(Foto: Nic Fialdini)
(Foto: Nic Fialdini)

Por Alessandra Forbes

Desde que o mundo é mundo, há quem adore passear por mercados de comida. As capitais de turismo todas os têm entre suas principais atrações, geralmente ao ar livre, com barraquinhas vendendo mil coisas que dão vontade de levar na mala, ou comidas para comer lá mesmo. Lisboa tem o Mercado da Ribeira. Nova York, a Union Square, praça onde acontece a feira mais bacana da cidade, e onde fica o mercado Whole Foods. Londres, o Spittalfields e o Borough Market. A lista segue. No Brasil, sempre sentimos falta de mercados incríveis que pudessem ser recomendados como passeio de boca cheia. Entre as poucas exceções está a incrivelmente popular Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Esta começou modesta e mambembe, em 1945, e cresceu tanto que, em 2003, mudou-se para um pavilhão com cara de estádio esportivo, no bairro de mesmo nome, e funciona de terça a domingo. Tudo o que o Nordeste tem de melhor está ali: rendas, redes, repentistas, cachaças, farinhas e comidas típicas. A carne-de-sol com macaxeira da Barraca da Chiquita é famosa, mas apenas uma entre mil e uma opções  de pratos. É uma alegre bagunça de cores e sabores bem nordestinos. Desde que se mudou para o espaço novo, a feira virou atração turística e ficou muito mais arrumada”, conta Marcio Oliveira, carioca e habitué. “Almoçar lá virou o programa de sábados e domingos para as pessoas da zona sul.” Cada ponta da feira tem um palco para shows de forró e uma espécie de praça de alimentação. “Onde você parar ali, vai comer bem e barato.”

Em São Paulo, o que mais se aproximaria disso é o Mercadão, no Centro, com suas lojas no térreo e restaurantes no mezanino. Muita gente vai lá para comer o famoso sanduíche de mortadela. Os pastéis, grandões como os de feira, deliciosos, deveriam ter a mesma fama. É impressionante o tamanho do espaço, com pé-direito altíssimo e banhado pela luz que perfura os vitrais coloridos (são 72 vitrais no total, assinados pelo russo Conrado Sorgenicht Filho). Daria para perder um dia inteiro visitando as bancas – não há lugar melhor na cidade para comprar peixes frescos, incluindo bacalhau, embutidos e conservas, por exemplo.

Em maio, o Mercadão ganhou um concorrente de peso, inaugurado na Vila Olímpia. Seu exato oposto em estilo e proposta, o Eataly, com forte sotaque italiano e um oceano de prateleiras reluzentes, perde em tradição e quantidade de produtos – mas ganha em animação, praticidade e beleza. Filial da famosa rede de megastores gastronômicas fundada e sediada em Turim, com o celebchef Mario Batali entre os sócios-proprietários, o Eataly daqui segue os moldes da matriz. Abriga sob o mesmo teto vários restaurantes casuais entre as gôndolas e os balcões refrigerados, vendendo de livros a cebolas, de focaccias a vinhos. Foi só abrir e virou, instantaneamente, programa favorito de muita gente: recebe 7,5 mil pessoas por dia, em média, e costuma ter fila para entrar! O restaurante que vem causando maior furor é o especializado em pizza (assada em dois lindos fornos a lenha dourados) e massas (algumas feitas ali mesmo, na hora e na frente do cliente). Mas há um de carnes, outro de peixes, o Brace, de grelhados, uma enoteca e assim por diante. Outro hit? O corner da Nutella, servindo crepes recheadas. Cafés, há dois: o da Lavazza, além dos espressos e machiattos, serve pequenas diversões, como o “caviar” de café desenvolvido pelo famoso chef catalão Ferran Adrià, e o pecaminoso Mokaccino, com grossa camada de creme por cima. Fica ao lado da revistaria e livraria, outro plus que tem o Eataly.

A voracidade com a qual os paulistanos baixaram nessa Disneylândia foodie mostra que há uma demanda reprimida por esse tipo de passeio. Virá em boa hora, portanto, a revitalização do Mercado de Pinheiros, que funciona em seu atual endereço desde 1971 e tem tudo para virar nossa versão do Spittalfields. A prefeitura já liberou a verba para reformar o espaço – inclusive o deck com mesas ao ar livre. Assim que concluírem as obras, será a vez de o chef Alex Atala (em parceria com sua ONG, Instituto Atá) transformar cinco dos 39 boxes em lojinhas especializadas em diferentes biomas do país: Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado etc. A vontade dele é “virar o lugar de ponta-cabeça”.

Um dos boxes será tocado pelo chef Rodrigo Oliveira (do Mocotó), e, além de vender vários produtos nordestinos, servirá também pratos quentes para comer ali. Será a segunda ótima opção de almoço no mercado, já que o chef boliviano Checho Gonzalez, o pioneiro, tem ali sua concorrida Comedoria Gonzalez, servindo ceviches, empanadas e costelinhas assadas, entre outras especialidades latinas.

Checho organizava, de vez em quando, feiras gastronômicas no espaço, chamadas O Mercado, em parceria com o chef Henrique Fogaça, do restaurante Sal. Feirinhas como essa, aliás, andam proliferando e ajudam, tanto quanto os mercados, a popularizar a ideia da gastronomia como divertimento. “Essas feiras inspiram-se no Smorgasburg, do Brooklyn, da qual participei no ano  passado. A única diferença é que não têm vista para o skyline de Nova York”, brinca o chef Carlos Bertolazzi, estrela do programa Cozinha sob Pressão, do SBT. Para ele, feirinhas gastronômicas e os programas na TV como o dele incentivam cada vez mais gente em São Paulo e no Rio a gostar de comer e comprar comidas. “A gente sabia que o paulistano adora passear e comer em mercados, mas, até pouco tempo atrás, só pensava no Mercadão”, diz. “Que bom, por exemplo, que o Mercado de Pinheiros, que estava abandonado, agora tem uma oferta de comida legal.” Infelizmente, O Mercado irá acabar, com uma derradeira edição em julho. Em compensação, daqui para a frente,  ao invés de tocar a feirinha, o chef Gonzalez Checho fará jantares mensais com chefs da nova geração em sua Comedoria – o que significa que o mercado abrirá à noite nessas datas. Em julho, o convidado é o chef amador Leo Gonçalves, publicitário que adora cozinhar.

Quem sabe, com essas iniciativas, o Mercado de Pinheiros realize o potencial que tanta gente diz que ele tem. Enquanto isso, quem busca passar um dia comendo e comprando comidinhas em São Paulo tem de escolher entre o velho clássico no Centro e a novidade concorridíssima que é o Eataly (com disposição para enfrentar filas e multidões). Mas é só questão de tempo para ampliarem-se as opções. “A gastronomia está na moda e foi democratizada”, diz Bertolazzi. Ele prevê a chegada de um boom que, a meu ver, já está aí, plenamente palpável.