Foto: Romulo Fialdini

Por Sylvain Justum

Sabe os longos vestidos de ares setentistas inspirados na companhia de dança internacional Ballets Russes que Cris Barros desenhou para o verão 2012? Pois eles, mais as deliciosas batas bordadas da estação e outras tantas peças de coleções recentes têm, além da assinatura da estilista, um outro ponto comum: todos nasceram a 263 quilômetros de São Paulo, numa fazenda em Avaré, mais precisamente entre as copas de duas paineiras centenárias.

Foi ali, em meio a muito verde e animais silvestres, que Cris e o marido, o empresário Toninho Abdalla, decidiram erguer, há dois anos e meio, uma nada simples “casa da árvore”. Pronta em 2010, virou refúgio para momentos de ócio criativo de uma workaholic assumida e para programas intimistas com amigos.

“Hoje não vivo sem esse lugar, mas não vou mentir, a ideia foi do Toninho”, diz Cris. “No início, eu não entendia por que raios ele queria construir uma casa na árvore, afinal, estávamos confortáveis na sede da fazenda.” À medida em que o projeto ia tomando forma, Toninho e sua  verve arquiteta foram convencendo a mulher de que a ideia não tinha nada de exdrúxula. O projeto foi executado pelo carpinteiro Aparecido e seu filho William, velhos conhecidos da família do empresário e, acredite, experts em construir casas em árvores. “Acho que foi um sonho de infância, despertado ao visitar a fazenda de um amigo, que tinha feito uma casinha para as crianças”, conta Toninho. “Veio, então, a ideia de adaptar o projeto para uma criança mais crescidinha”.

A empreitada, erguida com madeira de ipê, peroba rosa e angico preto, levou um ano e meio para ser finalizada e contou com a colaboração de amigos, família e alguns bichos. O veado Chico, por exemplo, perdeu a mãe muito cedo e se acostumou a interagir com as pessoas na fazenda. Foi para proteger Zorro, o cão da raça Lhasa Apso de Cris e desafeto de Chico, que uma cerca foi erguida em torno da nova morada, dando acabamento estético e funcional às escadas de acesso. Se não interferiu muito na parte arquitetônica, Cris deu seus pitacos, sim, na hora de decorar os 400 m2 de área construída. Entre visitas à loja de Juliana Benfatti, móveis trazidos da sede da fazenda e outras descobertas de Toninho, o décor foi tomando forma. Contou, é bem verdade, com a participação mais do que especial da amiga e decoradora Esther Giobbi, que garimpou peças pontuais para a casa de dois quartos, rústica, pero no mucho, onde peles zebradas e malhadas convivem em harmonia com os chifres de veado usados no pufe – não, não são de nenhum parente do Chico, mas de resina! – e filmes selecionados na Apple TV. No ambiente, propício para a criação, o sinal de celular é pífio e há muitos livros, além da fauna inspiradora para os amantes da natureza.

A lã da ovelha, a couraça do jacaré, a pelagem pintada da onça ou a grosseira da capivara podem servir de ponto de partida para uma das peças das coleções de Cris Barros; assim como um simples talho na casca da árvore. Já a estampa dos panos trazidos do Marrocos, vintage demais para virar roupa, são perfeitos para servir de cobertura a alguns móveis. “Não dou conta de encarar a pauleira do dia-a-dia, chegar em casa e ainda criar uma coleção”, explica a estilista. “Preciso de momentos unplugged, como os da fazenda, para começar alguma coisa. É uma válvula de escape, de certa forma”. Não se engane, portanto, com o glamour dos vestidos fluidos usados por Cris nas fotos ao lado, pois o clima nesta casa da árvore está mais para comunidade alternativa do que para red carpet. “Nem faço mala quando vou para lá. Quando chego, visto logo um dos meus muitos panos, que transformo em bata ou algo do gênero”, revela. “Adoro andar descalça na terra e exercitar meu lado hiponga nos fins de semana. É o momento que tenho para curtir minhas realizações e me aproximar de pessoas que amo. Esse é meu verdadeiro luxo!”. De fato, Cris tem razões de sobra para comemorar, seja na cidade grande ou na fazenda, suas realizações.

O sucesso da parceria com a Riachuelo, que abarrotou lojas e esgotou araras em tempo recorde Brasil afora, surpresa para a estilista e também para a rede, foi um dos pontos altos do ano. A celebração dos 10 anos da grife, completados no mês passado, deve pontuar algumas ações da marca para este ano. De fato, certas conquistas são mesmo de dar orgulho: 80 pontos de venda pelo Brasil, quatro lojas próprias e presença em 21 países, em prateleiras estreladas como as da Colette e Harvey Nichols. Mas, já que o assunto aqui são momentos intimistas off duty, talvez um dos momentos mais especiais de 2011 tenha sido oficializar o casamento com Toninho, em abril, com discreta cerimônia black-tie realizada em casa.

Cris lembra que, quando criança, nunca foi muito moleca, dessas de subir em galhos e arranhar os joelhos. “Sempre fui princesinha, delicada, escolhia o cavalo mais manso para montar, a roupa mais arrumada, essas coisas”, diz. Com a construção da casa na árvore, a bela arrumou um ótimo jeito de recuperar o tempo perdido e juntar os dois universos. A alfaiataria de sua última coleção tem, inclusive, muito da casa. Trabalhei muito inspirada em casacas militares e casacas antigas. Desenhei grande parte da coleção de alfaiataria em um fim de semana na fazenda, pode ser que o cenário tenha ajudado…”, arrisca. Privilegiados também são os filhos dos amigos mais próximos, convidados a passar uns dias em Avaré, onde a experiência ganha todo um novo sentido.