Por Ana Paula Buchalla
Edição de décor Fabrizio Rollo 

Soraya Milan costuma dizer que não existe mulher feia ou mal vestida: o que existe é uma mulher mal editada. A diretora criativa da Bo.Bô é mestre na arte da edição – mais precisamente, da boa edição.

Quem mais combinaria com tamanha classe um cashmere com estampa de caveira a uma saia de onça? O mix de peças, cores, estilos e estampas, que deram personalidade à marca, vieram do universo particular desta artista plástica de formação (seu diploma é de comunicação visual, pela FAAP), apaixonada por moda desde a passagem por Paris, onde viveu dois anos, no início da juventude.

As araras refletem o talento de Soraya: combinar, sem se exceder. “Levei meu jeito de ser dentro de casa para a Bo.Bô”, diz. É esse seu jeito todo próprio que faz com que convivam em harmonia – e com muita graça – associações improváveis. Um exemplo? Uma rainha da Inglaterra de plástico que acena com uma das mãos (um divertido souvenir do casamento real de William e Kate) e um Vik Muniz (da série Chocolate) estão lado a lado na sua sala de estar.

Divertido também é o encontro de duas cadeirinhas amarelas, amuletos da sorte comprados em Nova York, com porcelanas azuis e brancas cheias de história na mesma prateleira de uma estante no living. É talento para poucos. No caso de Soraya, a noção de cores, proporções e materiais são o segredo do savoir faire e da sofisticação.

Em qualquer canto do casarão de linhas clássicas, claro, iluminado e cercado de verde, no coração do bairro paulistano de Cidade Jardim, onde vive há 25 anos com o marido, o leiloeiro Ronaldo Milan, e dois filhos, há uma combinação pensada. Em cada encontro de objetos, de uma velinha de cheiro com um coffee table book que seja, há uma história. O livro em questão é de Michael Roberts, o poderoso editor de moda da Vanity Fair, com uma dedicatória especialíssima para Soraya: “Para a pessoa mais elegante de São Paulo”. Como discrição é tudo em sua vida, é preciso abri-lo para descobrir o elogio…

Os espaços na casa de Soraya seguem uma sequencia lógica. “São editados, como tudo o que faço”, diz. Boa parte das peças foram adquiridas em acervos pessoais, como uma minipoltrona francesa que veio do espólio de Rodolfo Scarpa, ou garimpadas em antiquários daqui e do exterior. Outras, assim como os tecidos dos estofados, Soraya traz das viagens que faz – caso da mesa indiana, que exibe rica marchetaria. Sobre a peça, vasinhos de flores (há vários deles espalhados pela casa) e uma coleção de copos coloridos de cristal. As flores, aliás, são trocadas semanalmente por sua cunhada, a florista Lucia Milan. “Assim como eu, ela trata as flores como estampas”, diz. E eis que lírios misturados a rosas e orquídeas formam uma combinação viva e alegre de cores.

Obras de arte e coleções de fotos distribuem-se por, praticamente, todos os ambientes. Um de seus melhores amigos foi Marcantonio Villaça – no início dos anos 90, ele inaugurou a galeria Camargo Vilaça, que se tornou referência para a arte contemporânea brasileira. Por meio dele e da sócia Karla Meneguel, Soraya foi apresentada a trabalhos como os de Vik Muniz, Adriana Varejão, Rosângela Rennó e Beatriz Milhazes. “Marcantonio me dizia: ‘Compre que isso vai ser um sucesso’. Acabei adquirindo obras incríveis, das quais não me desfaço de jeito nenhum”.

É o caso da coloridíssima tela de Beatriz Milhazes, onipresente no hall de entrada. “Não é a minha cara?”, pergunta. Sim, assim como a cortina de palha da janela com vista para a varanda parece ter sido feita para ornar perfeitamente com a seda verde e amarela. Também é a sua cara combinar o aubusson com almofadas de onça. Mas não tente imitar Soraya – ao menos se você não for muito segura do próprio gosto. “Meu segredo está no não-medo de ousar. Menos é mais, e eu acredito nisso muitas vezes. Mas, quando se trata de uma combinação diferente, não se pode ter medo. Ele te paralisa e faz com que você perca a atitude. E isso vale não só para a sua casa, mas para a roupa que você vai vestir”, ensina.