Amanda Santana – Foto: Paulo Veloso e Carol Lá Lach

Por Dani Pizetta, com fotos de Paulo Veloso, Carol Lá Lach, Helena Cooper e Simone Giovine

Amanda Santana construiu seu caminho costurando relações sólidas e, muito antes de a pandemia chegar, já sabia que, mesmo se o mundo estivesse caindo lá fora, vida boa é aquela que preserva e acolhe sentimentos e emoções. Sua vibe zen extrapolou até mesmo a tela do meu computador, pois foi por meio de uma vídeochamada que percebi sua alma sertaneja se materializar na minha frente.

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Percebe-se que Amanda tem “natureza” correndo pelas veias, mas conta que nem sempre foi um mar de rosas. Aliás, sair da zona de conforto é sua receita para o sucesso. Aos 38 anos, casada com o antropólogo Fernando Niemeyer, é mãe de Sebastião (3) e Valentim (2). Para entender seu presente, é preciso voltar no tempo e viajar com ela.

Mandalas criadas por artesãos indígenas do Tapajós, no Pará

Percebe-se que a mineira de Ipatinga conhece bem o Brasil e o brasileiro. Respeita seus contrastes, mas prefere jogar luz nas suas raízes. Aos seis anos, mudou-se com a família para o Nordeste e, aos 13, todos seguiram para Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, onde passou a adolescência.

Adulta, mudou-se para a capital fluminense e formou-se atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Teve uma experiência internacional
ao estudar Maquiagem Cinematográfica, em Los Angeles, e, no meio disso tudo, se aventurou por São Paulo (cidade onde aprendeu o que é ter insônia e bruxismo), até voltar ao Rio, onde abriu um “ateliê de beleza” focado em maquiagem e cabelo.

Amanda percorreu diferentes paisagens até descobrir que o ritmo e o barulho da cidade grande podem nos desconectar em vez de conectar. Mas o que a diferencia de outras pessoas sensíveis vivendo em grandes metrópoles, é que ela soube a hora de se retirar.

Criação da Tucum Brasil

Bracelete feito pela Artesâ Angélica Yawanawá, na Aldeia Matrinxã, no Acre, à venda no marketplace
da Tucum Brasil – Foto: Helena Cooper

Em 2018, finalmente sentiu corpo e alma se encaixarem ao fechar seu ateliê e se aninhar com o marido e os dois filhos na zona rural de Teresópolis para, juntos, dedicarem tempo e energia à nova empreitada do casal, a Tucum Brasil, um marketplace que conectará artesãos indígenas de todo o Brasil com consumidores de todo o mundo, previsto para ser lançado no dia 17 de dezembro.

Claramente, o encontro dos dois tem um propósito maior e foi Fernando, que além de antropólogo é indigenista, o elo entre a delicadeza
da alma de Amanda e o novo negócio do casal. Tudo começou no início do relacionamento, quando ela o acompanhou em uma de suas viagens a trabalho pela Amazônia, em 2009. Amanda não só se conectou com a cultura indígena, que conheceu de perto, mas com suas pessoas e seu artesanato.

Amanda Sanchez, em sua casa em Teresópolis, com bracelete da comunidade indígena Yawanawá, do Acre

Na segunda viagem para a Amazônia, voltou de lá com muitas peças e decidiu fazer um bazar entre amigas. Logo veio uma loja física que funcionava juntamente com seu ateliê, depois um e-commerce e agora o marketplace que está sendo acelerado pela Plataforma Parceiros da Amazônia (PPA), uma ação coletiva liderada por empresas do setor privado, cujo objetivo é encontrar soluções para o desenvolvimento sustentável e conservação da biodiversidade, florestas e recursos naturais da floresta.

A pandemia

Artesã Kayapó, da Aldeia Moykarakô, no Pará – Foto: Paulo Velozo

Durante a pandemia, o casal não desacelerou, mas foi antes dela se instalar que Amanda viveu algo parecido com o romance apocalíptico do brasileiro Marcelo Rubens Paiva, “Blecaute”. “Eu tive dois filhos próximos e fiquei muito tempo sem viajar, precisava de um escape”, disse ela. “Tinha acabado de desmamar o Valentim e senti que eu merecia um carinho.”

Era início de março e, antes que pudesse prever os “estragos” da pandemia, Amanda resolveu unir work e pleasure e viajou para Cacoal, no estado de Rondônia, para uma imersão com artesãs locais na Terra Indígena Sete de Setembro, mais precisamente na aldeia Paiter Surui.

Mulheres do povo Kayapó cantam durante Festa Menirebiok – Foto: Simone Giovine

Livre de tudo e de todos, entrou na experiência de coração aberto. Foram cinco dias sem contato com o mundo externo (e totalmente offline). Ao sair, encontrou o planeta “virado do avesso”. Começou a ler notícias sobre o lockdown na Itália, casos de Covid-19 chegando ao Brasil, máscaras, dúvidas, incertezas e medo. “Entrei de um jeito e quando achei que havia sido transformada internamente pela sabedoria daquelas mulheres índias e artesãs, percebi que, aqui fora, a revolução era ainda maior.”

Passado o susto inicial e munida da costumeira tranquilidade interna, Amanda voltou para seu ninho em Teresópolis e, assim como todos nós, esperou o tempo nos mostrar o caminho. Continuou a estruturar seu novo negócio ao lado do marido e divide seus dias entre filhos, casa e reuniões online para capacitar os grupos de artesãos e inseri-los na sua plataforma.

Amanda usa gargantilha do povo Xipaya, do Pará

Ao perguntar para Amanda qual foi o maior aprendizado que recebeu convivendo e agora trabalhando diretamente com os primeiros habitantes do Brasil, ela diz que é “o cuidado que devemos ter com as nossas relações”. “Os diferentes povos indígenas podem ter suas peculiaridades, mas têm uma coisa em comum: cultivam e se responsabilizam por suas relações, e a minha com eles, eu jamais comprometerei.”

Enquanto Amanda não pode voltar à Amazônia, perguntei como seria um dia perfeito na sua casa em Teresópolis, e ela diz que é: “acordar antes das crianças, fazer yoga, cuidar da horta e logo entrar no dia a dia da família e do trabalho.” As crianças estudam em uma escola rural e ela tem apenas uma saudade do tempo pré-pandemia: o convívio com os amigos que também se mudaram para Teresópolis em busca do mesmo lifestyle. Já, já, Amanda…Já, já!