Hotel du Cap-Eden-Roc: 150 anos de glamour na Riviera – Foto: Divulgação

“Entre Marselha e a fronteira italiana, na agradável costa mediterrânea, existe um hotel de luxo com muros cor de rosa. Palmeiras elegantes abanam a fachada aquecida pelo sol, em frente à qual se estende uma pequena praia cintilante. Recentemente, o local tornou-se um ponto de encontro de pessoas elegantes (tradução livre) “, Francis Scott Fitzgerald (Tender is the night, 1934).

Com esse parágrafo, o célebre escritor americano eternizou a beleza atemporal do Cap-Eden-Roc, situado ao longo do Cap d’Antibes, na Côte d’Azur. Esse hotel mítico que completa 150 anos, tem muita história para contar, como vocês podem imaginar. Como protagonistas, atores de Hollywood, reis, ministros, escritores, marajás, condes e condessas, presidentes, artistas… A lista é longa e seleta, mas nada impossível para um palácio cinco estrelas francês, sinônimo de sofisticação e exclusividade. A Bazaar, convidada para visitar o hotel logo após sua reabertura em agosto desse ano, após nove meses fechado para renovação, conta a experiência vivida em um dos hotéis mais luxuosos do mundo.

Para começar, o local adotou as medidas necessárias contra a propagação da Covid-19. Um controle com termômetro é feito com todos os clientes, sendo também obrigatório o uso de mascaras em todos os ambientes comuns. Mas isso não impediu o vai e vem dos chiques clientes americanos, ingleses, belgas, alemães, italianos e franceses, que ja são habitués desse paraíso há varias gerações. Para trazer novidades para esses clientes endinheirados, uma renovação trouxe novos ambientes ao hotel, que incluiu o piano bar La Rotonde e os restaurantes The Eden-Roc, Eden-Roc Grill e Louroc.

Hotel du Cap-Eden-Roc: 150 anos de glamour na Riviera – Foto: Divulgação

As reformas foram pilotadas pela arquiteta brasileira Patricia Anastassiadis, ela mesma uma habitué do local. “Tenho uma história de memória afetiva com a Riviera Francesa. Minha família e eu costumávamos visitar a região porque meu tio morava perto de Cap d’Antibes “, conta Patricia. O foco principal da arquiteta foi fornecer um visual contemporâneo aos ambientes, criando uma continuação do diálogo iniciado pelos arquitetos e designers anteriores. Cada um deixou sua marca, que ainda é visível tantos anos depois. “O passado é muito presente no Hotel du Cap Eden Roc e essa é sua grande beleza. Nosso objetivo era dialogar com estas memórias. Vejo o projeto como uma homenagem à abundância intelectual da história do hotel, que é tão representativa quanto a arquitetura do próprio edifício”, diz. “Desenvolvemos a arqueologia do presente cavando nas lembranças de um passado que é muito vivo em cada canto da propriedade”, conta. “Meu maior desafio foi respeitar e valorizar essa história, as memórias afetivas dos hóspedes a tradição do hotel”, afirma a arquiteta.

Louroc, hotel gastronômico comandado pelo chef francês Éric Frechon – Foto: Divulgação

Tanto que o Louroc, hotel gastronômico comandado pelo chef francês Éric Frechon, detentor de três estrelas no Guia Michelin, além de Arnaud Poëtte e Sébastien Broda, reflete très bien essa memória afetiva com toques de modernidade. Patricia manteve os arcos e o pódio originais, criando um layout contemporâneo com novas peças e materiais. “A paleta de cores tem tons de azul e coral e fazem referência ao mar e à luz alaranjada que invade o ambiente durante o pôr do sol”, explica Patricia. Todo o mobiliário foi pensado exclusivamente para o projeto: o sofá Riviera, a cadeira Roc e o aparador Audrey são algumas das peças sob medida projetadas para o restaurante. Parte das paredes é revestida com painéis de madeira canelado que dão um toque sofisticado à área, ao mesmo tempo que remetem às ondas do mar. Para complementar, a nova louça do restaurante, em cerâmica em tons de azul, foi feita sob medida por uma artista local, Agnès Sandahl.

Falando dos pratos…O que dizer? Tudo no Louroc faz parte de uma dança perfeitamente sincronizada pelo maître, garçons e assistentes. Sorrisos, informações na ponta da língua, rapidez. Desde a entrada até o digestif, o serviço é perfeito. No menu, produtos locais e da estação: o peixe é trazido todos as manhãs por pescadores locais, as verduras e legumes vêm da horta dentro do próprio domínio, os limões vêm de Menton, cultivados por Mathilde Garnier nos Vergers de Baous, as flores de abobrinha de Jean-Charles Orso, os queijos de cabra da família Monteiro… Um espetáculo de frescor e de sustentabilidade: nenhum produto viaja horas antes de chega no Cap. Sela de cordeiro, alcachofra violeta da Provença, legumes locais recheados, soufflé de licor de sabugueiro, tudo aqui é de comer ajoelhado, rezando, mas de olhos bem abertos para não perder o espetáculo do pôr do sol.

Mas nem tudo no Cap é gastronomia e design: aqui, a natureza é abundante e generosa. E nada melhor do que os famosos “cabanons”, cabanas instaladas em rochedos de frente para o mar, um luxo absoluto. Construídas na década de 1930, as 33 cabanas VIPS oferecem vista para o Mediterrâneo e a sombra dos majestosos pinheiros de Alepo. Degraus instalados à beira mar são um deleite para os grandes e pequenos : quem nunca sonhou em ter sua próprio mar para chamar de seu? Mas para quem prefere piscina, o Cap oferece uma das mais lindas do pedaço: preenchida com água do mar e dentro de um rochedo. Nada mal, não?

Para quem quer desbravar o parque com nove hectares de pinheiro de Alepo em torno do hotel, irá encontrar quadras de tênis, spa e clube fitness. Kids-friendly, as crianças são bem-vindas em qualquer local do hotel, que prevê passatempos para elas até no restaurante gastronômico Louroc. Para dormir, os 118 quartos e suítes do hotel são localizados em três locais diferentes: no Hôtel du Cap, correspondente à histórica Villa Soleil, no pavilhão Eden-Roc, com vista para o Mar Mediterrâneo ou na residência Les Deux Fontaines, além de duas vilas privadas.

Sempre na moda, o Cap-Eden-Roc é o sonho dourado de muita gente, que reserva seu quarto um ano antes da alta temporada. Parece que quem entra no Cap, não tem vontade de sair. Nem pelos próximos 150 anos.

O começo do mito

Hotel du Cap-Eden-Roc: 150 anos de glamour na Riviera – Foto: Divulgação

Tudo começou em 1863, quando Hyppolite de Villemessant, fundador do jornal Figaro teve a ideia de criar um retiro para artistas e intelectuais no alto do rochedo onde se localiza hoje o hotel. Sem meios para financiar seu sonho, abandona o projeto. Até que um antigo coronel do exercito russo, o Conde Paul de Fersen, cria, em 1863, uma sociedade mista de 100 proprietários do local. Junta-se a ele um inglês, James Close, que compra 17 mil metros quadrados de terreno. Os dois morrem de tuberculose. É a vez de Alexis de Pletscheyeff, cunhado de Paul, assumir o negócio. Até que em 1870 é criado o Grand Hotel du Cap, em estilo napoleônico.

A partir daí, o mito se forma. Em 1900, o local começa a chamar a atenção de uma clientela luxuosa. Nessa época, era de praxe visitar a Riviera Francesa durante no inverno, mas a presença do Cap na região possibilitou a mudança de comportamento dos clientes, que agora preferiam aproveitar a estação mais quente do ano no hotel. George Bernard Shaw, Anatole France, Gérald e Sara Murphy, o conde e a condessa de Beaumont, Picasso, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Marc Chagall, Annabella, o duque a duquesa de Windsor, Marlene Dietrich, entre tantos outros, se bronzeiam na piscina com água de mar construída no rochedo mais exclusivo do Cap d’Antibes. Uma história interessante: Picasso teria desenhado o menu do restaurante em troca apenas de tinta, papel e uma mesa longe da agitação…

Em 1969, Rudolf-August e Maja Oetker adquirem o hotel, fazendo parte até hoje do grupo hoteleiro Oetker. Atualmente, o local é reduto de gente como Angelina Jolie, Justin Timberlake, Robert de Niro, Lars von Trier, Bruce Willis, entre tantas outras estrelas.