Paula Ferber descreve jornada às margens do Rio São Francisco

A designer de acessórios encontra artesãos que inspiram suas coleções e faz a curadoria de peças para sua linha "Casa"

by redação bazaar
 Paula na melhor vibe nordestina - Foto: Divulgação

Paula na melhor vibe nordestina – Foto: Divulgação

Por Paula Ferber

Esta viagem que já foi feita tantas vezes é inspiradora. De Aracaju, capital de Sergipe, sigo em direção a Ilha do Ferro, povoado do município de Pão de Açúcar, já em pleno sertão. Passo por estradas acompanhando, pela paisagem, as diversas nuances do bioma local, da Zona da Mata à Caatinga, chegando à vila ribeirinha onde o sertão é mais próspero. Tenho uma casa ali há 14 anos, com vista linda para o Rio São Francisco, cultura e silêncio.

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Comecei a me relacionar com os artesãos locais, que eram poucos, o seu Fernando, o Aberaldo e a Cooperativa de “Bordado de Boa Noite”. Vieram outros inspirados por estes e o lugar foi virando uma grande galeria a céu aberto. Sigo pelas margens do Rio São Francisco em direção ao sertão de Pernambuco para mergulhar no mundo da selaria, passando por Garanhuns até Cachoeirinha, cidade voltada para o trabalho de artefatos de couro e ferragens para selaria.

Cabeça de boi por Dalton Costa, da Galeria Karandash, em Maceió - Foto: Divulgação

Cabeça de boi por Dalton Costa, da Galeria Karandash, em Maceió – Foto: Divulgação

Toda quinta-feira, Cachoeirinha recebe visitantes da região, de outros estados e até de fora do País, com uma feira na qual artesãos e lojistas se unem oferecendo o que existe de melhor em trabalho artesanal em couro, trazendo uma identidade muito particular nas misturas de técnicas e cores. Lá encontro o ambiente perfeito para a minha pesquisa. O roteiro termina em Maceió, mais especificamente, na Galeria Karandash. Do casal Maria Amélia Vieira e Dalton Campos, artistas contemporâneos, o espaço é um grande expoente da arte popular.

COMER E DORMIR
É importante frisar que este é um roteiro de viagem para aventureiros, curiosos culturais e que gostam do Brasil profundo, da arte popular (naïf). O luxo está na autenticidade. No caminho de Aracaju para Ilha do Ferro, a doceira Dona Nena é parada obrigatória. A vila tem apenas um restaurante, o Flor de Mandacaru, que fica na rua principal. Alguns artistas recebem pessoas e servem almoço; uns cobram, outros não.

O lanche da noite, costume local, é muito bom: queijo coalho, pão, macaxeira, carne seca, cuscuz, leite, café, ovos de capoeira, manteiga de garrafa. Os principais são Vana e Aberaldo, que também têm uma pequena pousada, e Regiânia, que é filha do famoso seu Fernando e esposa de Valmir, um excelente artesão de madeira.

Em Pão de Açúcar, cidade maior, ao lado de Ilha do Ferro, há o Bar do Jacó, que tem reunião de músicos locais que tocam forró de raiz toda segunda-feira. E, na mesma rua do bar, o Restaurante do Madureira serve comida gostosa, e o dono é um ótimo anfitrião. A visita à feira de Pão de Açúcar é um programa antropológico imperdível, além de ser maravilhoso para comprar frutas orgânicas, queijos e artigos de couro feitos na região. Lá há ainda fumo de corda e vários temperos.

CURADORA DE TALENTOS

BETO SELEIRO
De Pão de Açúcar, é um mestre da selaria que estendeu sua técnica para peças de mobiliário, em uma pequena loja no município.

CÍCERO ALVES DOS SANTOS
Conhecido como “Véio”, vive nos arredores de Nossa Senhora da Glória (Sergipe) e é criador da arte popular erudita por meio de esculturas em madeira.

JOSÉ PETRÔNIO FARIAS DOS ANJOS

Peça da série Habitando o Outro, produzida à beira do Rio São Francisco, por José Petrônio e Maria Amélia Vieira - Foto: Divulgação

Peça da série Habitando o Outro, produzida à beira do Rio São Francisco, por José Petrônio e Maria Amélia Vieira – Foto: Divulgação

No sítio Estrelo, exibe um mundo imaginário de criaturas de bocas enormes e olhos arregalados. Em parceria com a ceramista Maria Amélia Vieira, criou a série de peças “Habitando o Outro”, produzida à beira do Rio São Francisco.

YANG
Filho de Petrônio, também se dedica à escultura: bonecos fininhos, quase bailarinos.

ABERALDO SANTOS COSTA LIMA
Um dos escultores populares em madeira mais prestigiados do País, com seus pássaros e bonecos. Mora em Ilha do Ferro.

DEDÉ

Banco Barco de Dedé - Foto: Divulgação

Banco Barco de Dedé – Foto: Divulgação

Nascido em Ilha do Ferro, adora mostrar o sertão aos turistas. Faz bancos, mesas e prateleiras com sustentação de galhos orgânicos e base de canoas recicladas.

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