primeira vez.

Foto: Fernanda Fehring

Mas Jeri não era exatamente o que eu esperava encontrar. A vila é muito mais movimentada e cheia do que imaginava. Com muitos restaurantes e um centrinho bem lotado, Jericoacoara não é o típico lugar para descansar (exatamente o que queria fazer depois de 10 dias de estrada). O Preá, ali pertinho, muito mais calmo e tranquilo, teria sido a opção perfeita para alguns dias de relaxamento total.

Nosso hotel em Jeri – Vila Kalango

Seguindo a recomendação de uma amiga, nossa escolha em Jeri foi o hotel Vila Kalango e que hotel simpático! Colado à Duna do Pôr do Sol e de frente para a praia, o hotel foi criado há 15 anos por amigos windsurfistas que se apaixonaram por esse canto da praia e pelos ventos do Ceará. Em um jardim repleto de coqueiros e cajueiros, se encontram as charmosas suítes. Algumas em palafitas, com redes nas varandas e vista para a praia. Em sua construção, materiais que homenageiam a região foram usados, como as madeiras cumaru e maçaranduba e até cascas de côcos do jardim.

Foto: Fernanda Fehring

A hotelaria da Vila Kalango é excelente, a melhor da nossa viagem. A equipe era profissional e atenciosa e os procedimentos de segurança contra a Covid-19, seguindo a cartilha do selo Safe & Clean, foram exemplares. O restaurante também era gostoso e o serviço muito simpático. Os quartos eram confortáveis e traziam “mimos” que adorei, como máscaras para dormir, lava-pés e docinhos deixados na porta da suíte todas as noites.

Descobri ainda que o Vila Kalango é dos mesmos donos do lindo hotel Rancho do Peixe, no Preá, a 30 minutos de carro dali, e o hotel oferece um transfer para que os hóspedes possam passar o dia por lá. Aproveitamos essa gentil oferta e curtimos um pouco o lugar, a meca dos kitesurfistas de todo o Brasil.

Foto: Fernanda Fehring

 

Foto: Fernanda Fehring

Voltando para casa

Conseguimos um voo de volta para casa saindo do aeroporto de Cruz, ao lado de Jeri, uma excelente opção para quem não quer pegar 4 horas de estrada até Fortaleza. O caminho para o aeroporto deve ser o mais bonito do mundo, pela praia, que nos faz questionar se vamos mesmo embarcar ou fixar residência ali pra sempre.

Foto: Fernanda Fehring

Foram dez dias de felicidade pura desbravando uma parte tão bonita desse País incrível que é o Brasil. Os Lençóis Maranhenses, a estrela absoluta da viagem, já faz parte da lista dos top 3 lugares mais bonitas que já visitei, com Namíbia e Patagônia. Uma parada obrigatória para quem (como eu) ama viagens de natureza.

Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Fehring

Obrigada, Maranhão, Piauí e Ceará por dias de sonho. Voltarei em muito, muito breve!

Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Fehring

 

Foto: Arquivo pessoal/Fernanda Fehring

Ficha técnica da viagem

Atins – Hotel La Ferme de Georges

@lafermedegeorges

Parnaíba – Casa de Santo Antonio

@hotelboutiquecasasantoantonio

Jeri – Vila Kalango

@vilakalango

@fernandafehring é formada em Hotelaria, Gastronomia e Turismo pela Universidade de Surrey, na Inglaterra, e em Cozinha pela École Le Cordon Bleu, de Paris. Foi expatriada por 18 anos, morando em países como Inglaterra, Alemanha, China, França e África do Sul. Mas é no Rio de Janeiro que Fernanda se sente mais feliz. Formada pela McQueens de Londres, Fernanda teve um ateliê de flores durante seis anos no Rio. Trabalha atualmente como curadora de viagens e colunista, e sua grande paixão são as viagens de natureza e de isolamento. País preferido no mundo? África do Sul. Viagem dos sonhos? Alasca.